
Vou aqui fazer um elogio do Fado. Não porque o Fado necessite de ser elogiado por mim, mas eu é que gosto tanto de Fado que sinto necessidade de o elogiar.
Como é sabido, o Fado tem, ao longo dos tempos, suscitado vivas polémicas. São sobejamente conhecidos vários argumentos que contestam a qualidade desse estilo musical. Alguns intelectuais e artistas portugueses, como José Gomes Ferreira e Fernando Lopes Graça (que considerava o Fado “o inimigo número um” da música popular portuguesa), gastaram o seu latim e a sua tinta a vociferar contra ele. Confesso que a maior parte desses argumentos não me convencem de todo e tentarei aqui refutá-los.
Sobretudo por parte daqueles que nasceram nas décadas de 60 e 70 do século passado, a velha afirmação de que o Fado é piegas, “choradinho”, que tende a abordar temas relacionados com desgraças de folhetim, ainda se ouve, estranhamente. É verdade que não é difícil encontrar letras que corroborem esse argumento, letras que choram filhos ceguinhos e filhinhas que em tenra idade se tornaram anjinhos do céu. O problema é que não são a maioria e não o são há muito tempo – pelo menos, desde que o Fado começou a ser gravado em discos, nos princípios do séc. XX. Trata-se, pois, da vulgar falácia de julgar o todo pela parte. Nos seus primórdios, quando se estabeleceu como canção urbana, no séc. XIX, talvez assim tenha sido. Mas decerto era esse o ar do tempo em Portugal, não se passava isso apenas no Fado! Basta lermos “Os Maias”, do Eça de Queiroz, para encontrar uma sátira feroz contra a poesia lamechas que por cá imperava naquele tempo. Ainda assim, e como contra-exemplo, o Caetano Calcinhas, fadista do séc XIX (morreu em 1894) já criava algumas quadras na boa tradição popular: “Eu rendo culto à pena,/ não rendo culto à espada./Quem mata p’ra ter glória/cá p’ra mim não vale nada!”
Atente-se que essas mesmas pessoas que esgrimem o argumento da pobreza poética das letras do Fado – demonstrando, assim, que estão escandalosamente desactualizadas no assunto – não se insurgem contra a futilidade “I love you,/ you love me” de tantas canções pop-rock, por exemplo. Por que será? Porque é que, nesse caso, isso não as aflige? Será que a alegria pode ser superficial, mas o sofrimento não? De facto, o sofrimento é coisa séria. E se o Fado ama glosar o tema é porque é uma canção, já se sabe, muito “madura”. O Fado exige de si próprio uma qualidade que se dispensa nesse adolescente eterno que é a música pop-rock. O que acontece é que o Fado é incompatível com a mediocridade, enquanto que esta sobrevive bem na pop-rock (e eu gosto muito também, para que conste desde já, de pop-rock). A mediocridade, no Fado, (no que respeita às letras, à interpretação, à apresentação, à melodia) torna-se insuportável. Porque o Fado não é, nunca quis ser, mero entretenimento.
Tratar o tema do sofrimento através de um apelo grosseiro aos sentimentos, no estilo “Meu amor abandonou-me/, tirei a faca da cozinha/ e a vida a três filhinhos/ e tirei depois a minha.” é imperdoável, além de patético e escrito já no túmulo. Como não recusou a sua maioridade, se não planeava desistir de temas “pesados”, o Fado depressa percebeu que a qualidade era essencial. E que diferença entre uma letra como a inventada por mim ali acima (houve semelhantes) e a de Sérgio Godinho, sofisticadíssima, sobre o mesmo tema do abandono: “Meu amor deixou-me um dia/ pus a mão na laje fria.” ("Liberdades Poéticas", canta Mísia). Todo o frio de alma sentido pelo abandono é elegantemente transferido para uma pedra. O sofrimento diz-se assim muito melhor, a sua transmissão é muito mais eficaz. Os fadistas, criaturas geralmente muitíssimo inteligentes e de sensibilidade poética muito apurada, aperceberam-se cedo disso. O Fado, nem na alegria se permite ser superficial. Relembremo-nos da letra dessa linda “Sardinheiras”, um amor feliz cantado por uma jovem Amália, onde “há sol por dentro e por fora/ da minha alegria enorme.”


Linhares Barbosa
Letras como “Colchetes d’oiro” (canta Frei Hermano da Câmara), “Avé Maria Fadista” (canta Amália, Pinto Basto), “Maria Madalena” (canta Lucília do Carmo),“Tia Macheta” (canta Berta Cardoso) originam fados magistrais. São perfeitas, tendo em conta o seu propósito. E o seu propósito não foi serem grandes poemas, foi serem grandes suportes para fados. Os grandes poemas são outra coisa, servem outros propósitos e, contendo por si sós uma melodia interior, dispensam perfeitamente serem musicados. Que os fadistas sejam prudentes, pois, que os tratem com pinças de ouro, não porque os possam estragar, pois eles erguem-se sozinhos, mas porque a sua carreira pode ficar arruinada se a interpretação não estiver à altura.
Linhares Barbosa, Carlos Conde, Frederico de Brito, Francisco Radamanto, Silva Tavares, o grande Gabriel de Oliveira – o “poeta marujo” – autor da “Sra. da Saúde” (canta Marceneiro, Amália) – eram homens “do povo”, como se dizia dantes, e grandes mestres letristas. Linhares Barbosa vivia (mal, infelizmente) da venda das letras para fados que escrevia. Hoje em dia, muitos fadistas, não podendo a eles recorrer, ou a outros que se lhes assemelhassem, mergulham na obra dos grandes poetas consagrados à procura do que cantar. É pena, assim não surgem letras novas. Devia isso que se passa ser a excepção e não a regra. A Amália, que foi a primeira a atrever-se a cantar poetas consagrados, ciente do que fazia, nunca caiu no exagero, nunca se limitou a eles.
Os grandes poemas não ganham nada em ser musicados – não precisam disso. E nós sentimo-lo ao escutarmo-los musicados. No entanto, se o trabalho for bem feito, também nada perdem e é uma maneira de chegarem a quem não os lê. “Com que voz”, de Luís de Camões, nunca precisou de ser cantado por Amália. Era em si inteiro e autónomo, criação de um grande poeta. Mas Amália ousou cantá-lo e, génio também que era, conseguiu superar a prova. À Amália não tem cabimento impor-se-lhe limites; ela própria era ilimitada. Mas não deu mais qualidade ao poema, pois ele já a tinha toda. Conseguiu foi cantá-lo respeitando-lhe a qualidade.
Uma letra feita de raiz para ser cantada, contudo, como as de Linhares Barbosa ou Gabriel de Oliveira, “sabe” que só ficará completa com a melodia e que, assim, irá ultrapassar imperfeições que possa esconder. No final, tudo estará certo e resultará bem: esse é o grande milagre das canções. Toda a gente conhece a velhinha canção popular: “Ai, que lindos olhos tem a padeirinha ,/ é mal empregada andar à farinha./ Andar à farinha, andar ao calor/oh, que lindos olhos tem o meu amor!” Isto assim, cru, sem a melodia, parece muito fraquinho. Mas todos lhe conhecemos também a melodia – quereríamos nós outra letra para ela? Não, esta é que está certa, não queremos uma letra “de qualidade”, obrigada! A qualidade está em ser o que ela é e em não querer ser mais do que isso.
Poemas que, sendo embora razoáveis, parece que lhes falta qualquer coisa, resultam em óptimos fados – letras do Pedro Homem de Mello como “Povo que lavas no rio” (imortalizado por Amália, este poema “subiu até ao povo”, nas palavras do autor), “O rapaz da camisola verde” (canta Amália, Frei Hermano da Câmara) ou “Cavaleiro Monge” que é um poema menor de Fernando Pessoa. A esses a música traz-lhes realmente qualquer coisa de novo, acrescenta-lhes toda uma dimensão de que careciam.

Gabriel de Oliveira
Outra extraordinária característica do Fado, que revela a sua extrema maturidade, é o facto de se pensar a si próprio. É assombroso o número de letras em que tal sucede. O rock não se pensa a si próprio, não explana a sua própria história. Está sempre a nascer de novo, como se não a tivesse. Refiro-me, mais uma vez, ao pop-rock, pelo vivo contraste que forma com o Fado e porque é um universo que domino um pouco também. O Fado, pelo contrário, amiúde remete para o seu próprio universo, é auto-referencial. Quantas letras existem a explicar, ou a tentar explicar o que é o Fado! “Perguntaste-me outro dia/se eu sabia o que era o Fado. / Eu disse que não sabia, / tu ficaste admirado. /Sem saber o que dizia/eu menti naquela hora/e disse que não sabia /mas vou-te dizer agora. // Almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras/na Mouraria cantam rufias, choram guitarras. / Amor, ciúme, cinzas e lume, dor e pecado:/tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado. // (…) A canção que é meu castigo, /só nasceu para me prender. /O Fado é tudo o que eu digo/mais o que eu não sei dizer.“ Letra de Aníbal Nazaré (canta Amália, Lucília do Carmo). O Fado pensa em si, indaga sobre si – o que sou? - e, por isso, acaba por debruçar-se sobre a sua própria história, mítica ou factual. Pensa em si tanto em termos da sua história musical como em termos histórico-sociais. Fazendo-o, descreve Portugal e os portugueses. Mais uma vez, na pop-rock, nada de semelhante se passa.
Eis alguns exemplos de letras de fados que se referem à sua história musical –
Cantavam em dueto, em 1931, Ercília Costa e Joaquim Campos, explicando a génese de todos os fados a partir do Fado Marialva e do Fado Corrido: “Era só na Mouraria/ desde a noute ao romper d’alva/ que antigamente se ouvia/ a cantar o Marialva. // Seu irmão, o Fado Corrido, / em muita noutada louca, / era sempre um fado ouvido, / andava de boca em boca. // Glórias, epopeias, brilhos, / estes dois fados tiveram. / E sempre foram seus filhos / os outros mais que vieram. // São fados lindos, risonhos, / os fados da nossa idade. / E os velhos vivem dos sonhos / da passada mocidade. // Tanto a minh’ alma lhe quer, / com tamanha idolatria, / que eu canto enquanto puder/ o Fado da Mouraria.”. Linhares Barbosa explica assim a hegemonia do Fado da Mouraria em tempos idos: “Noutro tempo eu não sabia, / para mal dos meus pecados, /que o Fado da Mouraria/ era afinal Rei dos Fados. //Pegava e picava toiros, / tinha uma amante, a guitarra, /nascera nos bairros moiros, /na desordem e na algazarra. //O Fado da Mouraria, / esse velho e lindo fado, / era o pão de cada dia/ dos fadistas do passado.” (“Noutro Tempo”, canta Mª do Espírito Santo).

Cenário da famosa casa de fados "O Retiro da Severa", nos anos 30 do século passado. À esquerda, Júlio Proença; sentada, Maria Emília Ferreira; o segundo guitarrista é Carlos Ramos; a seu lado, o violista Santos Moreira; Alfredo Marceneiro colocou-se ao lado dos instrumentistas. A terceira a contar da direita é Berta Cardoso.
Num Fado da Severa mais jocoso, versão de Coimbra, composto talvez pelo Sales Patuscão, moço de forcado do Conde de Vimioso, instiga-se: “Chorai, fadistas, chorai, / que uma fadista morreu, / hoje mesmo faz um ano que a Severa faleceu. //O Conde de Vimioso / um duro golpe sofreu, / quando lhe foram dizer/"tua Severa morreu". //Corre à sua sepultura, / o corpo ainda se vê: ”Adeus, ó minha Severa, / Boa sorte Deus te dê! //Lá nesse reino celeste, /com tua banza na mão, /farás dos anjos fadistas/porás tudo em confusão.”
No delicioso “Tia Macheta”, Berta Cardoso canta: “O amante não aparecera, / triste, a Severa, sempre fiel, /chamou a tia Macheta, /velha alcoveta, p’ra saber dele. //A velha pegou nas cartas, /sebentas, fartas, de mãos tão sujas, /e antes de as embaralhar/pôs-se a grasnar como as corujas. //Ele não vem, minha filha, / di-lo a espadilha, há maus agoiros. /Há também uma viagem/ e um personagem, a Dama d’Oiros. //Esse conde é o meu fraco, /tome um pataco, tia Macheta./A velha guardou as cartas, / de sebo fartas, sob a roupeta. // Caíram três badaladas, /fortes, pesadas, três irmãs gémeas. /Cá fora, nos portais frios, /cantam vadios feias blasfémias. //O fidalgo não voltou, /Severa o esperou até ser dia. /E desde essa noite é que existe/o fado triste da Mouraria.” (Letra de Linhares Barbosa).

Berta Cardoso
No acima citado "Liberdades Poéticas", de finais do séc. XX, Sérgio Godinho retoma este tema da génese do Fado se achar num amor abandonado: "Meu ouvido corre aberto pelas ruas, / que será do meu amado? / Não me deixa, esta amargura, / é mais leve que a loucura. / E só por isso canto o Fado."
Sobre o tema do Mito já correram rios de tinta e só vou aqui relembrar que os mitos servem para dizer aquilo que de outro modo – a não ser através deles – não poderia ser dito. Ouve-se muitas vezes o comentário depreciativo: “Não passa de um mito!” Mas o mito não é algo de menor. Obviamente, devemos ser capazes de distinguir o que é mito do que não é; e mitos não devem ser aceites sem discernimento crítico. Subvalorizar o mito, porém, não é uma atitude correcta. O mito é algo de profundamente enraizado na história e na mente do ser humano. As sociedades humanas começaram por ser mitológicas e, ainda hoje, a literatura embebe-se de mito, a poesia embebe-se de mito, a arte embebe-se de mito, a religião embebe-se de mito. Vamos ao cinema para sentir o “transporte” que sentiam os nossos antepassados (e os nossos irmãos das sociedades tribais de hoje em dia), reunidos em volta da fogueira, em caindo a noite, ao escutar as histórias dos anciãos. O tempo cronológico pára e passamos a viver fora do espaço-tempo. O poder do Fado revela-se também no facto de estar profundamente enraizado em mitos.
É por isso que custa ouvir certos fadistas afirmar que as letras do fado têm de se adaptar a este tempo, pois já não há Severas e Vimiosos! Ora, um mito está fora do tempo. Isso assemelha-se a dizer que o poema do “Adamastor” de Fernando Pessoa está ultrapassado, pois é um mito, já ninguém acredita no Adamastor. Ora, alguém se cansou de ouvir a história do Adamastor? E de Abel e Caim ou de Eros e Psyché? Claro que não, uma das particularidades dos mitos poderosos é poderem ser repetidos até à exaustão. O ser humano afeiçoa-se a eles, tal como as crianças às histórias antes de adormecer. Sempre as mesmas, sempre novas. Uma vez que o tema que os mitos abordam é mistério, são inesgotáveis. Daí que se possa ser incrivelmente criativo pegando num tema velho e, pelo contrário, apesar de o tema ser novo, falhar-se criativamente.

Voluta de guitarra de Lisboa
Há também quem pareça pensar que o Fado tem de ser renovado para sobreviver e que essa renovação tem de passar obrigatoriamente por novos adereços. Por acrescentos. Por ornamentos. Um violoncelo. Um piano. Um violino. Uma dança. “Porque o Fado já se dançou”, justificam. Pois, repare-se que o verbo vem no passado. Não se deve proibir tentar dançar o Fado, mas se o Fado prescindiu da dança – “batia-se” o Fado, segundo parece, num episódio transitório – é porque não precisa dela para nada. Não lhe falta a dança. A sua expressão não passa por aí. Nem toda a música é feita para dançar e não é por isso menor do que a que é dançável. Tal como um poema não musicável não é menor, longe disso, do que um que possa ser cantado. Quanto aos pianos e aos violoncelos, também devem ser bem-vindos. A defesa exacerbada da “pureza” revela-se sempre perigosa. Agora, reconheça-se que se pode fazer óptimo Fado com uma viola e uma guitarra e ponto final. Que esse é o Fado mais difícil. O grande milagre do pouco se fazer muito. Os pintores chineses executavam as suas obras-primas apenas com papel e tinta preta. Bastava-lhes. E tocavam o infinito com esses dois instrumentos. “A Amália partiu a conquistar esse mundo fora, sozinha, apenas com duas naus: uma guitarra e uma viola” – na morte da fadista, um seu admirador anónimo proferiu esta magnífica frase frente às câmaras de televisão. Através do máximo despojamento, atingir a excelência – esse é o grande milagre. A simplicidade original do Fado é uma mais-valia. Não é uma deficiência. É porque mais não lhe faz falta. Com uma guitarra e uma viola é possível alcançar as estrelas. Difícil? Pois é. Mas muitos conseguem-no. Temos e tivemos imensos fadistas excelentes. Num género muito difícil.

Alfredo Marceneiro
Claro que é tarefa dos historiadores do Fado perceber com distinção aquilo que no Fado é dito e que pertence à esfera mitológica. Agora, o Fado é Arte, não tem de ser historicamente correcto. Não que o Fado seja incapaz de dar verdadeiras lições de história. Recordemos o “Fado Corrido”, uma letra de Manuel de Almeida que ele próprio cantou: “Meu velho Fado Corrido, / se foste dos mais bairristas, /porque te mostras esquecido/na garganta dos fadistas? //Explicou-me um velho amigo/como o Fado era tratado. /Tinha graça, o Fado antigo, /a forma como era cantado. //Um ramo de loiro à porta/ indicava uma taberna. /À noite era uma lanterna, /com sua luz quase morta. /Como o fado tudo “importa”/foi sempre a taberna abrigo/do meliante ao mendigo, /da desgraça e da miséria. /Também tinha gente séria, /explicou-me um velho amigo. //Sob os cascos da “vinhaça”, /deitada em forma bizarra, /estava sempre uma guitarra/para servir de “negaça”. //O canjirão da “murraça”, / de tosco barro vidrado, /andava sempre colado/aos copos p’lo balcão. //E era assim nesta função/como o Fado era tratado. //Se aparecia um tocador, /às vezes até “zaranza”, /pedia ao tasqueiro a banza/para mostrar seu valor. //Logo havia um cantador, /dando o tom de certo perigo, /provocava o inimigo/num cantar à desgarrada. /Até às vezes com “lambada”, /tinha graça, o Fado antigo. //Pouco tempo decorrido, / cheia a taberna se via/p’ra escutar a cantoria/ao som do Fado Corrido. / Todos prestavam sentido/quando alguém cantava o Fado. /O tocar era arrastado, /o estilo dava a garganta. / E hoje pouca gente o canta/da forma que era cantado. //Escutei com atenção/um cantador do passado/e a sua linda canção/prendeu-me p’ra sempre ao Fado. / Por muito que se disser, /o Fado é canção bairrista. /Não é fadista quem quer/mas sim quem nasceu fadista.”
Todavia, convenhamos que o Fado não tem de apresentar letras que falam do lundum e das modinhas e da conjuntura sócio-económica dos princípios do séc XIX que justificou o seu aparecimento. E o Fado não o faz. O Fado canta muitas vezes a sua própria história mitológica, que é a maneira como se sente e como se vê a si próprio. E o Fado sente-se herdeiro das “caravelas do Gama“, do marinheiro que “estando triste, cantava” (“Fado Português”, de José Régio). E como não? O Fado é português! Não somos herdeiros das caravelas do Gama e filhos do marinheiro que, estando triste, cantava? Isso significa, pois, que o Fado se sente português. Talassicamente português. Por isso é que se diz que ele é “a alma de um povo”.

Emigrante português despedindo-se, levando a sua guitarra (anos 50 do séc.XX).
O Fado sente ser muito mais do que é cronologicamente, do que é historicamente no sentido estrito. Ultrapassa o seu tempo histórico para abraçar toda a história de Portugal. Canta a grande Hermínia Silva em “História do Fado”:“O Fado é uma trova tão bizarra, /como a brilhante chama dum fanal. /É bem a catedral de uma guitarra, /divino Padre-nosso em Portugal. // Trova nascida não sei de que autor,/canta a saudade a soluçar a dor sentida. /Fosse quem fosse o seu inventor, / vem desde o Alcouce /a dar mais brilho e luz à vida. //Apaixona os poetas e os artistas/e tem na terra lusa um tal poder/ que os fidalgos desceram a fadistas/p’ra ouvir mais de perto e aprender. //E assim carpindo as mágoas fatais, /lá foi subindo aos salões onde há grandeza. /Já foi cantado nos Paços Reais/ e assim o Fado vem a ter também nobreza. //Vive a brincar nos lábios das donzelas, /o Fado que se canta em Portugal. /Soluçou a sorrir nas caravelas/ acompanhando a frota nacional. //Todo um passado de glória a fulgir, /canta-se o Fado com amor, com fé e esperança. /Gemeu, chorando, Alcácer Quibir;/cantou, vibrando, lá nas trincheiras em França.” (Letra de Avelino de Sousa.). E Vicente da Câmara Pereira, em “Como é que nasceu o Fado”, com letra de Francisco Branco Rodrigues: ”Se há quem lhe interesse saber/ como é que nasceu o Fado, / cantando, vou responder, / porque estou bem informado. // Ele nasceu, era fatal, / num certo e tristonho dia/ de uma união natural/ p’rós lados da Mouraria. // Ele nasceu logo fadado/ com a tradição por virtude/ e baptizaram-no de Fado/ na Senhora da Saúde. // Fez-se adulto, quis sair, / coisa a que ele não resiste, / e foi para Alcácer Quibir, /mas voltou inda mais triste. // Foi nobre e foi plebeu, / é tudo onde a Raça impera,/ pelos dotes que Deus lhe deu,/ foi amado p’la Severa.// Mas eu não disse, afinal/ quem foi a mãe. A meu ver, / ele é filho natural/ duma guitarra qualquer.”



Forjava-se lá, decerto, em Alcácer Quibir, subliminarmente, o futuro Fado. Não somos todos sobreviventes de Alcácer Quibir? O Fado, porque é português, foi para Alcácer Quibir e lá morreu, deixando ao lado esse instrumento entre todos amado pelos portugueses: a guitarra. A guitarra é o que mais se assemelha, em relação aos portugueses, à espada do samurai. Para o samurai, a espada era a sua alma. Para o português, é a guitarra. O amor dos portugueses pelos instrumentos de cordas está gravado em documentos muito antigos.
O Fado sente-se, pois, profundamente português. Foi a história e a mentalidade portuguesas que o tornaram possível. Tem certas influências remotas vindas de África, do Brasil? Reclama uma costela moura? Bem, mas o que é isso senão ser português? O verdadeiro português sempre foi universal, “das sete partidas do mundo”. O Fado é filho de Portugal. Medrou apenas em Portugal, não em África, não no Brasil, não em Marrocos. Esses povos inventaram outras formas de se exprimirem, que convêm melhor àquilo que são: “O Fado é sexto sentido / que distingue o português, / para ficar entendido / basta cantar-se uma vez. / Só à guitarra tocamos / a alegria que fingimos: / o Fado que nós cantamos / é sina que nós cumprimos.” Letra de Rodrigo de Melo, “Fado do Fado” (canta Amália). “Para se ser bom português, / neste país encantado, / é preciso amar alguém / e saber cantar o Fado.” (Maria Silva, “Fado da Mouraria”, 1928). “O Fado é canção d’encantos, / tão nobres, tão altaneiros, / deste meu país de santos, / de poetas, de guerreiros. // Ó almas lusas, cuidado, / ouve-se ao longe cantar. / Ajoelhai, passa o Fado – / vai Portugal a passar.” (Madalena de Melo, “Fado em Ré Maior”, 1928.). Mais recentemente, esta letra de Tó Zé Brito: “O Fado tem um fado, um destino:/ desde menino, ser português. / Nasceu num bairro antigo de Lisboa, / não foi à escola, mal sabe ler. // Deu os primeiros passos lá na rua, / cresceu à toa pela cidade/ e a primeira palavra que aprendeu, / nunca a esqueceu, foi a Saudade. // Mas saudade de quê, pergunta a gente / que o Fado sente, que o Fado sente? / Sem perceber por que é que o Fado há-de / ter tal saudade, ter tal saudade. // Se a vida nunca lhe deu coisa boa, / nasceu na rua e não é burguês, / saudade, só se for do seu destino: / desde menino, ser português. // O Fado tem um fado, um destino, / desde menino, que é Fado ser. / Cresceu do Bairro Alto à Madragoa,/ ganhou escola e altivez. // Deu os primeiros passos lá na rua, / cantou à toa pela cidade / e a primeira palavra que aprendeu, / nunca a esqueceu, foi a Saudade. // O Fado tem um fado, um destino, / tem um destino, que é Fado ser. / Mas tem outro destino, outro fado,/ que é ser cantado, p’ra não morrer.” (Canta Rodrigo).

O "Quarteto típico de guitarras": Carvalhinho, Martinho da Assunção, Joel Pina e António Couto
O Fado faz ainda questão de sublinhar a sua proveniência mista: é fruto da união da nobreza e do povo. Esse é mesmo um dos significados do seu mito fundador. Frederico de Brito, na “Biografia do Fado” descreve-o como um tipo popular acarinhado pela fidalguia, de tal maneira que lhe finge pertencer: “Perguntam-me p’lo Fado, eu conheci-o: / era um ébrio, era um vadio, / andava p’la Mouraria, / talvez ainda mais magro / que um cão galgo, / a dizer que era fidalgo, / por andar com a fidalguia. // O pai era um enjeitado / que até andou embarcado / nas caravelas do Gama. / Um mal-andrajado e sujo, / mais gingão do que um marujo / dos velhos becos de Alfama. // Pois eu sei bem onde ele nasceu, / que não passou de um plebeu, / sempre a puxar pr’a vaidade. / Sei mais, sei que o Fado é um dos tais / que não conheceu os pais / nem tem certidão d’idade. //Perguntam-me por ele, eu conheci-o / num perfeito desvario, / sempre amigo da balbúrdia. / Estava na moirama a horas mortas, / ia abrir as meias-portas, / era o rei daquela estúrdia. // Foi às esperas de gado, / foi cavaleiro afamado, / era o delírio no Entrudo. / Naquela vida agitada, / ele, que veio do nada, / não sendo nada, era tudo.” (Canta Miguel Sanches, Carlos Ramos). Vasco da Graça Moura inspira-se mais directamente no mito e fá-lo filho de ambas as classes sociais: “Talvez a mãe fosse rameira de bordel / talvez o pai um decadente aristocrata / talvez lhe dessem à nascença amor e fel / talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata. // Talvez o tenham educado sem maneiras / entre desordens, navalhadas e paixões/talvez ouvisse vendavais e bebedeiras / e as violências que rasgavam corações. // Talvez ardesse variamente em várias chamas / talvez a história fosse ainda mais bizarra / no desamparo teve sempre duas amas / que se chamavam a viola e a guitarra. // Pois junto delas já talvez o reconheçam / talvez recuse dar p’lo nome d’enjeitado / e mesmo aquelas que o não cantam, não esqueçam / nasceu assim, viveu assim, chama-se Fado.” (Canta Carlos do Carmo). No célebre “O Embuçado”, o Fado chega ao topo dos topos da hierarquia social. É, pois, amado por todos os portugueses: “Noutro tempo, a fidalguia / que deu brado nas toiradas / andava p’la Mouraria / e em muito palácio havia / descantes e guitarradas. // A história que eu vou contar / contou-ma certa velhinha / uma vez que eu fui cantar / ao salão de um titular / lá p’rós Paços da Rainha. // A esse salão dourado / d’ambiente nobre e sério / p’ra ouvir cantar o Fado / ia sempre um Embuçado, / personagem de mistério. // Mas certa noite houve alguém / que lhe disse, erguendo a fala: / ”Embuçado, nota bem, / que hoje não fique ninguém / embuçado nesta sala.” // E ante a admiração geral, / descobriu-se o Embuçado: / era El-Rei de Portugal, / houve beija-mão real / e depois cantou-se o Fado.” Letra de Gabriel de Oliveira, canta João Ferreira Rosa).
Armando Freire (Armandinho), o "Mago da Guitarra".
Não há, pois, que intelectualizar o Fado. O Fado é Arte, tem muito mais a ver com poesia do que com história. Ninguém exige à poesia, ou à Arte em geral, que seja historicamente correcta. A seiva do Fado tem de provir – e provém – das massas de gente anónima, essa é a sua base. Se começa a cantar-se apenas grandes poetas e a aburguesar a sua visão do mundo… Talvez o venham a chamar na mesma Fado, mas ter-se-á perdido aquele encanto que a gente simples, com a sua criatividade espontânea e desrespeito pelas regras académicas é capaz de lhe dar. Ou antes, criar-se-á um fado burguês, de canudo em punho (o Fado de Coimbra, que é um Fado ligado à vida académica, nunca o tratou de canudo na mão, isto é, brandindo a sapiência). Já é em grande parte este que chega às edições discográficas. Tenderá a separar-se cada vez mais do outro, do que corre nas veias do povo, que prosseguirá o seu caminho, como tem prosseguido. E que continuará a viver nas ruas, como tem vivido. Porque ser humano é ser criativo, sem para isso precisar de ter canudos. À semelhança de todos os outros povos do mundo, os portugueses são maravilhosamente criativos. Nunca houve um Fado aristocrático, mas houve sempre aristocratas fadistas. Porque não perverteram o espírito do Fado, faziam antes parte dele. Surgem, contudo, cada vez mais fadistas de cunho burguês, anémico (refiro-me, é óbvio, à mentalidade, não à camada social de que provêm). Parece que este fado burguês começa a correr paralelamente ao Fado da gente anónima, sem se tocarem. Até há fadistas que se querem demarcar da “má fama” dos fadistas do passado. A “má fama” intimida-os, como burgueses que são. Um fadista muito mediático dizia há pouco tempo na televisão que, antigamente, ser fadista “era uma coisa muito feia” e que os fadistas de agora tinham a obrigação de dar um novo estatuto a esse termo. Ou seja, não lhe agrada qualquer colagem à fadistagem do passado, à ralé das vielas e das tabernas manhosas. Mas querer demarcar-se das origens pobretanas da sua arte é que é “uma coisa muito feia.” Desejaria talvez um Fado engravatado e respeitável? Ora, o Fado só deve ser respeitado porque, como arte, merece respeito. Não porque apregoe o respeito e os bons costumes e a moral de pacotilha. Canta-nos José da Câmara Pereira no “Fado Fadista”, com letra de Eduardo Damas: “Não digam ao Fado / com ar de disfarce / que é baixo, que é reles, / que não tem valia / que aprenda ciência / e que seja poeta / mas doutra poesia. // Não digam ao Fado / que não entristeça / que apenas se alegre / nas provas da vida / que por maus ciúmes / não perca a cabeça / e não ande às cegas / por tão maus caminhos. // O Fado fadista / tem de tudo um pouco / tem tanto de artista / como tem de louco. / E veste-se de novo / à maneira antiga, / é filho do povo / e o resto é cantiga!”.


O Fado é uma voz interior a cantar. Não uma voz exterior. O Fado, como os portugueses – que são “almas velhas” – é sábio e um sábio nunca se exibe. O sentimento, no Fado, nunca deve ser vulgar, dramático. Mostra-se, sim, mas sempre com certo pudor, com subtileza. Há uma certa reserva, pois o tema é delicado. Os portugueses não são latinos ao modo dos italianos ou dos espanhóis. Todo o estrangeiro aponta a surpreendente reserva portuguesa que esconde, todavia, um gosto por relações profundas. Partilhamos certos traços com os japoneses – extremo ocidente e extremo oriente, – e este é um deles. Mas isso é outra história. Os grandes fadistas atingem a extrema sofisticação de conseguirem transmitir sentimentos, emoções devastadoras, sempre com uma contenção elegante que os torna ainda mais comovedores. “Tanto entristece ou encanta / garganta que canta o Fado, / que eu não sei, quando alguém canta, / se é feliz ou desgraçado.” Ercília Costa, “Fado Tango”, 1931. Eis o mistério do Fado. José Porfírio, numa voz de um timbre inconfundível (só conheço dois registos dele; infelizmente, morreu muito novo, nos anos 40 do século passado), expunha a mesma indefinição, em “Consagração ao Fado”, de 1929: “Há uma lenda bizarra / que no mundo me detém. / É Deus, o Fado, a Guitarra/ e a Alma da Minha Mãe. // O Fado é canção infeliz, / perdição de quem o abraça, / mas eu sinto-me feliz / por viver nessa desgraça. // E se ele um dia deixasse / a desgraça que contém, / já não tinha quem chorasse, / perdia o valor que tem.” A felicidade provém da transformação do sofrimento em Arte, que é o que significa dizer-se que a Severa inventou o Fado na noite em que o Vimioso não apareceu.
O Fado consiste, sobretudo, numa transmissão muito inteligente de emoções. Para isso contribui, não só a letra, não só a música, mas o desempenho em geral, a linguagem corporal, a interpretação como um todo. O famoso fechar de olhos dos fadistas, enquanto cantam, (“para olhar para o coração”, como canta Amália), a predilecção pelos fatos negros, a recusa da dança, mas a adopção de pequenos gestos como o torcer das mãos, tudo isso acontece porque a transmissão da emoção – que é o que mais importa no Fado – se torna muito mais eficaz. Daí este género musical conseguir comover povos das mais desvairadas latitudes.
Exigindo autenticidade, o Fado é um género extremamente difícil, apesar da base melódica, dizem os entendidos, ser bastante simples (outros defendem que não é tão simples assim). Se é verdade que é simples, tudo o resto não o é. As improvisações, as variações, o “estilar”, a dicção, o dividir das sílabas, a expressão autêntica da emoção, a linguagem corporal, a obrigação de ser original, de ter um estilo próprio de atacar fados muito cantados, as letras com temas difíceis, além do dedilhar da guitarra portuguesa, tudo o resto complexifica tremendamente a linha melódica, que não passa de uma mera indicação, de uma sugestão a ser trabalhada pelo cantador e pelos instrumentistas, os violistas e guitarristas – esses seres da sombra, essas naus dos timoneiros-cantadores. Uma voz e dois instrumentos numa comunhão profunda. Um corpo único de três partes que vai tocar num outro, aquele que escuta, convidando-o a entrar. Isto sem referir essa magia única que são as guitarradas e o emocionante despique das desgarradas, que são tão Fado quanto o quadro clássico do cantador com dois instrumentistas.


Além de se perspectivar a si próprio, o Fado criou um universo seu, o que é um dos traços da grande arte. Criou as suas próprias personagens (algumas inspiradas em vidas reais, outras puramente inventadas), que ganharam vida, e de tal forma, que surgem de fado em fado, numa verdadeira saga. São gente que todos nós conhecemos. Sabemos a vida toda da Mariquinhas. Essa personagem é tão marcante que tem sido objecto de várias letras, nas quais se descrevem diversas fases da sua vida, até à morte. A Rosa Maria da Rua do Capelão, que até parecia que tinha virtude no dia procissão da Senhora da Saúde, também surge em mais do que uma letra. E há a Cesária, a Júlia Florista, a Maria Vitória, o Chico do Cachené… Personagens fortes que tomaram de assalto o imaginário português. Isso é o que acontece com as personagens da grande literatura: pensemos num Dom Quixote, num Hamlet, numa Madame Bovary, – chegamos a conhecê-los melhor do que a nós próprios.


Lisboa antiga (Bairro da Bica)
O Fado, porém, ao qual interessa tudo quanto é humano, canta também a alegria, as toiradas nas tardes doiradas, a rambóia, as patuscadas...
Hermínia SilvaA consciência, muito fadista, de forças maiores do que nós, da morte, do acaso, de que tudo muda irrevogavelmente, significa lucidez. Não significa ser-se “um vencido”. Significa, pelo contrário, que se viveu, que se aprendeu a aproveitar melhor o que de positivo acontece. Essa lucidez é essencial para distinguir o que realmente importa do que é insignificante e perspectivar melhor o rumo a seguir. Se não há essa consciência, não será mais fácil ao “destino” pregar uma finta e apanhar o incauto? Vencida, a Lucília do Carmo, com aquela proa? Vencida, a Berta Cardoso, com aquele vozeirão? O Marceneiro, com aquele peito de galo? A Amália, astro que refulge no inteiro universo? Eu diria antes: Fado – canção de convencidos. Têm todos ar de quem não deixa que lhes pisem os pés. E ainda bem! Foi por ter consciência do seu valor que o Fado não se deixou espezinhar, apesar de ter sido tão vilipendiado e de ter começado por baixo, pelas vielas recônditas “onde a pobreza é rainha.” A “altivez” e “valentia” fadistas são muitas vezes cantadas: “Fadistas, eu amo o Fado, / essa canção genial / que dá nome à nossa grei. / Ser fadista é ser honrado, / ser fadista em Portugal / é ser português de lei. // Sem ter lança nem arnês, / o fadista dedicado / combate com galhardia. / Defende com altivez / o seu ideal, o Fado, / sua Pátria, a Mouraria. // Povo nobre e imortal, / nunca pensei mal do Fado, / não penso nem pensarei. / Adoro o Fado dolente, / essa canção genial / que dá nome à nossa grei.” (“Ser Fadista”, gravado por Adelina Fernandes em 1928.) E, num outro fado, igualmente intitulado “Ser Fadista”, cantavam Alfredo Marceneiro e o seu filho, Duarte Júnior, uma letra de Armando Neves: “Deixar de cantar não posso / o Fado, com altivez, / porque o Fado é muito nosso, / porque é muito português. // Canto com amor profundo, / com afecto sem igual / e eu mostro orgulhoso ao mundo / a canção de Portugal. // Eu sei bem que há mais canções / de sentimento e valor, / mas os nossos corações / sentem o Fado melhor. // Pois o Fado que rebrilha / nesta alma portuguesa / tem não sei que maravilha, / tem não sei quê de beleza. // Sempre o Fado há-de existir / enquanto houver ao luar / uma alma p’ra sentir, / um coração para amar. // Vê-o por fora o turista / que aquele Fado maldiz. / Sou cantador e fadista / p’ra honrar o meu país.” E ainda esta: “O Fado de antigamente / tinha vida, tinha cor. / Era cantado somente / por fadistas de valor. // Toda a gente que o cantava / tinha fama de valente. / Não se desmoralizava, / o Fado d’antigamente. // Num tempo em que toda a gente /o cantava por amor, / com desmedido primor / em renhidas desgarradas / e em alegres patuscadas, / tinha vida, tinha cor. // O Fado dava nas vistas / mas não era deprimente. / Por consagrados fadistas / era cantado somente. (…).” ,“Fado de Antigamente”, letra de Gabriel de Oliveira (canta Jorge Silva).

Cantam-se amores delicados como no já mencionado “Colchetes d’oiro”, uma letra de Henrique Rego: “Toma lá colchetes d’oiro, /aperta o teu coletinho, /coração que é de nós dois / deve andar conchegadinho. // P’ra ficar mais lindo ainda, / teu coletinho de rendas, / aqui trago, minha querida, / a mais modesta das prendas. / Não quero que tu te ofendas, / nem que tomes por desdoiro, / não te ofertar um tesoiro / digno do teu coração, / mas dados por minha mão, / toma lá colchetes d’oiro. // São minúsculas estrelas, / que se perderam no ar, / e a Lua, p’ra reavê-las, / pôs d’ atalaia o luar / e ainda as pode apanhar, / no seu nocturno caminho / e fiz delas com carinho / estes colchetes, portanto, / minha boneca d’encanto, / aperta o teu coletinho. // Se fores de noite à rua, / deves guardá-los com jeito, / não quero que a Dona Lua / toque ao e leve o teu peito, / que eu sempre guardei respeito / pela grandeza dos sóis, / mas vim a saber depois / e fiquei compenetrado / que deve ser respeitado / coração que é de nós dois.” E cantam-se amores rejeitados: ”Não me queres, não admira, / perdi os olhos na guerra, / com eles tudo perdi. / Mas disse-me alguém que os vira, / no chão, cheiinhos de terra, / inda choraram por ti.” (Maria Emília Ferreira, “Fado Franklim”, 1929). Cantam-se ainda amores difíceis, marginais: “De mãos nos bolsos e olhar distante, / jeito de marinheiro ou de soldado, / era o rapaz da camisola verde, / negra madeixa ao vento, / boina maruja ao lado. // Perguntei-lhe quem era e ele me disse: / ”Sou do monte, senhor, e um seu criado”. / Pobre rapaz da camisola verde, / negra madeixa ao vento, / boina maruja ao lado. // Porque me assaltam turvos pensamentos? / Na minha frente estava um condenado. / Vai-te, rapaz da camisola verde, / negra madeixa ao vento, /boina maruja ao lado. // Ouvindo-me, quedou-se, altivo, o moço, / indiferente à raiva do meu brado. / E ali ficou, de camisola verde, / negra madeixa ao vento, / boina maruja ao lado. // Soube depois ali que se perdera, / esse que só eu pudera ter salvado. / Ai do rapaz de camisola verde, / negra madeixa ao vento, / boina maruja ao lado.” Letra de Pedro Homem de Mello, “O rapaz da camisola verde”, 1954 (canta Amália, Frei Hermano da Câmara). Reparem na interjeição, naquele “ai”. Não se diz “Ai, o rapaz da camisola verde” – isso seria traduzível noutras línguas. Diz-se “Ai do rapaz”, como se diz “coitado do rapaz”. Mas, ao invés de dizer “coitado” ou “desgraçado” ou “infeliz”, substitui-se o adjectivo por essa interjeição aflita, “ai”, o que empresta à frase uma emoção muito mais plangente. “Ai de ti se fazes isso!”, dizem os portugueses, com uma interjeição a fazer as vezes de um adjectivo. Isto é único, só acontece na esplendorosa língua portuguesa (hoje em dia, obscenamente maltratada). Não tinha de ser o povo que inventou esta língua a inventar o Fado também?

Lucília do Carmo
No Fado não se receiam temas como a morte ou a despedida: “Disse-te adeus, e morri / e o cais, vazio de ti / aceitou novas marés. / Gritos de búzios perdidos / roubaram dos meus sentidos / a gaivota que tu és. / (…) Presa no ventre do mar / o meu triste respirar / sofre a invenção das horas. / Pois na ausência que deixaste, / meu amor, como ficaste, / meu amor, como demoras.” Letra de Vasco de Lima Couto (canta Amália). A saudade, claro, é um dos seus temas predilectos: “Achei-te tanta diferença / quando de novo te vi / que, estando em tua presença, / tive saudades de ti”. Letra de João de Freitas (canta Adelina Ramos). E Alfredo Marceneiro em “Cabelo Branco”: “Saudade são pombas mansas / a que nós damos guarida, / paraísos de lembranças / da mocidade perdida”. Ou esta letra de um dos muitos aristocratas fadistas, D. António de Bragança: “São tão lindos os teus olhos / quando se fitam nos meus! / Contam coisas, dizem coisas… / Ai, Jesus! Valha-me Deus! // O amor tem duas moradas / que Nosso Senhor lhe deu: / o coração onde vive / e os olhos onde nasceu! // Eu quero bem aos teus olhos / mas muito mais quero aos meus, / pois, se perdesse os meus olhos / não podia ver os teus! // Nossa Senhora das Dores / tem sete espadas no peito…/Saudade tem sete letras / que ferem do mesmo jeito!”
O Fado nasceu nos bairros miseráveis, onde todas estas experiências humanas atingiam paroxismos dificilmente suportáveis: “Dizem que é enorme o mundo / colossal o seu roteiro. / Quanta vez um ai profundo / é maior que o mundo inteiro!” (Madalena de Melo, "Cantares", 1928.) Com olhar sábio, reflectiu sobre elas e transformou-as em canto: “Para expandir minha dor, / a guitarra me ensinou / a ter amor à poesia. / Nas horas de sofrimento, / o meu pobre coração / se não cantasse, morria.” (Maria Silva, Fado da Paixão, 1928.)
Perpassa pelo Fado uma visão do mundo que tem algo de oriental. O mundo é ilusório, nele caminhamos como num sonho. Nada é apenas o que aparenta ser: “Se tu me deixares eu digo / o contrário a toda a gente. / Neste mundo de ilusões / fala verdade quem mente.”, cantava Maria Silva, no “Fado Dois Tons”, em 1928. E Marceneiro, em "Olhos Fatais", 1936, falava “neste mundo enganador”. No passado, os ingleses, com desprezo, classificavam os portugueses como “orientais” de temperamento. Teriam alguma razão, mas o desprezo pelos orientais só os diminuía a eles, ingleses.

O Fado foi ainda, durante certo tempo, acusado de conservadorismo. Mais uma vez, de tudo se encontra no Fado. Mas o grande fio condutor é, bem pelo contrário, um profundo desprezo pelos valores pequeno-burgueses da aparência e da convenção. Nas “Sardinheiras”, de 1947, em pleno regime de Salazar, Amália cantou esta letra de Linhares Barbosa: “Um dia ele seguiu-me / ‘té à rua onde eu morava. / Cumprimentou-me, sorriu-me, / e ao outro dia lá estava. // Atirei-lhe da trapeira / da minha água furtada, / uma rubra sardinheira / que se tornou mais corada. // Depois nunca mais o vi, / nem do seu olhar a chama. / Passou tempo e descobri que ele morava em Alfama. // Uma noite sem pensar, / pus o meu xaile, o meu lenço/ e fui atrás desse olhar / que deixara o meu suspenso. // Hoje moro onde ele mora, / hoje vivo onde ele vive. / E há sol por dentro e por fora / da minha alegria enorme.” Numa época de intenso moralismo, de falsos pudores, de namoros vigiados à janela, de tacanhez pequeno-burguesa, a mulher da canção, “sem pensar”, vai ter com um homem com quem nunca sequer falou. Noutra letra do mesmo Linhares Barbosa, ridiculariza-se o respeito pela moral pequeno-burguesa, pelo “parece mal” social: “Porque cantamos o Fado / falam de mim e de ti. / Não te dê isso cuidado, / põe as intrigas de lado, / não dês ouvidos, sorri. // Põe o xaile de Tonquim / e vamos os dois ao baile. / Enfeita-te só p’ra mim, / gosto que sejas assim, /adoro ver-te de xaile. //Ri sempre que t’apeteça, / faz como eu que não ligo, / ainda que mal pareça, / se perdermos a cabeça, / isso é comigo e contigo. // Domingo, se Deus quiser, / vamos os dois à corrida, / todo o mundo há-de saber / que és a única mulher / por quem me perco na vida.” “A única mulher” (canta Miguel Sanches).
A defesa das “ruas sujas” e das prostitutas é omnipresente, muitas vezes através de letras de teor profundamente anti-convencional. Afinal, a Mãe do Fado foi uma “mulher perdida”! “Quem tiver filhas no mundo / não fale das desgraçadas; / as que são hoje perdidas / também nasceram honradas.” (fado cantado pela Severa, segundo Teófilo Braga). “Foi na velha Mouraria, / nas guitarradas de então, / que teve nome na orgia / o Fado, linda canção / (…) / Quem quer que és tu não fujas / da mulher que se perdeu. / Na lama das ruas sujas / brilham os astros do céu. // Donzela que vais passando, / não deves tornar-te a rir. / Na seda mais preciosa / pode uma nódoa cair. // Parti a minha guitarra, / perdi a minha alegria. / Rezemos por ela agora, / Padre-nosso, Ave-Maria!” (Maria Emília Ferreira, "Fado da Mouraria", 1929). “Cerejas frescas, vermelhas, / vendem-se pelos caminhos: / são os brincos das orelhas / das filhas dos pobrezinhos. // Vai tão longe a mocidade, / sinto tão perto o meu fim. / Por vezes sinto vontade / de deitar luto por mim. // Já que te não dão o pão, / dá-te nua a quem to der. / Mas guarda-me o coração, / a alma que ninguém quer.” (Maria Emília Ferreira, "Fado Corrido", 1929). E, no belíssimo “Maria Madalena” relembra-se a prostituta que se tornou santa: “Quem por amor se perdeu, / não chore, não tenha pena; / uma das santas do céu / foi Maria Madalena. // Desse amor que nos encanta, / até Cristo padeceu, / para poder fazer santa / quem por amor se perdeu. // Jesus só nos quis mostrar / que o amor não se condena. / Por isso, quem sabe amar, / não chore, não tenha pena. // A Virgem Nossa Senhora, / quando o amor conheceu, / fez da maior pecadora / uma das santas do céu. // E de tanta que pecou, / da maior à mais pequena, / aquela que mais amou / foi Maria Madalena.” Letra de Gabriel de Oliveira, “Maria Madalena”, (canta Lucília do Carmo).
As grandes heroínas do Fado são, pois, as prostitutas: a Severa, a Rosa Maria, a Mariquinhas, Maria Madalena… “É numa rua bizarra / a casa da Mariquinhas. / Tem na sala uma guitarra, / janelas com tabuinhas. / (…) Para se tornar notada / usa coisas esquisitas, / muitas rendas, muitas fitas, / lenços de cor variada. / Pretendida e desejada, / altiva como as rainhas, / ri das muitas, coitadinhas, / que a censuram rudemente, / por verem cheia de gente / a casa da Mariquinhas.” Letra de Silva Tavares, “Mariquinhas” (canta Alfredo Marceneiro). “Há festa na Mouraria, / é dia da procissão / da Senhora da Saúde. / Até a Rosa Maria, / da Rua do Capelão, / parece que tem virtude. // (…) Como que petrificada em fervorosa oração, / é tal a sua atitude, / que a Rosa já desfolhada, da Rua do Capelão, / parece que tem virtude.” Letra de Gabriel de Oliveira, "Há Festa na Mouraria" (canta Amália, António Pinto Basto).
A riqueza do Fado, “ele, que veio do nada”, é imensa, pois “não sendo nada, era tudo.” Quem o julga pobre, engana-se. Talvez não consiga ver que “na lama das ruas sujas / brilham os astros do céu.”
Fotografias retiradas de:
Eduardo Sucena, Lisboa, o Fado e os Fadistas; Museu Nacional de Etnologia, Fado.Vozes e Sombras; Coord. Ruben de Carvalho, Um Século de Fado; José Manuel Osório, Todos os Fados de A a Z.








Mais exemplos:






























Wang Xizhi – o grande mestre mestre da variação. Estilo cursivo.








.jpg)










e não
seu homófono. Era o nome de uma das Vinte e Oito Constelações da astrologia chinesa, uma das sete associadas ao Oeste e ao Sector do Tigre Branco. Não se sabe ao certo quando terá mudado o nome. Xing significa "estrela", "astro". Kui
por sua vez, significa "chefe", "à cabeça", "primeiro" e é formado pela junção do caracter gui,
demónio, e dou
(recipiente aberto de forma rectangular). Assim, o candidato que conseguisse a melhor classificação nos exames imperiais recebia o titulo de kuijia
(jia é o primeiro dos Dez Ramos Celestes da calendariologia chinesa; significa ainda concha, carapaça, armadura): a ideia reforçada de “Primeiro”. Kui Xing é quase sempre representado segundo a expressão
Kui Xing dian dou, du zhan Ao tou: "Kui Xing pega no dou, só, em pé, sobre a cabeça da Ao” (nome de uma tartaruga gigante lendária que suporta a Terra). Kui Xing dian dou significa: "segurando numa mão o pincel, Kui Xing agarra com a outra o dou, ou seja, usa o pincel e escreve os nomes daqueles que iriam tentar o exame imperial. Du zhan Ao tou significa: ficar à cabeça, em primeiro lugar. Simplificando:“Tentar o exame imperial e ficar em primeiro lugar.”

































