Tuesday, October 09, 2007

ELOGIO DO FADO


"O Fado é uma das músicas que os portugueses fazem bem, que realmente sabem sentir e julgar. Não precisa de ser recuperado, nem curado, nem reabilitado, nem salvo. O Fado já está salvo há muito tempo."
Miguel Esteves Cardoso





"Foi quando Deus fez os sóis, / as ilusões, as tristezas, / que entristeceu, e depois,/ fez as canções portuguesas. // Quando Deus criou as rosas, / num paraíso encantado, / caiu uma, e desfolhou-se/ e dela nasceu o Fado. // Junto aos marcos da fronteira/ há um letreiro gravado / que nos diz, entre quem queira, / mas só quem gosta de Fado. // Aos que vêm pelo mar, diz-lhes a onda na barra:/ entre quem saiba chorar / ao ouvir uma guitarra.” Ercília Costa, “Fado Dois Tons”, 1931.


Vou aqui fazer um elogio do Fado. Não porque o Fado necessite de ser elogiado por mim, mas eu é que gosto tanto de Fado que sinto necessidade de o elogiar.
Como é sabido, o Fado tem, ao longo dos tempos, suscitado vivas polémicas. São sobejamente conhecidos vários argumentos que contestam a qualidade desse estilo musical. Alguns intelectuais e artistas portugueses, como José Gomes Ferreira e Fernando Lopes Graça (que considerava o Fado “o inimigo número um” da música popular portuguesa), gastaram o seu latim e a sua tinta a vociferar contra ele. Confesso que a maior parte desses argumentos não me convencem de todo e tentarei aqui refutá-los.

Sobretudo por parte daqueles que nasceram nas décadas de 60 e 70 do século passado, a velha afirmação de que o Fado é piegas, “choradinho”, que tende a abordar temas relacionados com desgraças de folhetim, ainda se ouve, estranhamente. É verdade que não é difícil encontrar letras que corroborem esse argumento, letras que choram filhos ceguinhos e filhinhas que em tenra idade se tornaram anjinhos do céu. O problema é que não são a maioria e não o são há muito tempo – pelo menos, desde que o Fado começou a ser gravado em discos, nos princípios do séc. XX. Trata-se, pois, da vulgar falácia de julgar o todo pela parte. Nos seus primórdios, quando se estabeleceu como canção urbana, no séc. XIX, talvez assim tenha sido. Mas decerto era esse o ar do tempo em Portugal, não se passava isso apenas no Fado! Basta lermos “Os Maias”, do Eça de Queiroz, para encontrar uma sátira feroz contra a poesia lamechas que por cá imperava naquele tempo. Ainda assim, e como contra-exemplo, o Caetano Calcinhas, fadista do séc XIX (morreu em 1894) já criava algumas quadras na boa tradição popular: “Eu rendo culto à pena,/ não rendo culto à espada./Quem mata p’ra ter glória/cá p’ra mim não vale nada!”
Atente-se que essas mesmas pessoas que esgrimem o argumento da pobreza poética das letras do Fado – demonstrando, assim, que estão escandalosamente desactualizadas no assunto – não se insurgem contra a futilidade “I love you,/ you love me” de tantas canções pop-rock, por exemplo. Por que será? Porque é que, nesse caso, isso não as aflige? Será que a alegria pode ser superficial, mas o sofrimento não? De facto, o sofrimento é coisa séria. E se o Fado ama glosar o tema é porque é uma canção, já se sabe, muito “madura”. O Fado exige de si próprio uma qualidade que se dispensa nesse adolescente eterno que é a música pop-rock. O que acontece é que o Fado é incompatível com a mediocridade, enquanto que esta sobrevive bem na pop-rock (e eu gosto muito também, para que conste desde já, de pop-rock). A mediocridade, no Fado, (no que respeita às letras, à interpretação, à apresentação, à melodia) torna-se insuportável. Porque o Fado não é, nunca quis ser, mero entretenimento.
Tratar o tema do sofrimento através de um apelo grosseiro aos sentimentos, no estilo “Meu amor abandonou-me/, tirei a faca da cozinha/ e a vida a três filhinhos/ e tirei depois a minha.” é imperdoável, além de patético e escrito já no túmulo. Como não recusou a sua maioridade, se não planeava desistir de temas “pesados”, o Fado depressa percebeu que a qualidade era essencial. E que diferença entre uma letra como a inventada por mim ali acima (houve semelhantes) e a de Sérgio Godinho, sofisticadíssima, sobre o mesmo tema do abandono: “Meu amor deixou-me um dia/ pus a mão na laje fria.” ("Liberdades Poéticas", canta Mísia). Todo o frio de alma sentido pelo abandono é elegantemente transferido para uma pedra. O sofrimento diz-se assim muito melhor, a sua transmissão é muito mais eficaz. Os fadistas, criaturas geralmente muitíssimo inteligentes e de sensibilidade poética muito apurada, aperceberam-se cedo disso. O Fado, nem na alegria se permite ser superficial. Relembremo-nos da letra dessa linda “Sardinheiras”, um amor feliz cantado por uma jovem Amália, onde “há sol por dentro e por fora/ da minha alegria enorme.”



Voluta de guitarra de Lisboa com busto de Luís de Camões


Na verdade, letras de qualidade existem no Fado há longo tempo. Não significa isso que se trate de “Grande Poesia”. Alguns grandes poemas podem ser musicados e isso resulta bem, mas se é um grande poema então sustém-se sozinho. Isto é, se é um bom poema não necessita de ser musicado (ou, por exemplo, ilustrado). E uma boa melodia e interpretação (o Fado é sobretudo interpretação) pode aguentar-se também, apesar de uma letra deficiente. Recorde-se o imortal “Ai, Mouraria”: “ (…) por ter passado mesmo a meu lado certo fadista/ de cor morena, boca pequena e olhar trocista. // Ai, Mouraria, do homem do meu encanto/ que me mentia/ mas que eu adorava tanto!” Convenhamos que esta adoração por um cabotino de boquinha pequena para rimar com a pele morena não convence ninguém. Mas importamo-nos nós realmente com isso? A verdade é que se trata de um fado cujos pecadilhos na letra não conseguem afectar a sua imortalidade. Claro que é maravilhoso quando letra e música são irrepreensíveis mas, para que tal aconteça, não é de todo imprescindível que se trate de “Grande Poesia”, de Luís de Camões e de Fernando Pessoa, como alguns fadistas agora parece pensarem. Há imensos versos do Linhares Barbosa, por exemplo, que não podiam ser mais apropriados para se tornarem fados. “Lá porque tens cinco pedras” e “Fado marujo” são bons exemplos. São letras de uma tal graça e engenho! – que mais se pode desejar? : ”Quando ele passa, /o marujo português, /não anda, passa a bailar, /como ao sabor das marés. //Quando se ginga, / põe tal jeito, /faz tal proa, /só p’ra que se não distinga/ se é corpo humano ou canoa. //Chega a Lisboa, / salta do barco e, num salto, /vai parar à Madragoa/ou então ao Bairro Alto. /Entra em Alfama/e faz de Alfama um convés. / Há sempre um Vasco da Gama/num marujo português. // Quando ele passa/com seu alcaz vistoso/traz sempre pedras de sal/no olhar malicioso. / Põe com malícia a sua boina maruja,/ mas se inventa uma carícia,/não há mulher que lhe fuja.//Uma madeixa de cabelo descomposta, / pode até ser a fateixa/ de que uma varina gosta. /Sempre que passa, / o marujo português, /passa o mar numa ameaça/de carinhosas marés.” (“Fado marujo", canta Amália).




Linhares Barbosa


Letras como “Colchetes d’oiro” (canta Frei Hermano da Câmara), “Avé Maria Fadista” (canta Amália, Pinto Basto), “Maria Madalena” (canta Lucília do Carmo),“Tia Macheta” (canta Berta Cardoso) originam fados magistrais. São perfeitas, tendo em conta o seu propósito. E o seu propósito não foi serem grandes poemas, foi serem grandes suportes para fados. Os grandes poemas são outra coisa, servem outros propósitos e, contendo por si sós uma melodia interior, dispensam perfeitamente serem musicados. Que os fadistas sejam prudentes, pois, que os tratem com pinças de ouro, não porque os possam estragar, pois eles erguem-se sozinhos, mas porque a sua carreira pode ficar arruinada se a interpretação não estiver à altura.
Linhares Barbosa, Carlos Conde, Frederico de Brito, Francisco Radamanto, Silva Tavares, o grande Gabriel de Oliveira – o “poeta marujo” – autor da “Sra. da Saúde” (canta Marceneiro, Amália) – eram homens “do povo”, como se dizia dantes, e grandes mestres letristas. Linhares Barbosa vivia (mal, infelizmente) da venda das letras para fados que escrevia. Hoje em dia, muitos fadistas, não podendo a eles recorrer, ou a outros que se lhes assemelhassem, mergulham na obra dos grandes poetas consagrados à procura do que cantar. É pena, assim não surgem letras novas. Devia isso que se passa ser a excepção e não a regra. A Amália, que foi a primeira a atrever-se a cantar poetas consagrados, ciente do que fazia, nunca caiu no exagero, nunca se limitou a eles.
Os grandes poemas não ganham nada em ser musicados – não precisam disso. E nós sentimo-lo ao escutarmo-los musicados. No entanto, se o trabalho for bem feito, também nada perdem e é uma maneira de chegarem a quem não os lê. “Com que voz”, de Luís de Camões, nunca precisou de ser cantado por Amália. Era em si inteiro e autónomo, criação de um grande poeta. Mas Amália ousou cantá-lo e, génio também que era, conseguiu superar a prova. À Amália não tem cabimento impor-se-lhe limites; ela própria era ilimitada. Mas não deu mais qualidade ao poema, pois ele já a tinha toda. Conseguiu foi cantá-lo respeitando-lhe a qualidade.
Uma letra feita de raiz para ser cantada, contudo, como as de Linhares Barbosa ou Gabriel de Oliveira, “sabe” que só ficará completa com a melodia e que, assim, irá ultrapassar imperfeições que possa esconder. No final, tudo estará certo e resultará bem: esse é o grande milagre das canções. Toda a gente conhece a velhinha canção popular: “Ai, que lindos olhos tem a padeirinha ,/ é mal empregada andar à farinha./ Andar à farinha, andar ao calor/oh, que lindos olhos tem o meu amor!” Isto assim, cru, sem a melodia, parece muito fraquinho. Mas todos lhe conhecemos também a melodia – quereríamos nós outra letra para ela? Não, esta é que está certa, não queremos uma letra “de qualidade”, obrigada! A qualidade está em ser o que ela é e em não querer ser mais do que isso.
Poemas que, sendo embora razoáveis, parece que lhes falta qualquer coisa, resultam em óptimos fados – letras do Pedro Homem de Mello como “Povo que lavas no rio” (imortalizado por Amália, este poema “subiu até ao povo”, nas palavras do autor), “O rapaz da camisola verde” (canta Amália, Frei Hermano da Câmara) ou “Cavaleiro Monge” que é um poema menor de Fernando Pessoa. A esses a música traz-lhes realmente qualquer coisa de novo, acrescenta-lhes toda uma dimensão de que careciam.



Gabriel de Oliveira


Outra extraordinária característica do Fado, que revela a sua extrema maturidade, é o facto de se pensar a si próprio. É assombroso o número de letras em que tal sucede. O rock não se pensa a si próprio, não explana a sua própria história. Está sempre a nascer de novo, como se não a tivesse. Refiro-me, mais uma vez, ao pop-rock, pelo vivo contraste que forma com o Fado e porque é um universo que domino um pouco também. O Fado, pelo contrário, amiúde remete para o seu próprio universo, é auto-referencial. Quantas letras existem a explicar, ou a tentar explicar o que é o Fado! “Perguntaste-me outro dia/se eu sabia o que era o Fado. / Eu disse que não sabia, / tu ficaste admirado. /Sem saber o que dizia/eu menti naquela hora/e disse que não sabia /mas vou-te dizer agora. // Almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras/na Mouraria cantam rufias, choram guitarras. / Amor, ciúme, cinzas e lume, dor e pecado:/tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado. // (…) A canção que é meu castigo, /só nasceu para me prender. /O Fado é tudo o que eu digo/mais o que eu não sei dizer.“ Letra de Aníbal Nazaré (canta Amália, Lucília do Carmo). O Fado pensa em si, indaga sobre si – o que sou? - e, por isso, acaba por debruçar-se sobre a sua própria história, mítica ou factual. Pensa em si tanto em termos da sua história musical como em termos histórico-sociais. Fazendo-o, descreve Portugal e os portugueses. Mais uma vez, na pop-rock, nada de semelhante se passa.
Eis alguns exemplos de letras de fados que se referem à sua história musical –
Cantavam em dueto, em 1931, Ercília Costa e Joaquim Campos, explicando a génese de todos os fados a partir do Fado Marialva e do Fado Corrido: “Era só na Mouraria/ desde a noute ao romper d’alva/ que antigamente se ouvia/ a cantar o Marialva. // Seu irmão, o Fado Corrido, / em muita noutada louca, / era sempre um fado ouvido, / andava de boca em boca. // Glórias, epopeias, brilhos, / estes dois fados tiveram. / E sempre foram seus filhos / os outros mais que vieram. // São fados lindos, risonhos, / os fados da nossa idade. / E os velhos vivem dos sonhos / da passada mocidade. // Tanto a minh’ alma lhe quer, / com tamanha idolatria, / que eu canto enquanto puder/ o Fado da Mouraria.”. Linhares Barbosa explica assim a hegemonia do Fado da Mouraria em tempos idos: “Noutro tempo eu não sabia, / para mal dos meus pecados, /que o Fado da Mouraria/ era afinal Rei dos Fados. //Pegava e picava toiros, / tinha uma amante, a guitarra, /nascera nos bairros moiros, /na desordem e na algazarra. //O Fado da Mouraria, / esse velho e lindo fado, / era o pão de cada dia/ dos fadistas do passado.” (“Noutro Tempo”, canta Mª do Espírito Santo).




Joaquim Campos


Quando conta a sua história, o Fado fá-lo muitas vezes com a bonita preocupação de não fazer esquecer os fadistas do passado, de que os seus nomes e feitos constem na memória do povo (mais uma vez, cada canção pop-rock é demasiado centrada em si própria para que nela isso aconteça). Nomeiam os nossos heróis fadistas – cantadores, violistas, guitarristas – cujos feitos deverão ser lembrados de geração em geração: “Junto ao Chafariz da Esperança, /houve em tempo uma taberna /onde o Fado se cantava/e que ainda tem por lembrança/ o sítio onde uma lanterna/tristemente iluminava. // Na tasca que então mantinha /o nome mal afamado,/tudo cantava a seu jeito, / mas foi lá que o Vianinha /compôs um dia o seu fado/que lhe deu nome e proveito. // Era ali que o Avelino, /a rir com o Manuel da Mota,/iam beber e fumar, /enquanto um vago destino/levava o Júlio Janota/às cantigas atirar. // Levou-me o instinto rasca/ à porta dessa taberna, / não para cantar ou beber, / mas para ver onde era a tasca/ que a fadistagem moderna/ não chegou a conhecer.” “Chafariz da Esperança”, letra de Carlos Conde (canta Raul Pereira). E este outro, de Fernando Farinha, intitulado “Evocação”, onde o fadista faz um registo auto-biográfico: “Muito novo comecei/a cantar por todo o lado. /Bem cedo me acostumei/ a saber o que é o Fado. //Fadistas que deram brado/tive o prazer de escutar, /a sério, não a brincar, / como fazem os de agora. //E, sem querer, bendigo a hora, em que aprendi a cantar. // Proença, Maria Emília, /José Carude(?) e Aninha,/Filipe Pinto e a Ercília/ que no Fado foi rainha. /Marceneiro alfacinha, /mais vibrante e fadistão, /o Calisto Refilão, /Campos, Varela, Porfírio, /nomes que foram delírio/dentro da nossa canção. //Armandinho virtuoso/da guitarra portuguesa; /Lucília, Berta Cardoso, /estrelas de enorme grandeza. /Hermínia foi com certeza/a mais castiça e bairrista. /Amália foi a estilista/ que ao mundo o Fado levou/ e alento deu e marcou/uma geração fadista. //Porque ficou para além, /só me resta por herança/esta saudosa lembrança/desses tempos que eu vivi/e dos fadistas que ouvi/nos meus tempos de criança.” Ainda outro: “Porque canto e sei sentir/quero expandir e definir/este meu ponto de vista. /Não é fadista quem quer, / tem o prazer em aprender, /mas sim quem nasceu fadista. //Os cantadores do passado/que ao Fado deram brado, /tinham valor, tinham garra. /Cantavam com devoção, / com vibração no coração, /ao trinar duma guitarra. //Manuel da Mota, o Ginguinhas, /o Vianinhas, o Quintinhas /e que mais não sei esquecer. /Eram fadistas de garra/tinham por tema este lema:/”Antes quebrar que torcer”. //Outros mais tarde apareceram /que venceram e fizeram/o Fado ao nosso caminho. /Não esqueçam da primazia /da magia que imprimia, / na guitarra, o Armandinho. //De tudo o que se cantou, /se passou e se adorou, /nesses bons tempos vividos, /só nos ficou por herança/uma lembrança que alcança/saudade dos tempos idos.” (letra de Júlio Vieitas, “Ser fadista”, canta Mário Mota).



Cenário da famosa casa de fados "O Retiro da Severa", nos anos 30 do século passado. À esquerda, Júlio Proença; sentada, Maria Emília Ferreira; o segundo guitarrista é Carlos Ramos; a seu lado, o violista Santos Moreira; Alfredo Marceneiro colocou-se ao lado dos instrumentistas. A terceira a contar da direita é Berta Cardoso.


E depois, o Fado tem, como é sabido, um mito fundador, a história do amor entre a prostituta Severa e o Conde de Vimioso: “O Fado nasceu de um beijo, / beijo que um dia foi dado/ com lealdade sincera. / Teve por pai Vimioso, / fidalgo nobre e donoso, / por mãe, a linda Severa. // Severa amou Vimioso,/ cantando tristes baladas/ no Fado de Portugal. / Em França, arrastando sedas, / Margarida Gauthier/ amou Armando Duval.” (Maria Emília Ferreira, Fado Franklim, 1929.)
Num Fado da Severa mais jocoso, versão de Coimbra, composto talvez pelo Sales Patuscão, moço de forcado do Conde de Vimioso, instiga-se: “Chorai, fadistas, chorai, / que uma fadista morreu, / hoje mesmo faz um ano que a Severa faleceu. //O Conde de Vimioso / um duro golpe sofreu, / quando lhe foram dizer/"tua Severa morreu". //Corre à sua sepultura, / o corpo ainda se vê: ”Adeus, ó minha Severa, / Boa sorte Deus te dê! //Lá nesse reino celeste, /com tua banza na mão, /farás dos anjos fadistas/porás tudo em confusão.”
No delicioso “Tia Macheta”, Berta Cardoso canta: “O amante não aparecera, / triste, a Severa, sempre fiel, /chamou a tia Macheta, /velha alcoveta, p’ra saber dele. //A velha pegou nas cartas, /sebentas, fartas, de mãos tão sujas, /e antes de as embaralhar/pôs-se a grasnar como as corujas. //Ele não vem, minha filha, / di-lo a espadilha, há maus agoiros. /Há também uma viagem/ e um personagem, a Dama d’Oiros. //Esse conde é o meu fraco, /tome um pataco, tia Macheta./A velha guardou as cartas, / de sebo fartas, sob a roupeta. // Caíram três badaladas, /fortes, pesadas, três irmãs gémeas. /Cá fora, nos portais frios, /cantam vadios feias blasfémias. //O fidalgo não voltou, /Severa o esperou até ser dia. /E desde essa noite é que existe/o fado triste da Mouraria.” (Letra de Linhares Barbosa).




Berta Cardoso


No acima citado "Liberdades Poéticas", de finais do séc. XX, Sérgio Godinho retoma este tema da génese do Fado se achar num amor abandonado: "Meu ouvido corre aberto pelas ruas, / que será do meu amado? / Não me deixa, esta amargura, / é mais leve que a loucura. / E só por isso canto o Fado."

Sobre o tema do Mito já correram rios de tinta e só vou aqui relembrar que os mitos servem para dizer aquilo que de outro modo – a não ser através deles – não poderia ser dito. Ouve-se muitas vezes o comentário depreciativo: “Não passa de um mito!” Mas o mito não é algo de menor. Obviamente, devemos ser capazes de distinguir o que é mito do que não é; e mitos não devem ser aceites sem discernimento crítico. Subvalorizar o mito, porém, não é uma atitude correcta. O mito é algo de profundamente enraizado na história e na mente do ser humano. As sociedades humanas começaram por ser mitológicas e, ainda hoje, a literatura embebe-se de mito, a poesia embebe-se de mito, a arte embebe-se de mito, a religião embebe-se de mito. Vamos ao cinema para sentir o “transporte” que sentiam os nossos antepassados (e os nossos irmãos das sociedades tribais de hoje em dia), reunidos em volta da fogueira, em caindo a noite, ao escutar as histórias dos anciãos. O tempo cronológico pára e passamos a viver fora do espaço-tempo. O poder do Fado revela-se também no facto de estar profundamente enraizado em mitos.
É por isso que custa ouvir certos fadistas afirmar que as letras do fado têm de se adaptar a este tempo, pois já não há Severas e Vimiosos! Ora, um mito está fora do tempo. Isso assemelha-se a dizer que o poema do “Adamastor” de Fernando Pessoa está ultrapassado, pois é um mito, já ninguém acredita no Adamastor. Ora, alguém se cansou de ouvir a história do Adamastor? E de Abel e Caim ou de Eros e Psyché? Claro que não, uma das particularidades dos mitos poderosos é poderem ser repetidos até à exaustão. O ser humano afeiçoa-se a eles, tal como as crianças às histórias antes de adormecer. Sempre as mesmas, sempre novas. Uma vez que o tema que os mitos abordam é mistério, são inesgotáveis. Daí que se possa ser incrivelmente criativo pegando num tema velho e, pelo contrário, apesar de o tema ser novo, falhar-se criativamente.



Voluta de guitarra de Lisboa


Há também quem pareça pensar que o Fado tem de ser renovado para sobreviver e que essa renovação tem de passar obrigatoriamente por novos adereços. Por acrescentos. Por ornamentos. Um violoncelo. Um piano. Um violino. Uma dança. “Porque o Fado já se dançou”, justificam. Pois, repare-se que o verbo vem no passado. Não se deve proibir tentar dançar o Fado, mas se o Fado prescindiu da dança – “batia-se” o Fado, segundo parece, num episódio transitório – é porque não precisa dela para nada. Não lhe falta a dança. A sua expressão não passa por aí. Nem toda a música é feita para dançar e não é por isso menor do que a que é dançável. Tal como um poema não musicável não é menor, longe disso, do que um que possa ser cantado. Quanto aos pianos e aos violoncelos, também devem ser bem-vindos. A defesa exacerbada da “pureza” revela-se sempre perigosa. Agora, reconheça-se que se pode fazer óptimo Fado com uma viola e uma guitarra e ponto final. Que esse é o Fado mais difícil. O grande milagre do pouco se fazer muito. Os pintores chineses executavam as suas obras-primas apenas com papel e tinta preta. Bastava-lhes. E tocavam o infinito com esses dois instrumentos. “A Amália partiu a conquistar esse mundo fora, sozinha, apenas com duas naus: uma guitarra e uma viola” – na morte da fadista, um seu admirador anónimo proferiu esta magnífica frase frente às câmaras de televisão. Através do máximo despojamento, atingir a excelência – esse é o grande milagre. A simplicidade original do Fado é uma mais-valia. Não é uma deficiência. É porque mais não lhe faz falta. Com uma guitarra e uma viola é possível alcançar as estrelas. Difícil? Pois é. Mas muitos conseguem-no. Temos e tivemos imensos fadistas excelentes. Num género muito difícil.




Alfredo Marceneiro

Claro que é tarefa dos historiadores do Fado perceber com distinção aquilo que no Fado é dito e que pertence à esfera mitológica. Agora, o Fado é Arte, não tem de ser historicamente correcto. Não que o Fado seja incapaz de dar verdadeiras lições de história. Recordemos o “Fado Corrido”, uma letra de Manuel de Almeida que ele próprio cantou: “Meu velho Fado Corrido, / se foste dos mais bairristas, /porque te mostras esquecido/na garganta dos fadistas? //Explicou-me um velho amigo/como o Fado era tratado. /Tinha graça, o Fado antigo, /a forma como era cantado. //Um ramo de loiro à porta/ indicava uma taberna. /À noite era uma lanterna, /com sua luz quase morta. /Como o fado tudo “importa”/foi sempre a taberna abrigo/do meliante ao mendigo, /da desgraça e da miséria. /Também tinha gente séria, /explicou-me um velho amigo. //Sob os cascos da “vinhaça”, /deitada em forma bizarra, /estava sempre uma guitarra/para servir de “negaça”. //O canjirão da “murraça”, / de tosco barro vidrado, /andava sempre colado/aos copos p’lo balcão. //E era assim nesta função/como o Fado era tratado. //Se aparecia um tocador, /às vezes até “zaranza”, /pedia ao tasqueiro a banza/para mostrar seu valor. //Logo havia um cantador, /dando o tom de certo perigo, /provocava o inimigo/num cantar à desgarrada. /Até às vezes com “lambada”, /tinha graça, o Fado antigo. //Pouco tempo decorrido, / cheia a taberna se via/p’ra escutar a cantoria/ao som do Fado Corrido. / Todos prestavam sentido/quando alguém cantava o Fado. /O tocar era arrastado, /o estilo dava a garganta. / E hoje pouca gente o canta/da forma que era cantado. //Escutei com atenção/um cantador do passado/e a sua linda canção/prendeu-me p’ra sempre ao Fado. / Por muito que se disser, /o Fado é canção bairrista. /Não é fadista quem quer/mas sim quem nasceu fadista.”
Todavia, convenhamos que o Fado não tem de apresentar letras que falam do lundum e das modinhas e da conjuntura sócio-económica dos princípios do séc XIX que justificou o seu aparecimento. E o Fado não o faz. O Fado canta muitas vezes a sua própria história mitológica, que é a maneira como se sente e como se vê a si próprio. E o Fado sente-se herdeiro das “caravelas do Gama“, do marinheiro que “estando triste, cantava” (“Fado Português”, de José Régio). E como não? O Fado é português! Não somos herdeiros das caravelas do Gama e filhos do marinheiro que, estando triste, cantava? Isso significa, pois, que o Fado se sente português. Talassicamente português. Por isso é que se diz que ele é “a alma de um povo”.




Emigrante português despedindo-se, levando a sua guitarra (anos 50 do séc.XX).



O Fado sente ser muito mais do que é cronologicamente, do que é historicamente no sentido estrito. Ultrapassa o seu tempo histórico para abraçar toda a história de Portugal. Canta a grande Hermínia Silva em “História do Fado”:“O Fado é uma trova tão bizarra, /como a brilhante chama dum fanal. /É bem a catedral de uma guitarra, /divino Padre-nosso em Portugal. // Trova nascida não sei de que autor,/canta a saudade a soluçar a dor sentida. /Fosse quem fosse o seu inventor, / vem desde o Alcouce /a dar mais brilho e luz à vida. //Apaixona os poetas e os artistas/e tem na terra lusa um tal poder/ que os fidalgos desceram a fadistas/p’ra ouvir mais de perto e aprender. //E assim carpindo as mágoas fatais, /lá foi subindo aos salões onde há grandeza. /Já foi cantado nos Paços Reais/ e assim o Fado vem a ter também nobreza. //Vive a brincar nos lábios das donzelas, /o Fado que se canta em Portugal. /Soluçou a sorrir nas caravelas/ acompanhando a frota nacional. //Todo um passado de glória a fulgir, /canta-se o Fado com amor, com fé e esperança. /Gemeu, chorando, Alcácer Quibir;/cantou, vibrando, lá nas trincheiras em França.” (Letra de Avelino de Sousa.). E Vicente da Câmara Pereira, em “Como é que nasceu o Fado”, com letra de Francisco Branco Rodrigues: ”Se há quem lhe interesse saber/ como é que nasceu o Fado, / cantando, vou responder, / porque estou bem informado. // Ele nasceu, era fatal, / num certo e tristonho dia/ de uma união natural/ p’rós lados da Mouraria. // Ele nasceu logo fadado/ com a tradição por virtude/ e baptizaram-no de Fado/ na Senhora da Saúde. // Fez-se adulto, quis sair, / coisa a que ele não resiste, / e foi para Alcácer Quibir, /mas voltou inda mais triste. // Foi nobre e foi plebeu, / é tudo onde a Raça impera,/ pelos dotes que Deus lhe deu,/ foi amado p’la Severa.// Mas eu não disse, afinal/ quem foi a mãe. A meu ver, / ele é filho natural/ duma guitarra qualquer.”





Não havia ainda Fado no tempo das caravelas? Que importa? Importa aos historiadores, não ao Fado em si, que sente em si e canta as caravelas. Que se sente herdeiro de Alcácer Quibir. Não havia ainda Fado? Quatro anos após Alcácer Quibir, um monge francês, Philippe de Caverel, visitou Lisboa e relatou: “Para mostrar que os portugueses gostam muitíssimo das suas guitarras, conta-se que foram encontradas cerca de dez mil guitarras (coisa inacreditável) nos despojos do campo do Rei Sebastião de Portugal, em que foi derrotado pelo Rei de Fez e de Marrocos.” É mentira, isso das dez mil guitarras no areal, em Alcácer Quibir? Não é um facto histórico, dez mil. Muito bem. Escreva-se isso nos livros de História. Que importa? Significará talvez que havia muitas guitarras, ainda que não fossem dez mil. E que quando morre um português, ao lado jaz a guitarra, não (só) a espada. Quem não viu imagens de arquivo da partida dos moços do povo para a Guerra Colonial, levando a tiracolo guitarras enquanto se despedem da mãe?





Soldado com guitarra, de partida no Vera Cruz, 1961.



“Eu quero, quando morrer, / por tantos fados cantar, / ter por dobra de pináculo / uma guitarra a chorar”, cantava a fadista Maria do Carmo, em “Desgarrada”, em 1929. E, no famoso Fado do Hilário, afirma-se: ”Eu quero que o meu caixão/tenha uma forma bizarra:/a forma dum coração,/ai! A forma duma guitarra!” (gravado por António Menano, em 1929). Ercília Costa, no "Fado sem Pernas", em 1931, enaltece assim a guitarra: “Quando tu choras, guitarra, / desafias meus lamentos,/ descobres triste poema, / composto de sofrimentos. // A minha visão agarra / teus carpidos por amor. / Sinto acalmar minha dor, / quando tu choras, guitarra. // Rainha dos instrumentos, / fada de sonhos doirados. / Com soluços magoados, / desafias meus lamentos. // Prendes-me com forte algema / feita de cordas sonoras. / Por isso, quando tu choras, / descobres triste poema. // Quisera a todos momentos / ter-te, guitarra, a meu lado, / porque o teu pranto é o Fado, / composto de sofrimentos.” E a mesma fadista no "Fado Corrido", em 1931: “A guitarra, quando chora, / faz estremecer a gente. /É a vida numa hora/ que soluça docemente. // A guitarra, para mim, / tem sentimento e valor. / Fala de coisas sem fim, / infinidades de amor. // (…) Ó minha guitarra d’oiro, / com cordas todas de prata, /só tu és o meu tesoiro, / a alma da serenata.” Mais recentemente, pergunta-se: “Porque dizem tanto mal /do Fado, canção dolente, / quando o Fado é, afinal, / a alma da nossa gente? // Guitarra, chora comigo, / que este meu peito cansado / precisa de ter abrigo / para dar abrigo ao Fado. // Silêncio na viela, / num quarto de pobreza, / apenas o tanger/ da lira magoada. / Não há maior encanto/ que o som duma guitarra / rasgando a madrugada. // Ó minha guitarra querida, / dizê-lo não é demais, / é ao ouvir esses teus ais, / teus ais que são minha sina / que gosto de ti inda mais. // O Fado é bendita reza / e o fadista de garra / traz a sua vida presa / às cordas duma guitarra.” Letra de DR (canta Pedro Figueira).





O guitarrista Raúl Nery aos sete anos de idade



Forjava-se lá, decerto, em Alcácer Quibir, subliminarmente, o futuro Fado. Não somos todos sobreviventes de Alcácer Quibir? O Fado, porque é português, foi para Alcácer Quibir e lá morreu, deixando ao lado esse instrumento entre todos amado pelos portugueses: a guitarra. A guitarra é o que mais se assemelha, em relação aos portugueses, à espada do samurai. Para o samurai, a espada era a sua alma. Para o português, é a guitarra. O amor dos portugueses pelos instrumentos de cordas está gravado em documentos muito antigos.
O Fado sente-se, pois, profundamente português. Foi a história e a mentalidade portuguesas que o tornaram possível. Tem certas influências remotas vindas de África, do Brasil? Reclama uma costela moura? Bem, mas o que é isso senão ser português? O verdadeiro português sempre foi universal, “das sete partidas do mundo”. O Fado é filho de Portugal. Medrou apenas em Portugal, não em África, não no Brasil, não em Marrocos. Esses povos inventaram outras formas de se exprimirem, que convêm melhor àquilo que são: “O Fado é sexto sentido / que distingue o português, / para ficar entendido / basta cantar-se uma vez. / Só à guitarra tocamos / a alegria que fingimos: / o Fado que nós cantamos / é sina que nós cumprimos.” Letra de Rodrigo de Melo, “Fado do Fado” (canta Amália). “Para se ser bom português, / neste país encantado, / é preciso amar alguém / e saber cantar o Fado.” (Maria Silva, “Fado da Mouraria”, 1928). “O Fado é canção d’encantos, / tão nobres, tão altaneiros, / deste meu país de santos, / de poetas, de guerreiros. // Ó almas lusas, cuidado, / ouve-se ao longe cantar. / Ajoelhai, passa o Fado – / vai Portugal a passar.” (Madalena de Melo, “Fado em Ré Maior”, 1928.). Mais recentemente, esta letra de Tó Zé Brito: “O Fado tem um fado, um destino:/ desde menino, ser português. / Nasceu num bairro antigo de Lisboa, / não foi à escola, mal sabe ler. // Deu os primeiros passos lá na rua, / cresceu à toa pela cidade/ e a primeira palavra que aprendeu, / nunca a esqueceu, foi a Saudade. // Mas saudade de quê, pergunta a gente / que o Fado sente, que o Fado sente? / Sem perceber por que é que o Fado há-de / ter tal saudade, ter tal saudade. // Se a vida nunca lhe deu coisa boa, / nasceu na rua e não é burguês, / saudade, só se for do seu destino: / desde menino, ser português. // O Fado tem um fado, um destino, / desde menino, que é Fado ser. / Cresceu do Bairro Alto à Madragoa,/ ganhou escola e altivez. // Deu os primeiros passos lá na rua, / cantou à toa pela cidade / e a primeira palavra que aprendeu, / nunca a esqueceu, foi a Saudade. // O Fado tem um fado, um destino, / tem um destino, que é Fado ser. / Mas tem outro destino, outro fado,/ que é ser cantado, p’ra não morrer.” (Canta Rodrigo).


O "Quarteto típico de guitarras": Carvalhinho, Martinho da Assunção, Joel Pina e António Couto


O Fado faz ainda questão de sublinhar a sua proveniência mista: é fruto da união da nobreza e do povo. Esse é mesmo um dos significados do seu mito fundador. Frederico de Brito, na “Biografia do Fado” descreve-o como um tipo popular acarinhado pela fidalguia, de tal maneira que lhe finge pertencer: “Perguntam-me p’lo Fado, eu conheci-o: / era um ébrio, era um vadio, / andava p’la Mouraria, / talvez ainda mais magro / que um cão galgo, / a dizer que era fidalgo, / por andar com a fidalguia. // O pai era um enjeitado / que até andou embarcado / nas caravelas do Gama. / Um mal-andrajado e sujo, / mais gingão do que um marujo / dos velhos becos de Alfama. // Pois eu sei bem onde ele nasceu, / que não passou de um plebeu, / sempre a puxar pr’a vaidade. / Sei mais, sei que o Fado é um dos tais / que não conheceu os pais / nem tem certidão d’idade. //Perguntam-me por ele, eu conheci-o / num perfeito desvario, / sempre amigo da balbúrdia. / Estava na moirama a horas mortas, / ia abrir as meias-portas, / era o rei daquela estúrdia. // Foi às esperas de gado, / foi cavaleiro afamado, / era o delírio no Entrudo. / Naquela vida agitada, / ele, que veio do nada, / não sendo nada, era tudo.” (Canta Miguel Sanches, Carlos Ramos). Vasco da Graça Moura inspira-se mais directamente no mito e fá-lo filho de ambas as classes sociais: “Talvez a mãe fosse rameira de bordel / talvez o pai um decadente aristocrata / talvez lhe dessem à nascença amor e fel / talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata. // Talvez o tenham educado sem maneiras / entre desordens, navalhadas e paixões/talvez ouvisse vendavais e bebedeiras / e as violências que rasgavam corações. // Talvez ardesse variamente em várias chamas / talvez a história fosse ainda mais bizarra / no desamparo teve sempre duas amas / que se chamavam a viola e a guitarra. // Pois junto delas já talvez o reconheçam / talvez recuse dar p’lo nome d’enjeitado / e mesmo aquelas que o não cantam, não esqueçam / nasceu assim, viveu assim, chama-se Fado.” (Canta Carlos do Carmo). No célebre “O Embuçado”, o Fado chega ao topo dos topos da hierarquia social. É, pois, amado por todos os portugueses: “Noutro tempo, a fidalguia / que deu brado nas toiradas / andava p’la Mouraria / e em muito palácio havia / descantes e guitarradas. // A história que eu vou contar / contou-ma certa velhinha / uma vez que eu fui cantar / ao salão de um titular / lá p’rós Paços da Rainha. // A esse salão dourado / d’ambiente nobre e sério / p’ra ouvir cantar o Fado / ia sempre um Embuçado, / personagem de mistério. // Mas certa noite houve alguém / que lhe disse, erguendo a fala: / ”Embuçado, nota bem, / que hoje não fique ninguém / embuçado nesta sala.” // E ante a admiração geral, / descobriu-se o Embuçado: / era El-Rei de Portugal, / houve beija-mão real / e depois cantou-se o Fado.” Letra de Gabriel de Oliveira, canta João Ferreira Rosa).



Armando Freire (Armandinho), o "Mago da Guitarra".


Não há, pois, que intelectualizar o Fado. O Fado é Arte, tem muito mais a ver com poesia do que com história. Ninguém exige à poesia, ou à Arte em geral, que seja historicamente correcta. A seiva do Fado tem de provir – e provém – das massas de gente anónima, essa é a sua base. Se começa a cantar-se apenas grandes poetas e a aburguesar a sua visão do mundo… Talvez o venham a chamar na mesma Fado, mas ter-se-á perdido aquele encanto que a gente simples, com a sua criatividade espontânea e desrespeito pelas regras académicas é capaz de lhe dar. Ou antes, criar-se-á um fado burguês, de canudo em punho (o Fado de Coimbra, que é um Fado ligado à vida académica, nunca o tratou de canudo na mão, isto é, brandindo a sapiência). Já é em grande parte este que chega às edições discográficas. Tenderá a separar-se cada vez mais do outro, do que corre nas veias do povo, que prosseguirá o seu caminho, como tem prosseguido. E que continuará a viver nas ruas, como tem vivido. Porque ser humano é ser criativo, sem para isso precisar de ter canudos. À semelhança de todos os outros povos do mundo, os portugueses são maravilhosamente criativos. Nunca houve um Fado aristocrático, mas houve sempre aristocratas fadistas. Porque não perverteram o espírito do Fado, faziam antes parte dele. Surgem, contudo, cada vez mais fadistas de cunho burguês, anémico (refiro-me, é óbvio, à mentalidade, não à camada social de que provêm). Parece que este fado burguês começa a correr paralelamente ao Fado da gente anónima, sem se tocarem. Até há fadistas que se querem demarcar da “má fama” dos fadistas do passado. A “má fama” intimida-os, como burgueses que são. Um fadista muito mediático dizia há pouco tempo na televisão que, antigamente, ser fadista “era uma coisa muito feia” e que os fadistas de agora tinham a obrigação de dar um novo estatuto a esse termo. Ou seja, não lhe agrada qualquer colagem à fadistagem do passado, à ralé das vielas e das tabernas manhosas. Mas querer demarcar-se das origens pobretanas da sua arte é que é “uma coisa muito feia.” Desejaria talvez um Fado engravatado e respeitável? Ora, o Fado só deve ser respeitado porque, como arte, merece respeito. Não porque apregoe o respeito e os bons costumes e a moral de pacotilha. Canta-nos José da Câmara Pereira no “Fado Fadista”, com letra de Eduardo Damas: “Não digam ao Fado / com ar de disfarce / que é baixo, que é reles, / que não tem valia / que aprenda ciência / e que seja poeta / mas doutra poesia. // Não digam ao Fado / que não entristeça / que apenas se alegre / nas provas da vida / que por maus ciúmes / não perca a cabeça / e não ande às cegas / por tão maus caminhos. // O Fado fadista / tem de tudo um pouco / tem tanto de artista / como tem de louco. / E veste-se de novo / à maneira antiga, / é filho do povo / e o resto é cantiga!”.




Maria Teresa de Noronha


Um fadista verdadeiro tem sempre alma de vadio - nem que seja em sonho - e, se não é fora da lei, pelo menos sabe o que é estar acima dela. Amália, Marceneiro, Hermínia, essas “estrelas de enorme grandeza”, todos esses – não cantavam apenas Fado – ERAM Fado. O seu modo de ser era Fado. A sua vida era Fado. Até a sua cara era Fado. Por isso, o que lhes saía da garganta era Fado, e provinha das entranhas. E, como provinha das entranhas, não precisavam de berrar para mostrar que tinham goela. No Fado, não é uma boa goela que importa: “Um fado nasce e só conseguirá viver / se andar nas asas do vento, / se quem o canta tiver sofrido a valer / p’ra lhe emprestar sentimento. // Não pode cantar-se a dor / se a dor é desconhecida/ e não pode dar calor se o calor / não for ideia sentida. // Ninguém pode cantar rindo / se estiver sentindo / as penas da vida. // (...) D’alma vem a expressão / que na dor é reflectida / e então, o coração / faz a confissão toda de seguida. // É como quando se chora, / logo se melhora as penas da vida.” Letra de Alberto Janes, “Um fado nasce” (canta Amália). Ser fadista é como uma graça, não se procura, é dada (“e deu-me esta voz a mim”). O mesmo se passa com a poesia. Ser fadista é um dom: “Por muito que se disser / o Fado não é canalha. /Não é fadista quem quer, / só é fadista quem calha. // O destino é linha recta / traçado à primeira vista. / Como se nasce poeta / também se nasce fadista.” Rodrigo de Melo, “Fado da Adiça,” (canta Amália). “Quando nasci, o Destino / marcou-me na vida um fado. / Meu coração pequenino, / logo bateu apressado. // Que fado seria aquele / que o destino me traçava, / que tendo receio dele / minha pobre mãe chorava? // E o pranto de minha mãe, / caindo sobre o meu peito, / deu-me tristeza também, / tristeza que é meu defeito.// Fui crescendo e sou mulher / e o Destino o que me deu / foi um Fado que me quer, / um Fado que é muito meu. // Sou, portanto, agradecida, / ao fado que me foi dado, / o fado da minha vida, / que é sempre cantar o Fado.” “A Minha Vida”, gravado por Ercília Costa em 1931.




Amália Rodrigues



“Cantam cantado”, comentava Amália referindo-se a fadistas que iam surgindo na cena musical. Ou seja, cantam com consciência de que estão a cantar em vez de se perderem no que cantam. Isso trai uma falha de autenticidade. Ora, quem tem boa voz é cantor; mas só quem tem “alma” é que é fadista. Só quem é autêntico. E não há nada mais difícil do que ser autêntico. “Quem diz que o Fado s’aprende / não conhece, não entende, / suas doces melopeias. / O Fado, para ser Fado, / deve correr misturado / no sangue das nossas veias. // Quem diz que o génio fadista / só com palmas se conquista, / deve sofrer d’ilusão. / Fadista não é quem canta, / é quem filtra na garganta /o tecer do coração. //Quem diz que o Fado não é / uma cadência de fé, / uma toada imortal, / não conhece com certeza / a canção mais portuguesa / das canções de Portugal. // No Fado, p’ra se vencer, / não basta apenas manter / o amparo da gente amiga. / O que é preciso é ter garra, / abraçar uma guitarra / e cantar uma cantiga”. (Letra de Carlos Conde; canta Ilda Silva).
O Fado é uma voz interior a cantar. Não uma voz exterior. O Fado, como os portugueses – que são “almas velhas” – é sábio e um sábio nunca se exibe. O sentimento, no Fado, nunca deve ser vulgar, dramático. Mostra-se, sim, mas sempre com certo pudor, com subtileza. Há uma certa reserva, pois o tema é delicado. Os portugueses não são latinos ao modo dos italianos ou dos espanhóis. Todo o estrangeiro aponta a surpreendente reserva portuguesa que esconde, todavia, um gosto por relações profundas. Partilhamos certos traços com os japoneses – extremo ocidente e extremo oriente, – e este é um deles. Mas isso é outra história. Os grandes fadistas atingem a extrema sofisticação de conseguirem transmitir sentimentos, emoções devastadoras, sempre com uma contenção elegante que os torna ainda mais comovedores. “Tanto entristece ou encanta / garganta que canta o Fado, / que eu não sei, quando alguém canta, / se é feliz ou desgraçado.” Ercília Costa, “Fado Tango”, 1931. Eis o mistério do Fado. José Porfírio, numa voz de um timbre inconfundível (só conheço dois registos dele; infelizmente, morreu muito novo, nos anos 40 do século passado), expunha a mesma indefinição, em “Consagração ao Fado”, de 1929: “Há uma lenda bizarra / que no mundo me detém. / É Deus, o Fado, a Guitarra/ e a Alma da Minha Mãe. // O Fado é canção infeliz, / perdição de quem o abraça, / mas eu sinto-me feliz / por viver nessa desgraça. // E se ele um dia deixasse / a desgraça que contém, / já não tinha quem chorasse, / perdia o valor que tem.” A felicidade provém da transformação do sofrimento em Arte, que é o que significa dizer-se que a Severa inventou o Fado na noite em que o Vimioso não apareceu.
O Fado consiste, sobretudo, numa transmissão muito inteligente de emoções. Para isso contribui, não só a letra, não só a música, mas o desempenho em geral, a linguagem corporal, a interpretação como um todo. O famoso fechar de olhos dos fadistas, enquanto cantam, (“para olhar para o coração”, como canta Amália), a predilecção pelos fatos negros, a recusa da dança, mas a adopção de pequenos gestos como o torcer das mãos, tudo isso acontece porque a transmissão da emoção – que é o que mais importa no Fado – se torna muito mais eficaz. Daí este género musical conseguir comover povos das mais desvairadas latitudes.
Exigindo autenticidade, o Fado é um género extremamente difícil, apesar da base melódica, dizem os entendidos, ser bastante simples (outros defendem que não é tão simples assim). Se é verdade que é simples, tudo o resto não o é. As improvisações, as variações, o “estilar”, a dicção, o dividir das sílabas, a expressão autêntica da emoção, a linguagem corporal, a obrigação de ser original, de ter um estilo próprio de atacar fados muito cantados, as letras com temas difíceis, além do dedilhar da guitarra portuguesa, tudo o resto complexifica tremendamente a linha melódica, que não passa de uma mera indicação, de uma sugestão a ser trabalhada pelo cantador e pelos instrumentistas, os violistas e guitarristas – esses seres da sombra, essas naus dos timoneiros-cantadores. Uma voz e dois instrumentos numa comunhão profunda. Um corpo único de três partes que vai tocar num outro, aquele que escuta, convidando-o a entrar. Isto sem referir essa magia única que são as guitarradas e o emocionante despique das desgarradas, que são tão Fado quanto o quadro clássico do cantador com dois instrumentistas.



António Parreira e Francisco Gonçalves


Escutar e cantar o Fado é algo próximo de uma experiência mística. Um rito. O Fado, que reflecte sobre si, tem profunda consciência dessa ligação ao Sagrado (aliás, desde a origem, toda a música encontra-se ligada ao Sagrado). Descreve-se a si mesmo como uma reza, portanto, comunicação com o divino: “Se tendes fé, corações, / cantai, cantai, a rezar. / Cantigas são orações / que se rezam a cantar.” Madalena de Melo, “Fado em Ré Maior”, 1928. E em “Quadras de barro”: “Fado é oração profana / dos dias de contrição / em que a fé não chega a Deus / mas Deus chega ao coração.” Essa reza chega a tornar-se literal, como em “Avé Maria Fadista”, uma letra de Gabriel de Oliveira: “Ave Maria Sagrada, / cheia de graça divina, / oração tão pequenina, / duma beleza elevada. //Nosso Senhor é convosco, / bendita sois Vós, Maria, / nasceu Vosso Filho um dia / num palheiro humilde e tosco. // Entre as mulheres bendita, / bendito é o fruto e a luz / do vosso ventre, Jesus, / Amor e Graça infinita. // Santa Maria das Dores, / Mãe de Deus, se for pecado, / tocar e cantar o Fado, /rogai por nós, pecadores. // Nenhum fadista tem sorte, / rogai por nós, Virgem Mãe, / agora, sempre e também / na hora da nossa morte.” (Canta Amália, António Pinto Basto, Frei Hermano da Câmara). Mais recentemente, uma letra de Hortense Viegas César apela mesmo a uma Nossa Senhora do Fado: “Quando a noite se avizinha / e aceito que alguém me ajude / vou rezar à capelinha / da Senhora da Saúde. // Uma música velada / se desprende em ascensão / e essa mística toada / mais convida à oração. // E rezo por quem padece, / por todos, por mim também. / Seja ouvida a minha prece, / ó Maria, Minha Mãe. // Peço e espero que me assistas / e aqui fica o meu recado: / guarda e protege os fadistas, / Nossa Senhora do Fado.” (“Nossa Senhora do Fado”, canta Carlos Zel).





Carlos Zel


O Fado é uma penetração numa esfera mítica. Quando se canta ou escuta Fado, subtraímo-nos ao tempo cronológico do quotidiano, de tal maneira que vida e Fado parecem separados. Existe a vida e existe o Fado. Existe a vida e existe a Arte, que vive e se desenvolve, de certo modo, independentemente daquela: “Com tanto fado cantado / e tanta noite perdida / tenho mais anos de Fado / que propriamente de vida. // Juntei, por ser meu agrado, / no meu álbum d’afeições, / as minhas recordações, / com tanto fado cantado. // Passou por mim o passado, / pela minha frente erguida, / a lembrança apetecida / dos fados que já cantei, / os amigos que encontrei / e tanta noite perdida. // Os meus anos a teu lado, / ó querida, tu já me apontas. / Mas, se fizermos as contas, / tenho mais anos de Fado. // Por já estar habituado, / na minha fé incontida, / de dar eterna guarida, / tenho mais na minha idade, / anos de Fado e saudade / que propriamente de vida.” (“Mais anos de Fado”, letra de Clemente Pereira, canta Júlio Peres).

Além de se perspectivar a si próprio, o Fado criou um universo seu, o que é um dos traços da grande arte. Criou as suas próprias personagens (algumas inspiradas em vidas reais, outras puramente inventadas), que ganharam vida, e de tal forma, que surgem de fado em fado, numa verdadeira saga. São gente que todos nós conhecemos. Sabemos a vida toda da Mariquinhas. Essa personagem é tão marcante que tem sido objecto de várias letras, nas quais se descrevem diversas fases da sua vida, até à morte. A Rosa Maria da Rua do Capelão, que até parecia que tinha virtude no dia procissão da Senhora da Saúde, também surge em mais do que uma letra. E há a Cesária, a Júlia Florista, a Maria Vitória, o Chico do Cachené… Personagens fortes que tomaram de assalto o imaginário português. Isso é o que acontece com as personagens da grande literatura: pensemos num Dom Quixote, num Hamlet, numa Madame Bovary, – chegamos a conhecê-los melhor do que a nós próprios.





Ermelinda Vitória



O Fado tem também a sua própria geografia: a Mouraria, com a Rua do Capelão e a Capelinha da Senhora da Saúde, Alfama, com o Chafariz d’El-Rei, a Madragoa, o Bairro Alto, a Bica, a Graça cheia de graça; e ainda os retiros “fora de portas”, como o Ferro de Engomar. Alguns exemplos: “Alfama antiga dos nobres, / morada do velho Gama / e da primeira Nobreza, / hoje és morada dos pobres, / mas mesmo assim, velha Alfama, / mostras bem que és portuguesa. // Alfama, p’la manhã, / parece uma cidadela / onde a ambição não existe. / Moira tornada cristã, / tua canção é mais bela / cantada num fado triste. // Alfama! Santa Luzia / velando por ti, velhinha, / p’las tuas tradições, / quer de noite ou quer de dia, / estás sempre aos pés da santinha, / em constantes orações. // Velha mãe da minha mãe, / no teu encanto bairrista. / Alfama, tu tens amarras. / És a minha mãe também, / por isso é que eu sou fadista: / nasci ao som das guitarras.” “Alfama”, letra de Henrique Perry (canta Gabino Ferreira). “As ruas da Mouraria, / onde mora o nosso Fado / entristecem quem lá passa. / São estreitas para a alegria / mas, por condão malfadado, / são bem largas p’rá desgraça.” Letra de Fernando Teles (canta Fernando Maurício). A destruição da Mouraria, essa ferida que ainda hoje sangra no coração dos Lisboetas, foi profusa e sentidamente cantada no Fado: “Contaram-me ainda há pouco / que à noite, p’la Mouraria, / andava um fadista louco / sem saber o que dizia. // Falava na Amendoeira, / na Guia, no Capelão, / na Rosário Camiseira / e na Tasca do Gingão. // Tinha alamares na samarra, / melenas em desalinho, / cantava o Fado baixinho, / dedilhando uma guitarra. // Louco, chamava p’la Severa / e, quando a manhã surgiu, / quando alguém foi ver quem era, / nunca mais ninguém o viu. // Então, eu pus-me a cismar / que o louco que ninguém via / era a Saudade a chorar / a morte da Mouraria.” Domingos Gonçalves Costa, "Fadista Louco" (canta Tereza Silva de Carvalho, António Mourão e outros). “Ó Madragoa, das bernardas e das trinas, / dos padeiros, das varinas, / da tradição. / És a Lisboa que nos fala / doutra idade, / doutros tempos da cidade / que já lá vão…” Letra de José Galhardo (canta Lucília do Carmo).





Lisboa antiga (Bairro da Bica)



A riqueza do Fado ainda vai para além de tudo isto: como muito bem afirma Maria Luísa Guerra na sua obra “Fado – Alma de um Povo”, possui “uma matriz filosófica”. Uma filosofia espontânea. Reflecte. Sobre si próprio, como vimos, e sobre a existência humana. Por isso, sendo tão português, toca os corações de tão diversos povos que sentem que, de alguma forma, ele lhes diz respeito. Profundamente português, logo, universal. Ao Fado interessa-lhe a condição humana, da qual é inalienável a experiência do sofrimento. Assim, canta o sofrimento. Acusaram-no então de ser “uma canção de vencidos”, uma “conformação com o cru e negro império do destino” (Rocha Peixoto). Isto porque, diziam, incitava à submissão perante o destino, a uma aceitação passiva do sofrimento: ”Bem pensado, todos temos nosso fado / e quem nasce mal fadado / melhor sorte não terá. / Fado é sorte e, do berço até à morte, / ninguém foge, por mais forte, / ao destino que Deus dá.” (Canta Amália). No entanto, não é esta a mensagem mais escutada no Fado. O que mais se escuta é que o Fado tem uma função paliativa contra o sofrimento. O Fado é uma sua sublimação. Recusando-se sempre a negar a existência do sofrimento, o Fado incita sobretudo a transformá-lo em Arte, a transformá-lo em Fado (tal como Deus que, quando "entristeceu, fez as canções portuguesas" e o marinheiro que, "estando triste, cantava."). Haverá mensagem mais positiva? “Quando a minh’alma padece / e de saudade ando louca, / o Fado logo aparece / a bailar na minha boca. / Se sofro do mesmo jeito / mágoas que a boca não diz, / encosto a guitarra ao peito, / canto o Fado e sou feliz.” (Adelino dos Santos e Domingos G. da Costa). “O fadinho a soluçar / faz de nós afugentar / a ideia da própria morte. / Mata a dor, mata a tristeza, / o Fado é bendita reza / dos desgraçados sem sorte.” Letra de Pedro Bandeira e Álvaro Leal, “Maldito Fado”, (canta Hermínia Silva). “Mais uma noite de Fado, / mais uma noite perdida / para lembrar o passado / que não esquece mais na vida. // Quando um fadista a sofrer / tem memória do passado, / o seu desejo era ter / mais uma noite de Fado.” Popular, “Fado Pechincha” (Maria Albertina). “Há para o sofrimento um bom remédio, afinal, / é cantar no momento, ninguém se lembra do mal. / Não custa mesmo nada, / tentem fazer como eu: / uma guitarra afinada, uma voz bem timbrada e a tudo esqueceu. // Quando a tristeza m’ invade, canto o Fado. / Se me atormenta a saudade, canto o Fado. / Acha-se uma má vontade, canto o Fado. /Por uma esperança perdida / não passo na vida / por um mau bocado. / Se acaso a sorte o esqueceu, / é fazer como eu, / deixo andar, canto o Fado! // Não é que não me interesse / a quem à dor não resiste. / Mas há gente que parece / que gosta até de andar triste. / Têm sempre um ar fatal / a quem ninguém o obriga / pois, neste mundo, afinal, / vendo bem, nada vale / mais do que uma cantiga!” “Canto o Fado”, letra de João Nobre (canta José da Câmara Pereira e outros).
O Fado, porém, ao qual interessa tudo quanto é humano, canta também a alegria, as toiradas nas tardes doiradas, a rambóia, as patuscadas...



Hermínia Silva


A consciência, muito fadista, de forças maiores do que nós, da morte, do acaso, de que tudo muda irrevogavelmente, significa lucidez. Não significa ser-se “um vencido”. Significa, pelo contrário, que se viveu, que se aprendeu a aproveitar melhor o que de positivo acontece. Essa lucidez é essencial para distinguir o que realmente importa do que é insignificante e perspectivar melhor o rumo a seguir. Se não há essa consciência, não será mais fácil ao “destino” pregar uma finta e apanhar o incauto? Vencida, a Lucília do Carmo, com aquela proa? Vencida, a Berta Cardoso, com aquele vozeirão? O Marceneiro, com aquele peito de galo? A Amália, astro que refulge no inteiro universo? Eu diria antes: Fado – canção de convencidos. Têm todos ar de quem não deixa que lhes pisem os pés. E ainda bem! Foi por ter consciência do seu valor que o Fado não se deixou espezinhar, apesar de ter sido tão vilipendiado e de ter começado por baixo, pelas vielas recônditas “onde a pobreza é rainha.” A “altivez” e “valentia” fadistas são muitas vezes cantadas: “Fadistas, eu amo o Fado, / essa canção genial / que dá nome à nossa grei. / Ser fadista é ser honrado, / ser fadista em Portugal / é ser português de lei. // Sem ter lança nem arnês, / o fadista dedicado / combate com galhardia. / Defende com altivez / o seu ideal, o Fado, / sua Pátria, a Mouraria. // Povo nobre e imortal, / nunca pensei mal do Fado, / não penso nem pensarei. / Adoro o Fado dolente, / essa canção genial / que dá nome à nossa grei.” (“Ser Fadista”, gravado por Adelina Fernandes em 1928.) E, num outro fado, igualmente intitulado “Ser Fadista”, cantavam Alfredo Marceneiro e o seu filho, Duarte Júnior, uma letra de Armando Neves: “Deixar de cantar não posso / o Fado, com altivez, / porque o Fado é muito nosso, / porque é muito português. // Canto com amor profundo, / com afecto sem igual / e eu mostro orgulhoso ao mundo / a canção de Portugal. // Eu sei bem que há mais canções / de sentimento e valor, / mas os nossos corações / sentem o Fado melhor. // Pois o Fado que rebrilha / nesta alma portuguesa / tem não sei que maravilha, / tem não sei quê de beleza. // Sempre o Fado há-de existir / enquanto houver ao luar / uma alma p’ra sentir, / um coração para amar. // Vê-o por fora o turista / que aquele Fado maldiz. / Sou cantador e fadista / p’ra honrar o meu país.” E ainda esta: “O Fado de antigamente / tinha vida, tinha cor. / Era cantado somente / por fadistas de valor. // Toda a gente que o cantava / tinha fama de valente. / Não se desmoralizava, / o Fado d’antigamente. // Num tempo em que toda a gente /o cantava por amor, / com desmedido primor / em renhidas desgarradas / e em alegres patuscadas, / tinha vida, tinha cor. // O Fado dava nas vistas / mas não era deprimente. / Por consagrados fadistas / era cantado somente. (…).” ,“Fado de Antigamente”, letra de Gabriel de Oliveira (canta Jorge Silva).




António Menano


Da condição humana também faz parte o amor e, portanto, não podia deixar de ser este um dos grandes temas do Fado. E se é bem cantado o amor no Fado! Já em 1928, António Menano cantava versos destes: “O mundo dá tanta volta, / quem me dera fosse assim: / que em uma dessas voltas / tu viesses para mim. //Depois de Deus só é grande / o teu amor para mim. / Não é Deus, por ter princípio, / é quase Deus, por não ter fim”. ("Fado da Ansiedade").
Cantam-se amores delicados como no já mencionado “Colchetes d’oiro”, uma letra de Henrique Rego: “Toma lá colchetes d’oiro, /aperta o teu coletinho, /coração que é de nós dois / deve andar conchegadinho. // P’ra ficar mais lindo ainda, / teu coletinho de rendas, / aqui trago, minha querida, / a mais modesta das prendas. / Não quero que tu te ofendas, / nem que tomes por desdoiro, / não te ofertar um tesoiro / digno do teu coração, / mas dados por minha mão, / toma lá colchetes d’oiro. // São minúsculas estrelas, / que se perderam no ar, / e a Lua, p’ra reavê-las, / pôs d’ atalaia o luar / e ainda as pode apanhar, / no seu nocturno caminho / e fiz delas com carinho / estes colchetes, portanto, / minha boneca d’encanto, / aperta o teu coletinho. // Se fores de noite à rua, / deves guardá-los com jeito, / não quero que a Dona Lua / toque ao e leve o teu peito, / que eu sempre guardei respeito / pela grandeza dos sóis, / mas vim a saber depois / e fiquei compenetrado / que deve ser respeitado / coração que é de nós dois.” E cantam-se amores rejeitados: ”Não me queres, não admira, / perdi os olhos na guerra, / com eles tudo perdi. / Mas disse-me alguém que os vira, / no chão, cheiinhos de terra, / inda choraram por ti.” (Maria Emília Ferreira, “Fado Franklim”, 1929). Cantam-se ainda amores difíceis, marginais: “De mãos nos bolsos e olhar distante, / jeito de marinheiro ou de soldado, / era o rapaz da camisola verde, / negra madeixa ao vento, / boina maruja ao lado. // Perguntei-lhe quem era e ele me disse: / ”Sou do monte, senhor, e um seu criado”. / Pobre rapaz da camisola verde, / negra madeixa ao vento, / boina maruja ao lado. // Porque me assaltam turvos pensamentos? / Na minha frente estava um condenado. / Vai-te, rapaz da camisola verde, / negra madeixa ao vento, /boina maruja ao lado. // Ouvindo-me, quedou-se, altivo, o moço, / indiferente à raiva do meu brado. / E ali ficou, de camisola verde, / negra madeixa ao vento, / boina maruja ao lado. // Soube depois ali que se perdera, / esse que só eu pudera ter salvado. / Ai do rapaz de camisola verde, / negra madeixa ao vento, / boina maruja ao lado.” Letra de Pedro Homem de Mello, “O rapaz da camisola verde”, 1954 (canta Amália, Frei Hermano da Câmara). Reparem na interjeição, naquele “ai”. Não se diz “Ai, o rapaz da camisola verde” – isso seria traduzível noutras línguas. Diz-se “Ai do rapaz”, como se diz “coitado do rapaz”. Mas, ao invés de dizer “coitado” ou “desgraçado” ou “infeliz”, substitui-se o adjectivo por essa interjeição aflita, “ai”, o que empresta à frase uma emoção muito mais plangente. “Ai de ti se fazes isso!”, dizem os portugueses, com uma interjeição a fazer as vezes de um adjectivo. Isto é único, só acontece na esplendorosa língua portuguesa (hoje em dia, obscenamente maltratada). Não tinha de ser o povo que inventou esta língua a inventar o Fado também?




José Porfírio


O Fado e o Amor fundem-se num só, são indestrinçáveis. O Fado é a expressão maior do modo de amar português: “Ó Fado, torturado, tão magoado / quem te fez? / Ó Fado, não sei quem és. / Só sei que ouvi-te um dia e chorei / e ao encontrar-te encontrei / a voz do amor português. // Meu sonho, tão risonho / que eu suponho, nem sonhei. / Meu sonho, quero acordar. / Volver de novo ao Fado e sofrer / porque sofrer é viver / e eu vivo e sonho a cantar.” Letra de Silva Tavares (canta Amália). Em “Zanguei-me com o meu amor”, onde toda a cumplicidade entre os amantes gira em torno do Fado, o sofrimento de amor, mais uma vez, contribui para a excelência do canto: “Zanguei-me com meu amor, / não o vi em todo o dia, / à noite cantei melhor / o Fado da Mouraria. // O sopro duma saudade / vinha beijar-me hora a hora. / P’ra ficar mais à vontade, / mandei a saudade embora. // De manhã, arrependida, / lembrei-o, pus-me a chorar. / Quem perde um amor na vida, / jamais devia cantar. // Quando regressou ao ninho, / ele, que mal assobia, / vinha a assobiar baixinho / o Fado da Mouraria.” Letra de Linhares Barbosa (canta Amália). O Fado (como sempre o foi toda a música) é o maior instrumento de conquista amorosa. Quem canta melhor o Fado é quem ganha o troféu: “Foi na Travessa da Palha / que o meu amante, um canalha, / fez sangrar meu coração. / Trazendo ao lado outra amante / vinha a gingar, petulante, / em ar de provocação. // Na taberna do Friagem / entre muita fadistagem / enfrentei-os sem rancor, / porque a mulher que trazia / com certeza não valia / nem sombra do meu amor. // A ver quem tinha mais brio, / cantámos ao desafio, / eu e essa outra qualquer. / Deixei-a a perder de vista, / mostrando ser mais fadista, / provando ser mais mulher. // Foi uma cena vivida, / de muitas da minha vida, / que não se esquecem depois. / Só sei que de madrugada, / após a cena acabada, / voltámos p’ra casa os dois.” Letra de Gabriel de Oliveira, “Travessa da Palha” (canta Lucília do Carmo). Cantava José Porfírio, em 1929, num "Fado Vitória" que, para conseguir entreter-se com o seu bem, precisaria de uma voz que se assemelhasse à do rouxinol: “Inda o céu não mostra o dia, / já nos troncos do choupal / da linda estrada aldeã, /o rouxinol desafia / a toutinegra real, /que espera a luz da manhã. // Quando, à linda luz do sol, / ouço o meu amor cantar, / com sua voz feiticeira, /julgo ouvir o rouxinol, / numa noute de luar, / junto à fonte ou na ribeira. // Quem me dera possuir, /a voz que o rouxinol tem, / sem ter outro que o afronte. / Havia de conseguir, / entreter-me com o meu bem, / na ribeira, junto à fonte.” Mas, no fim de contas, apesar de tantas paixões sofridas, o amor pelo próprio Fado é o maior amor dos fadistas: “Se queres ser o meu senhor / e ter-me sempre a teu lado, / não me fales só de amor, / fala-me também do Fado.” Letra de Aníbal Nazaré (canta Amália, Lucília do Carmo).



Lucília do Carmo

No Fado não se receiam temas como a morte ou a despedida: “Disse-te adeus, e morri / e o cais, vazio de ti / aceitou novas marés. / Gritos de búzios perdidos / roubaram dos meus sentidos / a gaivota que tu és. / (…) Presa no ventre do mar / o meu triste respirar / sofre a invenção das horas. / Pois na ausência que deixaste, / meu amor, como ficaste, / meu amor, como demoras.” Letra de Vasco de Lima Couto (canta Amália). A saudade, claro, é um dos seus temas predilectos: “Achei-te tanta diferença / quando de novo te vi / que, estando em tua presença, / tive saudades de ti”. Letra de João de Freitas (canta Adelina Ramos). E Alfredo Marceneiro em “Cabelo Branco”: “Saudade são pombas mansas / a que nós damos guarida, / paraísos de lembranças / da mocidade perdida”. Ou esta letra de um dos muitos aristocratas fadistas, D. António de Bragança: “São tão lindos os teus olhos / quando se fitam nos meus! / Contam coisas, dizem coisas… / Ai, Jesus! Valha-me Deus! // O amor tem duas moradas / que Nosso Senhor lhe deu: / o coração onde vive / e os olhos onde nasceu! // Eu quero bem aos teus olhos / mas muito mais quero aos meus, / pois, se perdesse os meus olhos / não podia ver os teus! // Nossa Senhora das Dores / tem sete espadas no peito…/Saudade tem sete letras / que ferem do mesmo jeito!”
O Fado nasceu nos bairros miseráveis, onde todas estas experiências humanas atingiam paroxismos dificilmente suportáveis: “Dizem que é enorme o mundo / colossal o seu roteiro. / Quanta vez um ai profundo / é maior que o mundo inteiro!” (Madalena de Melo, "Cantares", 1928.) Com olhar sábio, reflectiu sobre elas e transformou-as em canto: “Para expandir minha dor, / a guitarra me ensinou / a ter amor à poesia. / Nas horas de sofrimento, / o meu pobre coração / se não cantasse, morria.” (Maria Silva, Fado da Paixão, 1928.)
Perpassa pelo Fado uma visão do mundo que tem algo de oriental. O mundo é ilusório, nele caminhamos como num sonho. Nada é apenas o que aparenta ser: “Se tu me deixares eu digo / o contrário a toda a gente. / Neste mundo de ilusões / fala verdade quem mente.”, cantava Maria Silva, no “Fado Dois Tons”, em 1928. E Marceneiro, em "Olhos Fatais", 1936, falava “neste mundo enganador”. No passado, os ingleses, com desprezo, classificavam os portugueses como “orientais” de temperamento. Teriam alguma razão, mas o desprezo pelos orientais só os diminuía a eles, ingleses.



Ercília Costa


A consciência do tempo que passa, de que tudo muda, contribui para esse olhar melancólico sobre a precariedade e efemeridade da vida: “Tempos antigos, / tempos passados, / tempos de artistas, / tempos mortos que eu vivi. / Velhos amigos, / velhos pecados, / velhas fadistas / que não vejo agora aqui. // Já lá vão todas, / já lá vão todos / já lá não falta / senão um que espera a vez. / Foram-se as modas / foram-se os modos, / foi toda a malta / do meu tempo com vocês. // Chorai, chorai, / por mim, por mim, / rapaz do tempo que já lá vai / e eu vi no fim. / Passou, passou, / morreu, morreu, / e desse mundo que acabou / fiquei só eu. // Vi as esperas, / vi as toiradas, / pegas e tudo / no bom estilo português. / Vi as galeras, / vi as cegadas, / o velho Entrudo / com bisnagas e chechés. // Vi a Avenida / com luminárias, / toda empedrada / a preto e branco sem metrô. / Coisas da vida, extraordinárias, / o agora é nada / ao pé de tudo o que findou.” (Letra de José Galhardo, canta Carlos Ramos). No Fado, a velhice é assumida. Não é preciso fingir-se que “ainda” se é novo, como acontece no universo da pop-rock, hoje em dia cheio de “adolescentes” da terceira-idade. E ainda outra: "Amor é água que corre, /tudo passa, tudo morre, / que me importa a mim morrer? / Adeus, cabecita louca, / eu vou esquecer tua boca / na boca doutra mulher." (Letra de Augusto de Sousa, canta Alfredo Marceneiro.)
O Fado foi ainda, durante certo tempo, acusado de conservadorismo. Mais uma vez, de tudo se encontra no Fado. Mas o grande fio condutor é, bem pelo contrário, um profundo desprezo pelos valores pequeno-burgueses da aparência e da convenção. Nas “Sardinheiras”, de 1947, em pleno regime de Salazar, Amália cantou esta letra de Linhares Barbosa: “Um dia ele seguiu-me / ‘té à rua onde eu morava. / Cumprimentou-me, sorriu-me, / e ao outro dia lá estava. // Atirei-lhe da trapeira / da minha água furtada, / uma rubra sardinheira / que se tornou mais corada. // Depois nunca mais o vi, / nem do seu olhar a chama. / Passou tempo e descobri que ele morava em Alfama. // Uma noite sem pensar, / pus o meu xaile, o meu lenço/ e fui atrás desse olhar / que deixara o meu suspenso. // Hoje moro onde ele mora, / hoje vivo onde ele vive. / E há sol por dentro e por fora / da minha alegria enorme.” Numa época de intenso moralismo, de falsos pudores, de namoros vigiados à janela, de tacanhez pequeno-burguesa, a mulher da canção, “sem pensar”, vai ter com um homem com quem nunca sequer falou. Noutra letra do mesmo Linhares Barbosa, ridiculariza-se o respeito pela moral pequeno-burguesa, pelo “parece mal” social: “Porque cantamos o Fado / falam de mim e de ti. / Não te dê isso cuidado, / põe as intrigas de lado, / não dês ouvidos, sorri. // Põe o xaile de Tonquim / e vamos os dois ao baile. / Enfeita-te só p’ra mim, / gosto que sejas assim, /adoro ver-te de xaile. //Ri sempre que t’apeteça, / faz como eu que não ligo, / ainda que mal pareça, / se perdermos a cabeça, / isso é comigo e contigo. // Domingo, se Deus quiser, / vamos os dois à corrida, / todo o mundo há-de saber / que és a única mulher / por quem me perco na vida.” “A única mulher” (canta Miguel Sanches).

José Nunes

O Fado, em consonância com o cristianismo na sua génese – uma religião de compaixão – sai muitas vezes em defesa dos deserdados da vida, dos párias, dos enjeitados da sociedade dos “bons costumes”: “As migalhas que sobejam / da mesa dos abastados / são muitas vezes o pão / de milhares de desgraçados. // É vício cantar o Fado, / é vício amar e sofrer. / Mas, pior do que ter vícios, / é não ser capaz de os ter.” (Maria Silva, "Fado Fadista", 1929). Os dois últimos versos lembram as tiradas de Oscar Wilde! “Um quarto de pão sobeja, / querendo a gente fazer bem. / Chega para quatro ou para cinco, / pode até chegar para cem.” (Maria Silva, em "Fado Corrido", de 1928). E canta Alfredo Marceneiro: “Fui de viela em viela, / numa delas dei com ela / e quedei-me, enfeitiçado: / sob a luz dum candeeiro / estava ali o Fado inteiro, / pois toda ela era Fado. // Arvorei um ar gingão, / um certo ar fadistão / que qualquer homem lhe assume, / pois confesso que aguardei, / quando por ela passei, / p’lo convite do costume. // E, em vez disso, no entanto, / no seu rosto só vi pranto, / só vi desgosto e descrença. / Fui-me embora, amargurado, / e era Fado, mas o Fado, / não é sempre o que se pensa. // E ainda recordo agora / a visão, que ao ir-me embora, / guardei da mulher perdida. / A pena que me desgarra / só me lembra uma guitarra / a chorar penas da vida.” Letra do Dr. Guilherme Pereira da Rosa, “A viela”.
A defesa das “ruas sujas” e das prostitutas é omnipresente, muitas vezes através de letras de teor profundamente anti-convencional. Afinal, a Mãe do Fado foi uma “mulher perdida”! “Quem tiver filhas no mundo / não fale das desgraçadas; / as que são hoje perdidas / também nasceram honradas.” (fado cantado pela Severa, segundo Teófilo Braga). “Foi na velha Mouraria, / nas guitarradas de então, / que teve nome na orgia / o Fado, linda canção / (…) / Quem quer que és tu não fujas / da mulher que se perdeu. / Na lama das ruas sujas / brilham os astros do céu. // Donzela que vais passando, / não deves tornar-te a rir. / Na seda mais preciosa / pode uma nódoa cair. // Parti a minha guitarra, / perdi a minha alegria. / Rezemos por ela agora, / Padre-nosso, Ave-Maria!” (Maria Emília Ferreira, "Fado da Mouraria", 1929). “Cerejas frescas, vermelhas, / vendem-se pelos caminhos: / são os brincos das orelhas / das filhas dos pobrezinhos. // Vai tão longe a mocidade, / sinto tão perto o meu fim. / Por vezes sinto vontade / de deitar luto por mim. // Já que te não dão o pão, / dá-te nua a quem to der. / Mas guarda-me o coração, / a alma que ninguém quer.” (Maria Emília Ferreira, "Fado Corrido", 1929). E, no belíssimo “Maria Madalena” relembra-se a prostituta que se tornou santa: “Quem por amor se perdeu, / não chore, não tenha pena; / uma das santas do céu / foi Maria Madalena. // Desse amor que nos encanta, / até Cristo padeceu, / para poder fazer santa / quem por amor se perdeu. // Jesus só nos quis mostrar / que o amor não se condena. / Por isso, quem sabe amar, / não chore, não tenha pena. // A Virgem Nossa Senhora, / quando o amor conheceu, / fez da maior pecadora / uma das santas do céu. // E de tanta que pecou, / da maior à mais pequena, / aquela que mais amou / foi Maria Madalena.” Letra de Gabriel de Oliveira, “Maria Madalena”, (canta Lucília do Carmo).
As grandes heroínas do Fado são, pois, as prostitutas: a Severa, a Rosa Maria, a Mariquinhas, Maria Madalena… “É numa rua bizarra / a casa da Mariquinhas. / Tem na sala uma guitarra, / janelas com tabuinhas. / (…) Para se tornar notada / usa coisas esquisitas, / muitas rendas, muitas fitas, / lenços de cor variada. / Pretendida e desejada, / altiva como as rainhas, / ri das muitas, coitadinhas, / que a censuram rudemente, / por verem cheia de gente / a casa da Mariquinhas.” Letra de Silva Tavares, “Mariquinhas” (canta Alfredo Marceneiro). “Há festa na Mouraria, / é dia da procissão / da Senhora da Saúde. / Até a Rosa Maria, / da Rua do Capelão, / parece que tem virtude. // (…) Como que petrificada em fervorosa oração, / é tal a sua atitude, / que a Rosa já desfolhada, da Rua do Capelão, / parece que tem virtude.” Letra de Gabriel de Oliveira, "Há Festa na Mouraria" (canta Amália, António Pinto Basto).

A riqueza do Fado, “ele, que veio do nada”, é imensa, pois “não sendo nada, era tudo.” Quem o julga pobre, engana-se. Talvez não consiga ver que “na lama das ruas sujas / brilham os astros do céu.”

Fotografias retiradas de:

Eduardo Sucena, Lisboa, o Fado e os Fadistas; Museu Nacional de Etnologia, Fado.Vozes e Sombras; Coord. Ruben de Carvalho, Um Século de Fado; José Manuel Osório, Todos os Fados de A a Z.

Monday, June 18, 2007



AGUARELA

Na Babilónia do cimo
dos zigurates
colho todo o firmamento; posso
ainda guardá-lo

num lugar secreto
nas mãos redigir
o catálogo das estrelas; dispenso

telescópios, só o olhar
aberto
na máxima rotação;
classifico

os astros penetro
o celeste império
o desenho sábio
círculo
das mandalas;
criando
uma nave
ao caminhar.



28.8.84


ALGUNS HOMENS


Largam pensamentos
na largada inalterável
dos navios
dormem
dentro da cabeça
têm dores de cabeça
quando dormem


fizeram-se depois
a oceanos
e aprenderam a travar
todas as mãos.
compactos no corpo
toda a vida sofrem
doenças quase mentais.

encostam-se aos corrimões
do mundo
os ossos ferem
se se encostam
gasta-os o olhar
e não lhes cabe já
nas faces muito vazias.

não são fortes
nem são fracos.
são
só assim.

servem-se
de cevada
bebem pelos poros
água.
Receiam a luz.
Sábios,
mansamente.

gostariam de ser
simples e azuis.
Nunca se enervam.
sentam-se em vagas;
distraem-se, esquecem,
abrem-se
um pouco.

morrem, sobre
azedas ervas
não desejam mais
saber de tudo.
mata-os
as pedras pagãs
de Stonehenge.



26.10.84


Recuara hoje um pouco
o céu
e continuaram
os templos;
brandos

na madrugada
da luz os telhados
dos templos
da brisa em riachos
e seda, aspirando quase
o mesmo orvalho

corvos, alguns, esquecidos
rastos da noite
voam negro, agitam,
em presságios e sombras
uma há muito estagnada
interrogação;
e sempre

roda o globo, discreto, e escorre
das coisas dentro poesia p'las amplas
galerias da alma pousando vão
cuidados,
um abrigo, ténue curva
da rota, a inspiração,
na areia à chuva
em Yangshuo, a eternidade.

Um buraco
minúsculo no chão e começa
a arcaica escuridão da terra.
Em Yangshuo os homens
e pó.


25.9.84

Monday, May 21, 2007


CHINA



A ARTE DA ESCRITA CHINESA E AS SUAS IMPLICAÇÕES PICTÓRICAS E POÉTICAS



Página do Sutra do Diamante, em que cada um dos caracteres foi desenhado de maneira diferente dos outros e de forma imaginativa, inspirando-se em pássaros, dragões, fénixes, folhas, etc.


Tradicionalmente, o homem oriental vivia segundo o ritmo do seu corpo e este seguia o ritmo da natureza. No ocidente, tende-se antes a viver na representação mental da natureza, sobre a qual é permitido legislar. No oriente, não se pretendia dominar a natureza, mas exaltar a integração do homem nela. Isso mesmo traduzia o jardim chinês, que era um jardim-natureza, confundido com ela e pleno de imprevisto, bem longe do modelo francês simétrico, perspectivado, domado. A medicina tradicional chinesa vê rios e montanhas no corpo humano e veias e músculos na natureza. Assim vivendo no seio da natureza, o homem oriental agia no concreto. A sua linguagem tornou-se, ela também, imensamente sugestiva e concreta. E ampla no domínio desse concreto.
A escrita chinesa revelar-se-ia surpreendentemente reveladora dessa concepção harmónica do homem e da natureza – os caracteres chineses são signos através dos quais a linguagem e a própria realidade adquirem uma maior inteligibilidade. Essa aquisição só é possível porque os caracteres não se constituem meramente como referências fonéticas de uma ordem pensante. São, mais do que isso, manifestações directas da relação com a realidade, relação essa traduzida por uma captação gestual de cariz imediato, pois prescinde da representação mental da realidade como mediação. Num texto escrito cerca de 1050, Guo Xi, no seu Tratado da Paisagem, testemunha a concepção chinesa do universo através da pintura: “Quem não pode percorrer as montanhas e os lagos, que alegria não terá em possuir uma paisagem pintada pela mão de um artista! A poesia é uma pintura, assim como a pintura é uma poesia sem palavras.
Só um tolo pode crer que, para pintar, basta adquirir habilidade manual e utilizar o pincel de seda mais fino, a tinta preta de mais belo tom, a seda ou o papel de melhor qualidade. Só será verdadeiramente pintor aquele que souber meditar durante anos, identificar-se com o objecto do seu estudo e tornar-se, ele mesmo, árvore, torrente, bruma e ave.
Quando no meu coração ressoa o universo, quando logro alcançar o pleno acordo do meu espírito com a minha mão, só então começo a pintar e, sobre a seda que o meu pincel acaricia, o céu e a terra harmonizam-se e o homem é livre.”



Yan Wengui, Xishan louguan (Templos e pavilhões da Montanha do Oeste), séc. X


A escrita chinesa surge, assim, como um gesto em toda a sua dimensão mimética e, por isso mesmo, traduz-se como um apontar eficaz da realidade. Nesse sentido, há uma íntima conexão entre linguagem, escrita e pintura. A poesia, a pintura, a caligrafia (que não se resume, como se viu, a um signo visual de um som, antes expressa de modo manifesto a dignidade ontológica da arte, ou seja, os caracteres desenham de forma próxima a coisa mesma que designam) são indissociáveis. Foi o facto de formarem uma tripla prática que levou Su Shi, grande escritor e calígrafo, a compor estes versos sobre Wang Wei, pintor e poeta: “As suas paisagens, dir-se-iam poemas/ os seus poemas, dir-se-iam paisagens.”
É através do pincel que a natureza profunda dos seres pode ser apreendida. Arte e vida não conhecem distinções. O ritmo próprio que anima cada ser é capturado pelas três artes do traço. Por essa razão, este deverá evocar a vida, conseguir uma composição que realmente sugira o pulsar do universo, seja o traço de um caracter ou o traço que desenha um pássaro em pleno voo:
“Há muito tempo, na província de Henan, dois dragões maléficos habitavam no rio. Saíam de noite para assaltarem as pessoas e devorarem-nas.
O governante da província, Chen Xiao, era famoso pelo seu saber e pela perfeição da sua caligrafia. Manejava tão bem o pincel como manejava os homens, com uma delicada força e uma energia cheia de brandura. Caligrafados pelo seu punho, os decretos que promulgava eram obedecidos por todos.
Horrorizado com a crueldade dos dragões, meditou profundamente nos meios a empregar para desarmar a sua ferocidade. Em seguida, tomou o pincel, compôs um poema e ordenou que afixassem a folha à beira do rio, perto do covil dos monstros. Quando estes saíram para a sua habitual caçada, viram os caracteres e leram o poema. A beleza da escrita e dos sentimentos arrancou-lhes lágrimas aos olhos. A partir daí, deixaram em paz a gente de Henan.”
(Fa Jin Bi Yu Jing, cerca de 600 d. C.)
Os caracteres são não só resultado de actividade mas também agentes. Foi a força sugestiva dos caracteres de Chen Xiao que fez com que os seus decretos fossem obedecidos e que arrancou lágrimas aos dragões. A sugestão une a arte da escrita e a pintura, confundindo-as – ambas se caracterizam por uma ligação ao real.



Esquerda: caracter long, "dragão"; direita: desenho de um dragão




Em cima: o caracter shan, "montanha"; em baixo: montanhas em Guilin, China


Esquerda: pintura caligráfica com os caracteres changcheng, "Grande Muralha"; direita: a Grande Muralha

Os caracteres chineses começaram por ter a forma de desenhos esquemáticos. Os caracteres que deles descendem directamente chamam-se pictogramas. Segue-se a evolução, por exemplo, dos caracteres b) (peixe), c) ma (cavalo), d) lóng (dragão) e e) gui (tartaruga) - olhar de cima para baixo:


Mais exemplos:A) Homem, pessoa, b) mulher, c) criança, filho, d) boca, e) sol, f) lua, g) montanha, h) rio, i) água, j) chuva k) bambu, l) árvore, ramo, m) ave, pássaro


Através da junção de pictogramas, formaram-se ideogramas para traduzir ideias. Por exemplo, luz, míng,juntaram-se o sol, rì, e a lua, yuè .


Por fim, surgiram os fonogramas, compostos por uma parte fonética e por um radical ou significante. Por exemplo, "vomitar", "cuspir", tu,é formado por kou, que significa "boca" e que lhe dá o significado, e por tu, "terra",que lhe empresta a fonética. Da boca para a terra.

A arte da escrita expressa a preocupação, tipicamente oriental, de não introduzir uma ruptura entre signos e mundo, entre homens e natureza. Por isso, o seu lugar é aquele onde é sensível o estremecer da vida, situando-se entre o inexprimível e o comunicável. Em relação à poesia, a arte da escrita permite-lhe um aumento e uma aclaração do sentido. Não é mera face do poema, mas a revelação do seu sentido último. Wang Wei, num verso seu, evoca a floração de uma flor de hibisco: “Na ponta dos ramos, flores de hibisco”





a) Olhar de cima para baixo:


1º carcacter: ramo, árvore –
2º caracter: ponta de árvore ou ramo –
3º e 4º caracteres: hibisco – ròng
5º caracter: flor - hua


b) Primeiro caracter: uma simples árvore ; depois, qualquer coisa se precisa no topo da árvore (a vermelho) ; acrescenta-se então o radical de folha ( a vermelho) e surge o botão; dá-se a expansão do botão (a vermelho) e, finalmente, temos a flor na sua plenitude (a vermelho).

c) Mas, embora qualquer um seja sensível a esta visualização da expansão de uma árvore que dá flor, só aquele que conhece a língua perceberá uma sugestão subtil que perpassa a sucessão dos caracteres: a da implicação do homem ( , rén) - a azul - na eclosão da árvore, vivendo-a “no interior”.


O mesmo sucede na relação da arte da escrita com a pintura propriamente dita. Quando a primeira é inserida na segunda, acrescenta-lhe um sentido, não se limita a descrições ou títulos, mas traz consigo uma nova dimensão. Compare-se as duas imagens seguintes: a primeira é uma pintura, como habitualmente acompanhada de um poema; mas a segunda é uma fotografia a que foram acrescentados caracteres. A semelhança entre ambas é evidente:






As três artes, deste modo, constituem como que veículos supremos na ligação do homem às forças vitais originárias, restituindo-o à harmonia e ao enigma do universo.
A noção de vazio, por exemplo, percorre filosofia (é muito importante tanto no budismo quanto no taoismo), música, pintura (atente-se novamente nas duas imagens anteriores), a arte da escrita e a poesia. Vincula-se à ideia do pulsar vital dos seres e, por isso, é uma presença dinâmica, lugar de transformação. Atente-se nos poemas visuais de estranhas formas que podem ser lidos a começar de qualquer ponto, em itinerários sempre diferentes e plenos de surpresas, elaborados precisamente a partir dessa ideia de vazio:




Tal como no poema acima exposto, a arte ocidental do séc. XX soube explorar e assumir o factor da improbabilidade, ou melhor, o dos paroxismos da probabilidade, pois o improvável desaparece, contendo em si inúmeras leituras possíveis ao oferecerem um significado multiforme. Essa multiplicidade de sugestões é mesmo inevitável na arte da escrita e na poesia chinesas. A maior parte dos caracteres chineses são construídos a partir de outros caracteres, como vimos, o que produz como que uma gravidez de sentidos e evocações em cada um. Por exemplo, o caracter xiang , que significa pensar, é formado por xiang, inspeccionar , (por sua vez formado por uma árvore, de onde espreita um olho, ), e xin, coração, mente . Pensar: inspeccionar o coração ou a mente.



Embora a escrita chinesa se preste a múltiplas interpretações e a caligrafia deva reproduzir um estado de alma, isso não implica que os gestos sejam totalmente arbitrários. Tal como a pintura e a poesia tradicionais chinesas, a caligrafia segue regras estritas:






Além disso, existem vários tipos de caligrafia, sendo os mais comuns os seguintes:


Tipo zhuan ou "tipo carimbo"- da Dinastia Qin, utilizado hoje, sobretudo, na gravação de carimbos


Tipo li ou "tipo oficial"- vulgar durante a Dinastia Han e de caracteres elegantes e vivos; actualmente, usam-se muito nos títulos dos jornais, folhetos de exposições, etc.


Tipo kai ou "tipo regular"- evoluiu a par do tipo li; os caracteres são quadrados, muito nítidos, desenhados traço a traço. É o tipo mais utilizado na imprensa.


Tipo cao (lê-se tsao) ou "tipo cursivo" - é o tipo li ou kai escrito de forma extremamente rápida, com os vários traços dos caracters ligados entre si, o que lhe dá um aspecto muito fluido e animado


Tipo xing ou "tipo corrente" - é o meio termo entre os dois tipos acima descritos: não é tão claro e preciso como o tipo regular, mas também não é tão rápido quanto o tipo cursivo. Daí que seja, de entre todos, o mais comumente utilizado.




A convivência de sentidos é extremamente cara também aos poetas modernos do ocidente, que se deleitam em reavivar as palavras adormecidas dentro das palavras, separando-as por um traço ou mudando de verso a meio da palavra maior, ou mesmo inventando novas palavras pela junção de duas ou mais já existentes. Nestes versos do poeta Franco Alexandre, por exemplo, ambos os casos estão presentes: “meu pouco amor de noitarder, de som/bra pequena em muramor, murmúrio,/meu morto corpo nu, meu cegamante.”

Todavia, e para além disso, um caracter chinês é passível de variados significados e, mais ainda, o leitor pode, muitas vezes, acolhê-lo como substantivo, adjectivo ou verbo.Veja-se o caracter sheng, : enquanto verbo, significa viver, dar nascimento, nascer; enquanto substantivo, significa vida, jovem; enquanto adjectivo, significa vivo, inato, natural, animado. Isto torna a tradução embaraçosa: enquanto que uma associação de certo tipo é irrelevante (por exemplo, associar “descansar”, xiu, a “homem” e a “árvore”), não associar sen – caracter composto por três caracteres de “árvore” -“floresta cerrada”, a “multidão” e a “escuridão”, outros dos seus possíveis significados, pode empobrecer uma tradução. Esta compressão de sentidos numa única palavra, porém, conduz a uma economia vantajosa na expressão poética e na sua compreensão, ao mesmo tempo que diversifica o leque de leituras legítimas. Neste verso de Dù Fu (712-770) isso mesmo pode ser verificado:


wú biàn - sem-limite, infindo:
luò- queda
– árvore, folha
xiao xiao – desolação
xià
- cair

Este verso pode ser traduzido assim: “A infinda desolação das folhas que caem”; ou assim: “As infindas folhas caem desoladamente”; ou, de um modo mais moderno: “a infinda queda das folhas a desolação cai”.
Ora, esta riqueza polissémica também foi descoberta pelos poetas modernos ocidentais. Novos tipos de organização surgiram que se recusaram a sucumbir à organização convencional. Desrespeitaram as suas regras, numa constante criação de novas leis que aumentam a possibilidade de informação ao se construir uma desordem previamente pensada como tal e, nesse sentido, ordenada. Atente-se neste poema de Gastão Cruz:

QUALQUER CREPÚSCULO

As nuvens e as aves já passaram
na luz de chuva Descoladas
as suas formas caem

no mundo vagaroso da noite um oceano
onde não quebram vagas Aves nuvens
repousando nas águas

bebem a luz cor de osso As aves içam
depois no céu sem cor como qualquer crepúsculo
metáfora do tempo o dia lívido.

É óbvia a riqueza interpretativa que suscita. O leitor é implicado de modo intenso no poema, ao ser-lhe permitida a escolha entre diversas interpretações.
Também a pintura ocidental do séc. XX seguiu este trilho. Começou a explorar conscientemente a ambiguidade (por vezes levada ao extremo do equívoco), de modo a propor leituras não unívocas. Recusou-se ao óbvio, multiplicando as possibilidades e originando, assim, uma comunicação intensa, visto que estimula o maior número possível de escolhas. Demonstra confiança na capacidade criativa do próprio espectador ou, pelo menos, procura activá-la. É através das qualidades sensíveis que as coisas exprimem o seu sentido, como é pelos gestos, enquanto intenção comunicativa, que se exprime o sentido humano. Nessa medida, por ser intenção, o gesto é irreversível, mas será reversível ao tornar-se base de signos estéticos. Estes prestam-se a múltiplas interpretações. O gesto é convite ao que o presencia para que este o siga na descoberta dos pontos sensíveis do mundo; contudo, só adquire a sua amplitude quando, nesse caminho, o que o segue encontra o seu próprio caminho, numa mútua confirmação.

Certa pintura e poesia modernas foram extremamente sensíveis ao poder sugestivo do aspecto visual do carácter chinês, que em tanta consonância com as novas propostas se achava. Eis uma pintura de Franz Kline, de 1954, onde é evidente a influência dos caracteres chineses:



E eis um poema visual de Isadore Isou, intitulado “Retrato”, de 1952:



Ou, mais recentemente, os trabalhos de Lore Heuermann, artista alemã radicada na Áustria:

























Mas veja-se ainda uma fotografia dos anos 80 do século passado, de um chinês, Sun Chengyi, intitulada “Versos poéticos”. A sensibilidade caligráfica chinesa é aqui evidente no próprio modo de olhar o mundo, mesmo quando se trata de guindastes na construção de arranha-céus! Produziu-se um movimento inverso ao do surgimento dos caracteres – uma leitura caligráfica do mundo e não só uma caligrafia retirada do mundo, o que mostra a sua mútua adequação.





Como se tentou explicar, a constelação de sentidos que o caracter chinês encerra é inevitável. Todavia, a escrita chinesa não pode ser reduzida a uma sucessão de signos enigmáticos, a soma de desenhos representativos da realidade que formam a base de noções essenciais. Na verdade, no domínio da etimologia, há mais de jogo arbitrário do que construção propriamente dita. Ainda assim, tal escrita revela, indubitavelmente, o poder oculto do signo caligráfico e de toda a influência imagética nele contida, fruto de uma crença arreigada na sua eficácia. Ao signo é conferida uma adequação profunda à realidade que o caracteriza como emblema. Esse carácter emblemático suscita o respeito chinês por qualquer folha de papel escrita. Ao praticar a arte maior da escrita, o chinês reencontra-se a si próprio e reencontrar-se a si próprio significa conhecer o seu lugar na natureza, significa comunhão com os elementos. Por isso, a arte da escrita deve revelar a carga evocativa dos signos, além da projecção total da vibração de um estado de espírito, de modo a que tudo aquilo que cai sobre o olhar possa ser expresso através da arte. Diz um antigo texto chinês:
“Para manejar bem o pincel deve-se, antes de mais, voltá-lo rapidamente como a águia volta a cabeça no ar e depois fazê-lo descer com vivacidade, como um abutre que cai sobre a presa (…) quando se escreve um sinal para baixo deve empurrar-se bem o pincel até ao fim, de maneira natural, como o peixe que nada à vontade na água. Escreve-se, aqui com suavidade, além com energia, quer uma curva, quer uma linha, mas sempre com a naturalidade das nuvens, leves ou pesadas, que envolvem o cume da montanha.”


Pintura caligráfica com o dizer Shan gao shui chang, "Altas montanhas e rios imensos".


A arte da escrita é, pois, uma prática. Aprende-se pelo gesto, isto é, estudando o movimento (na dança. nos peixes, no vento, nas aves, na água, etc.) e escrevendo. Há que fazer emergir a personalidade profunda do praticante e descartá-lo da personalidade artificial construída na vida do dia-a-dia. É uma forma de auto-conhecimento, pois todo o nosso ser é implicado no gesto de escrever. Cada vez que se pega no pincel, o calígrafo vai ao encontro de si próprio. Percebe intuitivamente a realidade do seu corpo – sabe habitar no seu corpo – e é isso que lhe permite “dar corpo” aos caracteres. As preocupações diárias desaparecem e fica totalmente absorvido no gesto. Toda a sua personalidade revelar-se-á nos caracteres, as suas forças e as suas fraquezas. A sua actividade desenvolve-se fora do tempo quotidiano, transporta-se para um tempo paralelo, um novo mundo que se constituirá como um novo eixo em volta do qual toda a sua vida acabará por reorganizar-se.
A arte da escrita assemelha-se à arte da composição musical em variados aspectos. Cada gesto, cada sequência de gestos é irreversível. Há que mover-se de um caracter para outro sem interrupção. Há uma mobilização integral do corpo e uma presença de espírito constante. Todas as forças estão focadas, longe do habitual estado de dispersão em que vivemos no dia a dia.


A escrita é uma actividade projectada numa folha de papel. Essa actividade está fundada na percepção do espaço. Uma melhor percepção do seu próprio espaço resultará numa projecção mais conseguida no exterior. Assim, observa-se amiúde que pessoas cujas faces são rígidas ou inertes não são capazes de desenhar rostos animados e expressivos. Aquilo a que comumente se chama talento para desenho ou um dom natural, tem, na verdade, muito mais a ver com melhor ou pior percepção do próprio corpo. Quando a presença em si aumenta, todo o mundo exterior será percepcionado igualmente de um novo modo: aparecerá mais vivo, menos pesado, mais real. O nosso sentido da realidade varia segundo a nossa própria actividade subjectiva/interior e o nossa percepção do corpo no espaço. As nossas relações com o mundo fazem-se através do nosso corpo – dele provém a organização do espaço e a percepção ou produção de qualquer imagem. Através da arte da escrita, é possível perceber o estado da nossa actividade subjectiva/interior e, sobretudo, aperfeiçoá-la. Subsequentemente, a nossa relação com a realidade, a nossa presença no mundo, o nosso sentido do corpo e do espaço, o nosso poder de organizar o espaço transformar-se-ão, refinar-se-ão. Libertar-nos-emos de qualquer constrangimento mecânico a nível do gesto.



Ta Chen Men, "Impetuosidade", escrito no estilo "cursivo louco"


A aprendizagem da arte da escrita não é apenas visual, é sobretudo cinética. A nossa actividade interior advém gesto que, por sua vez, advém forma. É uma dança da mão. Aliás, muitos dos grandes calígrafos chineses encontraram inspiração ao verem dançarinas em acção.
Não se trata do mero decorativismo da caligrafia ocidental (do grego kalos-grafia, a bela escrita; por isso se evitou usar o termo neste ensaio), do embelezamento de letras. Trata-se antes de vivificar os caracteres, de fazer com que expressem vida, de animá-los, de emprestar-lhes como que um movimento interior. Têm de estar carregados de energia e isso só é possível se, na sua execução, for evidente uma coerência interior, uma li, “força”, uma firmeza, uma acção resoluta, uma dinâmica. E de tal maneira que isso apenas é possível porque se trata de caracteres chineses – um reportório quase inexaustivo de formas, visto existirem cerca de 50 mil – e se trata de um instrumento como o pincel – capaz de um registo extremamente sensível de cada movimento da mão, por mais subtil. O manejo do pincel assemelha-se ao manejo de um instrumento musical. Assim se poderá “dar corpo” aos caracteres, isto é, torná-los autónomos na forte organização interna do texto e dotados de uma energia própria mas capaz de circular. Cada caracter deverá fazer prova de uma vida ainda mais intensa do que o objecto a que se refere. Para quem olha, parecerá possuir um maior grau de realidade, uma presença mais forte. No fundo, deve parecer um ser vivo. Não esqueçamos que é uma invocação pictórica, emblemática, de objectos concretos. Assim, deverão sugerir a presença de corpos no espaço, de objectos físicos tri-dimensionais que nos interpelam. Veremos neles muito mais do que o que são realmente: manchas de tinta. Esta transformação é a magia da arte da escrita. Para a atingir é crucial um comando total do pincel. E para comandar totalmente o pincel é preciso uma longa prática que culminará, após anos de imitação de modelos, de mestres, na aquisição de um estilo. Quem tem estilo é quem é capaz de ter uma assinatura própria, inimitável, única. Para isso, houve que passar por todo um processo de metamorfose, de rompimento de velhos hábitos, de cristalizações, de deixar cair várias peles. Abdicou-se da velha máscara para ir ao encontro da verdadeira personalidade. Depois de tudo haver imitado, emergirá aquela parte de nós que não pode ser imitada por ninguém. Aí começa a aventura criadora, a permanente recriação de si. A maneira como alguém se exprime através dos seus traços, gestos, aparência e postura é uma síntese, o resultado de um estilo pessoal que foi produzido. O corpo humano é uma criação na qual o carácter se manifesta através de uma certa mestria do movimento, de uma facilidade no gesto, de um estilo. Assim, existe uma relação entre o que sentimos perante um estilo de caligrafia e o que sentimos perante a presença de alguém.



Ou-Yang Xun: escrita regular – linhas direitas, quadrados, rectângulos: uma regularidade sem qualquer monotonia, devido a subtis e contantes variações nos caracteres, empresta a esta caligrafia uma majestade arquitectónica.




Yan Chenqing – com algo de redondo, com algo de dança, os seus caracteres relembram figuras humanas em diferentes posições, gestos e atitudes.

Wang Xizhi – o grande mestre mestre da variação. Estilo cursivo.


Deste modo, a arte da escrita é um método prático de auto-realização, algo que a filosofia ocidental deixou de oferecer, sobretudo a partir da modernidade, quando se tornou exclusivamente uma filosofia da consciência. Ora, a nossa capacidade de reflectir depende da nossa relação com o corpo no espaço, com o nosso domínio do gesto, com o aproveitamento da sua energia essencial, com a noção de pertença a um todo que o contém e o transcende. O corpo não é um obstáculo ao conhecimento nem um mero objecto do conhecimento, mas a mais preciosa das nossas posses e a fonte de todo o conhecimento, o de nós próprios e do mundo. É a nossa primeira realidade e um paradigma da realidade como um todo. Toda a consciência brota dele e não sobrevive sem ele. Assim, as bases sobre as quais se ergueu a incrivelmente longeva civilização chinesa diferem muito das da civilização ocidental. No entanto, também nós estamos habilitados a compreendê-la porque ela se baseia em pressupostos universais, em algo que todos os seres humanos partilham. A arte da escrita chinesa incorpora essa vivência do mundo. Estudando-a, penetramos no coração de uma cultura ímpar.



Bibliografia:
Jean François Billeter, The Chinese Art of Writing, Skira, Geneve, 1990 .
Michel Granet, La Pensée Chinoise, cap. "La Langue et l'écriture", Paris, Albin-Michel, 1980.

Huang Miaozhi, "Calligraphie Poésie Peinture. Trois arts en un seul", in Le Courrier de l'Unesco. Visages de la Chine, Dezembro 1982.

James Liu, The Art of Chinese Poetry, cap.I "The Structure of Chinese Characters" & cap. II "Implication and Associations of Words and Characters", Chicago, The University of Chicago Press, 1974.

Bernard Karlgren, Sound and Symbol in Chinese, Hong Kong University Press, 1962.

Lu Xun, Sur la Langue et L'Écriture Chinoises, Paris, Aubier-Montaigne, 1979.




1986 (revisto em 2007).


Fu, escrita mágica que desempenha um importante papel nos rituais taoistas e é usada para exorcizar, proteger, reconciliar, etc. Estes caracteres são considerados eficazes porque são vistos como realidades que emergem da actividade invisível do universo, daí chamar-se à sua escrita a "escrita celeste ou divina" (Tian shu), "Escrita das nuvens" (yun shu) e "sinais verdadeiros" (zhen wen). Os papéis onde se encontram destinam-se a ser queimados e, assim, de novo convertidos em pura energia -



























Sunday, April 22, 2007


FOTOGRAFIA
Tapam-se no pó
do pó espiam
segredos,
as coisas de olhos pretos.

Tocam-lhes
os dedos interiores
em máscaras transfigurados
das crianças sem medo.

As herméticas crianças
carregam em sono em si
as centrais nucleares.
E injectam o ar
de sangue.

13.10.84




ECLIPSE

O inca arrancou das raízes um olhar muito antigo.
arrastou-o depois profundamente pelo mundo.
Nele, o eclipse total do sol jazia.
Desceu então à Terra uma sombra gigante.
uma sombra fantasma e uma sombra silêncio
desceram

Desceu a aragem ausente
[no entanto, tremiam os vidros
nos fins da pele]
abateu-se absoluta a quietude
a ânsia se escutava só surda e gotejava
a dança da morte
dilacerava
o olhar do inca o peso levitava

Levitavam cítaras cavas tubas
as asas do escuro paradas levitavam
Suspenso o cosmos
a luz em sombra difusa.
Fechei a janela a custo
Fechei a película.

11.6.84




Cresciam os dedos em
armas, iluminações de selvas
em fúria as flechas
desligadas; e as
semifusas em
liberdade loucas quando
se abriam túneis
se abriam subterrâneos aos círculos
da mais clara das lanternas radiantes.
E do longe só
a consciência só deles
dos jovens mongóis
galopando em ouro
estepes.
no seu enviesar furtivo
a jacto me movia.
Nasceu aí então
toda a perícia dos
revólveres, a de revolver
as queimaduras do seu fino
efeito de halo
acidulado.
Chamei-o o trajecto
das pistas ocultas
do lado oposto a tudo.

Era a estação dos caminhos eram
pinceladas de luz esses caminhos
era o raro olhar amanhecendo.


7.7.84

Friday, March 09, 2007


POVOS




ÍNDIOS, MARAVILHOSOS ÍNDIOS



Índio "Bravo" Mandan de perfil - Spotted Bull (Touro Manchado)


“Cada parcela deste solo é sagrada, no modo de ver do meu povo. Cada encosta, cada vale, cada planície e bosque foi santificado através de algum acontecimento triste ou alegre em dias há muito desaparecidos. A própria poeira sobre a qual vocês agora se erguem responde mais amorosamente aos seus passos do que aos vossos, porque foi enriquecida com o sangue dos nossos antepassados e os nossos pés nus estão conscientes da empatia do contacto. Até as criancinhas que aqui viveram e se divertiram durante uma breve estação irão amar estas solidões sombrias e, ao cair da noite, saudarão os assombrados espíritos que regressam. E quando o último Pele-Vermelha tiver perecido e a memória da minha tribo se tiver tornado um mito entre o Homem Branco, os mortos invisíveis da minha tribo irão pulular por essas praias; e quando os filhos dos vossos filhos se julgarem sós no campo, no armazém, na loja, na estrada ou no silêncio das florestas sem caminhos, não estarão sós. Pela noite, quando as ruas das vossas cidades e vilas estão silenciosas e vocês as supõem desertas, estarão apinhadas com as hostes que regressam e que outrora encheram e ainda amam esta bela terra.” (Extracto do célebre discurso feito por Seattle, o chefe dos Dwamish, Squamish e das tribos índias do Noroeste, perante Isaac Stevens, governador do território de Washington, em 1854, antes de assinar um tratado no qual a sua tribo se resignava a conceder a colonos brancos as suas terras e a serem confinados a uma “reserva”) .






Dedico este trabalho aos “mortos invisíveis” e às “hostes que regressam”.




Conta-se que Cristóvão Colombo julgou ter chegado à Índia quando, na verdade, avistara o continente que seria baptizado com o nome “América” em honra a Amerigo Vespucci, o explorador italiano. Devido a esse facto, chamou “índios” aos povos que por lá encontrou. Não é um facto histórico. No entanto, presume-se que houvesse então cerca de dez milhões desses "índios", na verdade nações tão diferenciadas quanto os europeus, nos territórios hoje designados por Estados Unidos e Canadá. Vieram para ali, em vagas migratórias da Ásia setentrional através do Estreito de Bering, há vinte ou trinta mil anos. Do meu ponto de vista, fisicamente, assemelham-se bastante aos tibetanos. As mais velhas culturas índias da América do Norte documentadas são a de Sandia (15000 b.C.), Clovis (12000 b.C.) e Folson (8000 b.C.).
Quando os europeus começaram a chegar à América nos sécs. XVI e XVII, encontraram culturas bastante diversificadas: de agricultores, de recolectores, de caçadores; desenvolvidas ou de base tribal. Encontraram também várias línguas e organizações sociais distintas: de nómadas, de sedentários, de gente pacífica, de guerreiros. Este conjunto heteróclito vivia em paralelo, guerreando-se entre si ou coexistindo. Mas os europeus atacaram-nos de imediato e em três frentes, quase em simultâneo – a sudoeste e sueste fizeram-no os espanhóis e a nordeste os ingleses, franceses e holandeses. O que aconteceu depois? Entre a chegada dos europeus e o tristemente célebre Massacre de Wounded Knee, a 29 de Dezembro de 1890, que pôs um ponto final à resistência índia, decorreram duzentos anos de sucessivos genocídios do povo de todo um continente. Uma história de derrotas por parte dos índios.


Guerreiro Piegan



No entanto, deste genocídio raramente se fala; pelo contrário, tem muitas vezes sido alvo de branqueamento. Já se sabe que quem sobrevive para redigir a história são os vencedores e que a versão por estes apresentada tende a desculpar as atrocidades perpetradas em nome dessa vitória. Neste caso, os vencedores acabariam por ser os grandes construtores de uma nova indústria, a indústria cinematográfica. Usaram-na para retratarem os índios, já totalmente incapazes de se defender, através de um espelho deformador, como “os maus da fita”, em numerosos filmes de “coboiadas”. E mesmo num filme como “Dança com Lobos”, que pretende ser politicamente correcto, quem é o herói senão um homem branco? Onde está o filme em que os heróis sejam os índios? Pelo contrário, há sempre o cuidado de mostrar que os índios “não eram nenhuns santos”. É verdade, não eram santos. Eram seres humanos. Bastante mais humanos do que os seus carrascos. Fiéis seguidores de uma sábia ética, o que não sucedia com os caras-pálidas. Ser apenas humano não bastará para se ter direito à Terra? Seriam porventura santos aqueles que os liquidaram? Se só os santos merecessem a Terra, não ficaria ela completamente despovoada? Mas vejamos a quem, de entre todos, pertence a autoria dos actos mais satânicos.
A verdade é que os índios deixaram uma marca indelével no imaginário do homem branco do séc. XX, e isso conclui-se pela profusão de obras (filmes, livros de BD, etc.) em que figuram. Eram simbolicamente tão ricos, o seu estilo de vida tão único e o seu destino foi tão trágico que passaram a constituir uma fonte inesgotável de inspiração. Infelizmente, o despeito e a má-consciência não têm permitido que a imagem oferecida seja a mais isenta. Mas a fascinação está lá.

Apsaroke



Aos índios que restam não foi dado um país como recompensa pelos danos sofridos. Não foi dada qualquer oportunidade de enriquecimento, de modo a criarem filmes e programas de televisão onde apregoassem o horror do seu genocídio e o proclamassem como o pior alguma vez praticado. Não, os índios foram tratados como pobres diabos, como “selvagens”, embebedados, sabendo-se que ofereciam pouca resistência ao álcool e confinados a "reservas" - terras inóspitas que ninguém desejava, onde reinava um frio impiedoso ou um calor infernal e a malária e outras doenças os vitimava mortalmente todos os dias. Os alimentos prometidos pelo governo, assim como agasalhos, muitas vezes não chegavam e ficavam condenados à morte por fome, doença e enregelamento. Embora os 'indios que restavam estivessem "pacificados" e se tivessem rendido, a política foi sempre as de os deixar morrer até à exterminação total. Continuaram a sofrer abusos, muitos anos após o final da sua resistência, como o demonstra a história pungente do marine Ira Hayes, um índio Pima, narrada no filme de Clint Eastwood “Bandeiras dos Nossos Pais” e cantada, entre outros, por Bob Dylan, na “Ballad for Ira Hayes”. Nas escolas, a história dos índios não faz parte dos programas. E, no entanto, que povo maravilhoso eles eram!



QUEM ERAM OS ÍNDIOS?


Altar índio


“No princípio todas as coisas estavam na mente de Wakonda. Todas as criaturas, incluindo o homem, eram espíritos. Moviam-se no espaço entre a terra e as estrelas. Andavam em busca de um lugar onde pudessem tomar uma existência corporal. Ascenderam até ao Sol, mas o Sol não era adequado para nele viver. Mudaram-se para a Lua e viram que também não era boa para fazer dela a sua morada. Então desceram à Terra. Viram que estava coberta de água. Flutuaram pelo ar dirigindo-se para norte, o este, o sul e o oeste e não encontraram terra seca. Sentiram-se sumamente penalizados. Mas logo da água surgiu um grande rochedo. Estalou em chamas e as águas ascenderam pelo ar sob a forma de nuvens. Apareceu a terra seca; cresceram as ervas e as árvores. A multidão de espíritos desceu e converteu-se em seres de carne e osso. Alimentaram-se das sementes das plantas e dos frutos das árvores. E a terra vibrava com as suas expressões de alegria e gratidão para com Wakonda, o criador de todas as coisas.” (ensinamentos da Sociedade do Guijarro, segundo Wakidezhinga, um antigo chefe).

Blackman, Arapaho

Quem eram os índios? Os índios eram grandes estetas. Outorgavam um revestimento estético de uma expressividade insuperável ao jogo perpétuo com o sofrimento e a morte que era a sua vida. Para eles, o valor de um homem media-se segundo a sua estatura moral. Daí a importância da acção, do agir. O índio repousava no fundo de si mesmo e traduzia depois essa rocha secreta numa acção fulgurante. "Na vida do índio havia apenas um dever ineludível – o dever de orar, o reconhecimento diário do Invisível e do Eterno. As suas devoções diárias eram-lhe mais necessárias do que o alimento diário. Desperta ao amanhecer, calça os seus mocassins e baixa-se à beira da água. Ali se deita água clara e fria sobre a cara, ou submerge nela o seu corpo. Depois do banho, permanece de pé perante o amanhecer que ascende, frente ao Sol que baila no horizonte, e oferece a sua oração sem palavras. A sua companheira pode precedê-lo ou segui-lo nas suas devoções, mas nunca o acompanha. Cada alma deve encontrar-se com o sol da manhã, a nova e doce terra e o Grande Silêncio a sós!" (Ohiyeasa, Sioux Santee).


Apache lavando-se à beira-rio

Esse poder, esse domínio de si, não impedia o índio de permanecer humilde perante o Grande Mistério. E Este comunicava com ele através da natureza que o rodeava. A natureza era vista como uma mensagem do Grande Mistério. “Todas as coisas quando se movem, de vez em quando, aqui e ali, detêm-se. O pássaro, quando voa, detém-se num lugar para fazer o ninho e num outro para descansar do seu voo. Um homem, quando caminha, detém-se aonde quiser. Assim se deteve o deus. O Sol, que é tão brilhante e formoso, foi um dos lugares no qual se deteve. A Lua, as estrelas e os ventos são coisas com as quais esteve. As árvores, os animais, são todos lugares onde se deteve. E o índio pensa nesses lugares e envia aí as suas orações para que cheguem ao lugar onde o deus se deteve, a fim de obter ajuda e protecção.” (um chefe dos Sioux Oglala). A terra era a sua mãe. Nascera dela e sobre ela vivera e dela se alimentara. Preferia ter nascido em pleno reino da terra, com as suas montanhas e rios, a ter nascido fechado num palácio de ouro. O seu amor pela terra nunca esmaecia. Pelo contrário, ia-se acentuando com a idade, gostando cada vez mais de se sentir em contacto com a Grande Mãe. Todas as suas maravilhas, animais, plantas, rios, árvores eram vistos como dádivas do Grande Espírito. Daí que não fosse natural ao índio sentir hostilidade perante fosse o que fosse, muito menos perante outros seres humanos, seus irmãos, como ele filhos da mãe terra.
Esta posição em face da natureza é radicalmente diferente da adoptada na cultura ocidental. Nesta, o mundo exterior, reduzido a abstracção, é visto como um mero objecto domável em face de um sujeito “dono e senhor da Natureza” (René Descartes). Estabelece-se uma dicotomia profunda entre o “eu” e o “mundo exterior”. Ora, o universo do índio era sobretudo poético. O seu pensamento funcionava por analogia e as similitudes que encontrava entre si e o mundo proporcionavam-lhe um genuíno gosto pela vida e um frequente sentimento de plenitude. A relação de profunda harmonia com a natureza só foi quebrada com a chegada do homem branco.
Por tudo isto, o índio incorreu num erro de julgamento que se revelaria fatal. Julgou que o homem branco, tal como ele, índio, buscava apenas a utilização das terras e não a posse das mesmas. Daí que estivesse disponível para as partilhar, uma vez que as considerava serem de toda a gente e de ninguém. O índio desconhecia o conceito de propriedade privada da terra. Ora, o homem branco encarava a posse da mesma como uma questão decisiva e estava disposto a massacrar aqueles que via como seus detentores. A natureza era, para ele, um obstáculo e o seu ponto de vista era sempre o do proveito: a floresta servia para conseguir madeira, os animais para se lhes retirar a pele e até os índios só poderiam existir se fossem aproveitados para o Exército do Senhor pelos Jesuítas, Dominicanos e Puritanos.

Menina Umatilla

"Os Lakota de antigamente eram sábios. Sabiam que o coração do homem que se afasta da natureza se torna duro. Sabiam que a falta de respeito pelas coisas vivas e que crescem depressa desemboca numa falta de respeito pelos seres humanos. Por isso, manteve sempre as suas crianças próximas da suavidade da sua influência. "(Luther Standing Bear – Luther Urso Erecto – chefe Sioux Oglala)

Os índios, porém, não aceitavam facilmente a religião que lhes propunham. Red Jacket (Casaca Vermelha, ou Sagoyewatha), o chefe Séneca, esclareceu a razão pela qual recusara a um missionário cristão que permanecesse entre o seu povo: “Dizem-nos que a vossa religião vos foi dada pelos vossos antepassados, e foi transmitida de pai para filho. Nós também temos uma religião que nos foi dada pelos nossos antepassados e que nos foi transmitida a nós, seus filhos. Nós veneramo-la deste modo: ensina-nos a agradecer por todos os favores que recebemos; a amarmo-nos uns aos outros e a ser unidos. Nunca discutimos sobre religião, porque é um assunto que diz respeito a cada homem e ao Grande Espírito. Irmão, nós não desejamos destruir a tua religião ou retirá-la de ti; só queremos fruir da nossa.”



Dança medicinal Arikara


O universo mágico-poético do índio fazia com que ele não estabelecesse uma diferença essencial entre a realidade exterior e os sonhos ou visões. É óbvio que os sabiam distinguir mas não os valorizavam de diverso modo e consideravam que ambos tinham equivalente valor indicativo. “Em certa ocasião, o meu avô, Knife Chief (Chefe Punhal), contou-me uma história da época em que o grande Chefe Crazy Horse (Cavalo Louco) foi em busca de uma visão a Bear Butte, nas Black Hills (Montanhas Negras). Quando Cavalo Louco regressou, disse ter aprendido que um dia haveria guerras terríveis em todo o mundo. Cavalo Louco descreveu fielmente a forma física do mundo falando de onde saía o sol, de como se põe e logo volta a sair. Portanto, devia ter sabido que a Terra era redonda. E disse que um dia haveria combates e grandes fogos por todo o mundo. O povo sofreria e as nossas mulheres chorariam. Por toda a parte os homens seriam brutais para com as mulheres. Mas, no fim, Deus viria à Terra para a julgar.” (Fools Crow, Sioux Teton). Era neles natural o respeito pela terra, pelos rios, pelos animais e pelos outros homens, incluindo os seus inimigos na guerra. Tudo fazia parte de uma única irmandade inserida no mesmo todo profundamente significativo, profundamente sagrado. O Grande Mistério que permeava toda a existência encarnava em diversas entidades, como Wakanda para os Lakotas e Cheyennes e Manitou para os povos do nordeste, todas elas próximas do Homem, palpitando no seu quotidiano e na natureza em redor. Black Elk (Alce Negro) homem-medicina dos Sioux Lakota, dizia: “Devemos compreender bem que todas as coisas são obras do Grande Espírito. Devemos saber que Ele está dentro de todas as coisas: das árvores, das ervas, dos rios, das montanhas e de todos os quadrúpedes e povos alados. E, ainda mais importante, devemos compreender que Ele está também por cima de todas estas coisas e povos. Quando compreendermos tudo isto profundamente nos nossos corações, então respeitaremos, amaremos e conheceremos o Grande Espírito. E então seremos, actuaremos e viveremos como Ele quer.”

Sacerdote Serpente


Os famosos tótemes não representavam animais divinizados, mas animais profundamente estimados com quem os índios se sentiam em irmandade essencial. A comunhão com os animais era também demonstrada através de danças rituais, não para tentar a comunicação com um deus, mas para, por exemplo, facilitar a chegada das manadas de bisontes: “Se os homens procurassem fazer o seu melhor para se tornarem dignos daquilo pelo qual se sentem tão atraídos, poderiam ter sonhos que purificassem as suas vidas. Que um homem decida qual é o seu animal favorito e faça um estudo dele, e aprenda os seus hábitos inocentes. Que aprenda a compreender os seus sons e movimentos. Os animais querem comunicar-se com os homens.” (Bisonte Bravo, Sioux Teton).


Corvo medicinal - Apsaroke


Os planos material, espiritual e poético fundiam-se numa única verdade. A sintonia com o universo tornava os índios adaptáveis, maleáveis, capazes de se comportarem tanto de forma estóica como de forma epicurista, dependendo das circunstâncias. Sabiam ser graves sem se tornarem macambúzios e alegres sem se tornarem alarves.
Aqueles que estavam incumbidos de presidir à relação do mundo visível com o mundo invisível, agindo também por vezes como diplomatas e orientando os rituais e as festas, eram os homens-medicina (erroneamente chamados “feiticeiros”). Alguns utilizavam alucinogénios de modo a interpretar as visões que daí decorriam: “Falamos com Wanka-Tanka e estamos certos de que nos ouve. Todavia, é difícil explicar o que cremos sobre isto. É crença geral entre os índios que, depois da morte de um homem, o seu espírito fica em alguma parte da terra ou do céu. Não sabemos onde exactamente, mas estamos certos de que o seu espírito ainda vive… Mas eles (os espíritos) nunca nos vêm falar, excepto, talvez, nos nossos sonhos, quando dormimos. Também assim sucede com Wanka-Tanka. Cremos que está por toda a parte e, todavia, age para nós como os espíritos dos nossos amigos, cujas vozes não podemos ouvir.” (Mato-Kuwapi – Perseguido-Pelos-Ursos - Sioux Santee-Yanktonai). A inter-penetração do sonho e da realidade, presente no mundo mental dos índios, torná-los-ia extremamente vulneráveis ao álcool, o que depressa seria aproveitado pelos colonos brancos.


Invocação ao Grande-Espírito


Por vezes, em circunstâncias especiais, os homens-medicina tornavam-se chefes. Estes podiam ser de guerra ou civis mas, como era o conselho tribal quem tomava as grandes decisões, na verdade a sua tarefa era a de o representar. Isso garantia-lhe o respeito e a obediência. A sua liderança só era incontestável em caso de batalha. E as batalhas eram limitadas, circunscritas a grupos. Significa que jamais se procurava a extinção dos adversários. A qualidade e não a quantidade decidia o acto guerreiro digno de louvor. E o que conduzia os índios à batalha? A honra, a vingança e o abuso da entrada em territórios de caça. Não que considerassem tais territórios como seus, mas apenas que estavam a ser utilizados por eles. Os índios foram incapazes de perceber, durante demasiado tempo, que os brancos desejavam a posse exclusiva do vasto território que é hoje os Estados Unidos. Era uma ideia que lhes parecia tão demente que nem sequer a consideraram. A terra era encarada como um lugar que partilhavam com os outros homens, os animais, as árvores, os rios e montanhas, os desertos e as tempestades. Não tinha uma carga política. A primeira terra foi cedida pelos índios em 1625, por Samoset, dos Pemaquid, no que é hoje o estado de Nova Inglaterra. Mas Samoset comentou: “Samoset sabia que a terra vem do Grande Espírito, é tão infinda como o céu e não pertence a nenhum homem. Para aplacar o humor destes estranhos com os seus estranhos modos, porém, ele participou numa cerimónia de transferência de terra e deixou a sua marca num papel.”


Homem-Medicina Navajo


OS CARAS-PÁLIDAS

“Era uma grande terra, uma extensa terra como a terra do leste, uma terra sem serpentes, uma terra rica, uma terra doce. Grande-Guerreiro mandava, na direcção do norte. Na fronteira da direita, era o Enamorado do Rio quem era chefe. Enriquecido, era chefe na terra do sassafrás… Afável era chefe, fez as pazes com todos. Todos eram amigos, todos unidos debaixo desse grande chefe. Grande Castor era chefe, permanecendo na terra do sassafrás. Corpo Branco mandava na fronteira. Pacificador era chefe, amistoso com todos. Aquele-que-se-Equivoca era chefe, vinha depressa… O-que-Vem-como-Amigo era chefe; foi a todos os Grandes Lagos, visitando todos os seus filhos, todos os seus amigos. Comedor de Arandos era chefe, amigo dos Ottawas. Marcha-para-o-Norte era chefe; organizou as festas. Convocador Lento era chefe na fronteira… Caranguejo Branco era chefe; um amigo da fronteira. Vigia era chefe; olhava para o mar.
Nesse tempo, do norte e do sul, vieram os brancos. São pacíficos. Possuem imensas coisas. Quem são?”
(Delaware, Algonquinos orientais)


Sentinela

Os ingleses que fundaram Plymouth só conseguiram sobreviver porque os índios os auxiliaram. Os Algonguins forneceram milho aos colonos a quem a fome e o frio matava e ensinaram a cozinhá-lo e a semeá-lo. Reduzidos a metade, mas sobreviventes, os colonos começaram então a expandir-se, isto é, a abater árvores e a expulsar os índios para lá de uma fronteira que se alargou cada vez mais. É que o conceito de terras indígenas dos colonos provinha das monarquias europeias do período da expansão: equivalia ao de terras não ocupadas por população cristã e que podiam, portanto, ser anexadas como se se tratasse de territórios desertos. Ignoravam pura e simplesmente a existência dos não-cristãos. Ou seja, ao invés de construir um verdadeiro Novo Mundo, os colonos transportavam consigo todos os preconceitos, hábitos e modos de vida da terra que os expulsara. Estavam determinados a vencer, como numa vingança contra o passado. E acabaram por fazer, elevado ao máximo expoente, aquilo que lhes haviam feito a eles: a expulsão e marginalização dos inocentes índios. Estes permaneceriam corpos estranhos, a não ser que renunciassem ao seu próprio modo de vida e aceitassem o dos brancos, apesar de todas as suas contradições internas deste último.
Mas os índios não eram domesticáveis. Não estavam dispostos a aceitar a religião que lhes atiravam à cara como uma obrigatoriedade. Poucos e só por desespero, o fizeram. Foi devido ao facto de os índios serem indomáveis que os brancos recorreram à introdução da escravatura negra na América. Os índios recusavam os trabalhos forçados. Por isso, a resposta dos brancos perante eles passou a localizar-se na ponta das espingardas.


Little Siouk- Arikara


Os recém-chegados europeus queriam terras para se instalarem e expandirem. Daí a lentidão inicial do aniquilamento. Ao invés, o rápido aniquilamento de Incas, Aztecas e Mayas, por parte dos espanhóis, deveu-se ao facto de estes últimos pretenderem os seus metais preciosos.
As colonizações inglesa, holandesa, espanhola e francesa diferiram nos seus métodos. O período francês foi o menos nefasto para os índios. Os franceses foram capazes de uma relativa boa vizinhança com eles. Reconheceram que os índios eram seres hospitaleiros, honestos e fiéis amigos. No entanto, também os franceses os atraiçoariam. Afinal, a boa vizinhança acontecia porque a França não possuía interesses tão agudos no Novo Mundo quanto a Inglaterra e a Espanha. Interessava-se ali apenas pelas trocas comerciais e não estava disposta a mobilizar um exército significativo e a enviá-lo para lá.
A dominação espanhola e inglesa, essa, foi desnecessariamente cruel e sanguinária. A febre do ouro e a febre territorial que os dominava justificou a seus olhos toda a acção tomada contra os índios. Panfillo de Nervaez e Vasquez de Coronado, que atravessaram a Carolina, o Arkansas e o Arizona no séc. XVI, costumavam abater gratuitamente índios pacíficos que vinham ver as tropas passar – apenas para praticarem a pontaria. Quanto aos ingleses, exploraram as rivalidades entre tribos, aproveitando-se delas para prosseguir o sujo trabalho de exterminação.
A mentalidade poética dos índios chocava-se amiúde com o fanatismo espanhol e com a frieza anglo-saxónica. Revoltados, os Powatan (Algonquins) atacaram Jamestown, poucos anos após a chegada dos primeiros colonos ingleses. Como retaliação pela “rebelião”, sete mil deles foram mortos nesse ataque e em represálias subsequentes. Em Plymouth, o cenário foi semelhante. Os primeiros contactos foram enganosamente amigáveis mas depressa se desencadeou a ocupação de terras e a assinatura dos primeiros tratados ardilosos de “venda”. Os colonos chegaram a criar um “rei” nativo que, em troca, deveria manter o seu povo tolerante para com os brancos, o “Rei Phillip”, Metacom, da tribo Algonquim dos Wampanoags, filho de Masassoit. Metacom tentou cumprir a sua parte, apesar de, em 1637, John Mason ter matado 600 pessoas – de todos os sexos e idades – de uma aldeia de Pequots.
Em face de mais uma traição, Metacom comandou um levantamento de Wampanoags, Narragansetts e outros grupos Algonquins. Com os seus arcos e flechas, atacaram cerca de 50 acampamentos brancos, tendo destruído doze. A guerra prolongou-se então durante meses. Mas as armas mais poderosas venceram. Os Wampanoags e os Narragansettes foram dizimados pelos colonos. A cabeça de Metacom ficou em exposição pública em Plymouth durante 20 anos.
No princípio do séc. XVII, chegaram os sempre intrometidos holandeses. Por cerca de 24 dólares em anzóis de metal e contas de vidro, compraram a ilha de Manhattan. Em breve nascia Nova Amesterdão, rebaptizada Nova Iorque pelos ingleses quando a conquistaram em 1664. Os holandeses não perderam tempo a armar tribos índias contra os ingleses e a imiscuírem-se nas disputas entre Algonquins Moicanos e os seus inimigos tradicionais, os Mohawks Iroqueses. Os jogos de guerra, portanto, levaram a que os índios começassem a receber armas de fogo.
O governador Willem Kieft, como represália pela morte de 4 soldados holandeses, ataca duas aldeias índias, pela calada da noite, quando a população dormia, e assassinou-os a tiro, baioneta e fio de espada. E, “civilizadamente”, leva para Manhattan, como troféu, 80 cabeças de homens, mulheres e crianças, além de fazer torturar até à morte um prisioneiro, que foi esfolado vivo, arrastado pelas ruas e, por fim, decapitado. Os índios desconheciam a prática da escalpelização e era impensável, para eles, assassinar mulheres e crianças. Um verdadeiro homem nunca poderia descer tão baixo.



Chefe de guerra- Atsina


Os franceses conseguiram que os Algonquins se tornassem seus aliados até ao fim. Em troca, auxiliaram-nos na luta contra os Iroqueses. Em consequência, estes últimos aliaram-se aos ingleses. Na década de 1760, Pontiac, chefe dos Algonquins Ottawas, uniu as tribos da região dos Grandes Lagos e tentou repelir os ingleses para leste. Os franceses auxiliaram-nos, visto que os colonos se aproveitavam das lutas intestinas entre tribos índias para, por sua vez, se combaterem uns aos outros. No entanto, os “amigos” franceses abandonaram os Ottawas em Detroit. Os Ottawas acabaram por ser totalmente esmagados. E os “civilizados” ingleses também em nada alteraram a sorte mofina dos índios da região.
A má fama dos rostos-pálidos começa a espalhar-se por todo o leste da América do Norte.
Os Iroqueses, aliados dos ingleses, não tiveram melhor sorte, e isto apesar de serem leais ao ponto de se porem a seu lado contra as tropas britânicas, aquando da Revolução Americana. A Confederação Iroquesa assinou um tratado, em 1784, pelo qual concordava em ceder terras a oeste do estado de Nova Iorque, na Pensilvânia e no Ohio. Mas, mais uma vez, a traição aguardava-os. A expansão branca extravasou os limites fixados e sucederam-se os massacres de índios. Estes, por sua vez, responderam com a chacina de brancos. O mais importante chefe iroquês foi Red Coat (Casaca Vermelha). Mas acabou como os seus antecessores, contemporâneos e sucessores: vencido. Os poucos Iroqueses que sobreviveram fugiram para norte, sul ou oeste ou foram culturalmente destruídos, “assimilados” ou internados em “reservas”, longe do seu território ancestral.



Antilope Cap (Gorro de Antílope)



“AS 5 TRIBOS CIVILIZADAS”


“Quando eu era rapaz, vi o homem branco lá longe e disseram-me que era meu inimigo. Não poderia disparar contra ele como contra um lobo ou um urso e, no entanto, veio ele até mim. Tirou-me o meu cavalo e os meus campos. Disse que era meu amigo. Deu-me a sua mão em sinal de amizade. Eu segurei-a, mas ele trazia uma serpente na outra. A sua língua bifurcava-se. Mentiu-me e ferrou-me. Supliquei por apenas uma pequena parcela desta terra, suficiente para cultivar e viver no sul – um local onde pudesse espalhar as cinzas dos meus familiares – um local onde a minha mulher e filho pudessem viver. Mas isso não me foi dado. “ (Wild Cat – Gato Selvagem – chefe Seminola, após a sua rendição, em 1858.)


“As 5 tribos civilizadas” eram os Seminolas, Creeks, Chickasaws, Choctaws e Cherokees. Esse epíteto não se devia, obviamente, ao facto de lhes ser reconhecido qualquer grau que fosse de civilização mas, sim, ao facto de se terem facilmente adaptado à “única” civilização, a dos brancos. Foram tribos que concluíram que não poderiam defrontar os brancos com êxito e, portanto, tentaram adoptar alguns dos seus costumes sem, contudo, perderem as raízes culturais. Mas isso não impediu o seu extermínio quase completo. Num esforço de adaptação, os Cherokees criaram uma Constituição, um alfabeto, escolas e jornais – mas de nada lhes serviu. Contrariando um tratado de 1794, foram obrigados a ceder terras, a recuar para oeste e a ficarem confinados a cerca de 28 mil quilómetros quadrados de solo montanhoso, na convergência da Geórgia, Carolina do Norte e Tenessee.
Em 1829, Andrew Jackson foi eleito presidente. Não demorou a fazer aprovar a Lei de Remoção dos Índios que foi aplicada mal se descobriu ouro nas terras dos Cherokees. 14 mil membros deste povo foram então “transferidos” para o Oklahoma. Percorreram milhares de quilómetros de distância a pé em pleno Inverno, durante meses. 4000 pessoas morreram então de fome, frio, exaustão e epidemias de cólera. Uma em cada quatro. Essa caminhada forçada ficou conhecida como “A Pista das Lágrimas”. Todavia, o presidente Van Burren afirmou no Congresso que “Os Cherokees emigram sem relutância aparente.”
As outras tribos “civilizadas” tiveram sorte idêntica. Após meses de luta, os Creeks foram aniquilados em 1814 pelas tropas comandadas por Andrew Jackson. Os Choctaws emigraram para o oeste, no Inverno, numa segunda “Pista das Lágrimas”. Os Chickasaws acabaram também por se submeter.


Menino Flathead (Cabeça Achatada)


Os Seminolas, esses, ofereceram maior resistência na Florida, que a Espanha cedeu aos EUA em 1819. O seu líder era o jovem Osceola (Asiyahola). Em 1835, mergulhou a sua faca no tratado que lhe era pedido para assinar e que obrigaria o seu povo a mover-se das terras pantanosas do sudeste para o território a oeste do Mississipi. Essa sua acção desencadeou uma guerra de sete anos nos pântanos da Florida contra as tropas federais. Os brancos acabaram por capturar Osceola à traição – quando ele empunhava uma bandeira branca da paz –, durante “conversações de tréguas”, em 1837. Foi preso no Forte Moultrie, na Carolina do Sul. Disseram a seu respeito: “Este homem galante está atormentado por um coração partido e preparado para morrer, amaldiçoando o homem branco, sem dúvida até ao seu último suspiro.” Pouco tempo depois, a malária matava Osceola. Mas a sua prisão e morte não afectou a resistência dos Seminolas. A guerra só terminaria em 1842, custando 1500 mortos às tropas. Algumas famílias Seminolas aceitaram a transferência para lá do Mississipi, mas a maior parte permaneceu nas suas terras, na Florida. Ainda hoje lá estão e são conhecidos como “a tribo que nunca se rendeu”.
Terminada a guerra aos Seminolas, a questão índia estava “resolvida” desde o Wisconsin, no norte, até à fronteira com o Texas. Mas as provações dos índios estavam longe do seu epílogo.



A CONQUISTA DO OESTE


“Nunca pensámos que as nossas vastas planícies abertas, as formosas colinas ondulantes e as sinuosas correntes com emaranhada vegetação fossem “selvagens”. Apenas para o homem branco a natureza era “selvagem”, e apenas para ele a Terra estava “infestada” de animais “ferozes” e gentes “selvagens”. Para nós era mansa. A terra era generosa e estávamos rodeados das bênçãos do Grande Mistério. Não foi “selvagem” para nós até que veio do leste o homem branco coberto de pêlos e com brutal delírio amontoou injustiças sobre nós e sobre as famílias que amávamos. Quando até os animais do bosque começaram a fugir ao seu avanço é que começou para nós o “Oeste Selvagem”. (Chefe Sitting Bear - Urso Sentado -, Sioux Oglala.)




Chefe Sitting Bear (Urso Sentado)


Após a meia-vitória contra os Seminolas, a cobiça dos brancos volta-se para a vasta área a oeste do Mississipi. A sua devassa não é, no entanto, linear, sobretudo devido à guerra entre o México e a América do Norte, que acaba com a vitória desta última em 1847. Desde o Texas à Califórnia, através do Novo México e do Arizona, abriam-se novos territórios. Começa a Grande Corrida ao Ouro. Descobrem-se os primeiros filões auríferos na Califórnia. Vagas humanas dirigem-se de imediato para lá e depois para norte – era o início da chamada “Conquista do Oeste”. Do México ao Canadá, da Serra Nevada e das Montanhas Rochosas aos limites ocidentais das Louisiana, Arkansas, Missouri, Iowa e Minesota, os pioneiros vão então defrontar-se com as mais célebres e aguerridas tribos do país: os Sioux, os Apaches, os Comanches, os Navajos, os Shoshones. Demonstravam inatas qualidades guerreiras e eram senhores dos grandes espaços, de savanas e desertos. Aí imperava o colossal bisonte e de tal modo que os nativos viviam naquilo que se chamou “a civilização do bisonte”. Aproveitavam tudo do formidável animal: a carne, a gordura, a pele, os ossos, os tendões.
Os Apaches, Navajos, Comanches e Sioux depressa se revelariam também exímios cavaleiros, deitando a mão aos cavalos abandonados pelos espanhóis que tinham trazido consigo esse animal havia muito extinto no continente. O cavalo tornar-se-ia uma das armas de guerra dos índios. Os brancos encontrariam adversários terríveis montados a cavalo. Mas o destino dos índios estava traçado e, por mais belicosos que se mostrassem, esperava-os a derrota.



Rapaz Navajo


Pés Negros, Cheyenne e Arapaho (Algonquinos ocidentais) – Na área oeste setentrional, desde Alberta até às Montanhas Rochosas, viviam os Pés Negros. Por volta de 1820, um inimigo trazido pelos caras-pálidas, mais letal do que as suas armas, começou a alarmá-los. Tratava-se da varíola. Os novos habitantes da América perceberam então que os índios sucumbiam a doenças para eles relativamente benignas. Mais tarde, os arautos da “civilização” aproveitar-se-ão desse conhecimento e disseminarão deliberadamente várias doenças por entre as tribos. Não lhes bastando a ininterrupta cadeia de promessas quebradas, de assassínios, de massacres, de venda de crianças como escravas, de negociações injustas e traição, os novos senhores, num estranho gesto para quem apregoava a caridade cristã, enviariam deliberadamente cobertores contaminados com varíola para os índios presos numa “reserva”, que os haviam pedido, queixando-se de demasiado frio. Uma verdadeira arma bacteriológica.
Em 1836, a primeira grande epidemia de varíola matou 75% da população dos Pés Negros, originalmente constituída por umas 15 mil almas. Em 1845 e 1857, repete-se o flagelo. Dos 25% restantes escapou um terço. Destes, uma parte rumou ao Canadá e outra foi confinada a uma “reserva”, a norte do estado de Montana. Mas, mesmo aqui, uma força militar atacou-os. Os sobreviventes, passado um ano, foram outra vez varridos pela varíola. Considerou-se que os Pés Negros estavam “pacificados”.
Na confluência do Wyoming, Colorado e Nebraska, viviam os Arapaho e os Cheyenne, do ramo Sioux. A sua maior desgraça chegou em 1848-49, com as caravanas de famílias pobres, aventureiros e criminosos fugidos à justiça – todos em busca de fortuna na Califórnia, onde se havia descoberto as minas de ouro. As terras onde viviam foram ocupadas e devassadas. Tentaram retaliar, atacando as caravanas, mas o Exército interveio com a costumeira brutalidade.


Guerreiro Cheyenne


Em 1864, um destacamento surpreendeu uma aldeia Cheyenne. Assassinou cerca de 150 pessoas de entre as quais uma centena eram mulheres e crianças. Não contentes com a chacina, as vítimas foram escalpeladas e o que delas restou foi exibido num teatro de Denver. Nesse Inverno de 1864, as tribos Piegan e Cheyenne perderam 1780 membros. Um agente índio relatou: “Só os Blood deixaram em pé no seu acampamento varrido pela peste 500 moradas da morte como monumentos silenciosos da devastação do Inverno.”
No ano seguinte, o chefe Cheyenne assinou um tratado com o general William Selby Harney que garantia às tribos um território vasto e fértil, longe da via-férrea em construção. Mas as caravanas de colonos atravessavam impunemente esse território, pondo os bisontes em debandada. Os índios protestaram. Resposta dos americanos? A anulação pura e simples do tratado assinado. Cheyennes e Arapaho não tiveram outro remédio se não desenterrar mais uma vez o “machado de guerra”. Lobo Pequeno e Faca Embotada comandaram os Cheyenne por mais de uma década. Vergados, porém, pelo indizível sofrimento do seu povo, tiveram de aceitar a paz. Impuseram-lhes nova transferência, para sul. Tendo recusado, foram internados e privados de alimentos, até aceitarem as condições. Dois dias depois, revoltados, os índios amotinaram-se no campo de concentração. Muitos foram os mortos mas alguns conseguiram fugir. Os soldados capturaram 61 prisioneiros e mais de uma vintena de fugitivos esfomeados e esgotados. Lobo Pequeno e um grupo de guerreiros conseguiram refugiar-se nas Montanhas Negras. Certo dia, um batedor índio comunicou-lhe que um oficial branco desejava falar-lhe. Tratava-se de B.W. Clark. Este disse-lhe que o Governo de Washington tinha acedido ao desejo dos Cheyenne de permanecerem nas terras dos seus antepassados. Naquela altura, porém, já não restava à face da Terra senão pouco mais de uma centena de Cheyenne. Até o jornal Daily Herald, de Omaha, no Nebraska, comentou: “Este caso dos Cheyenne é uma vergonha para os Estados Unidos.”

Velho Cheyenne já encerrado numa "reserva", usando uma camisa ocidental


Nez Perces - Os Nez Perces (Narizes Furados - alguns usavam um anel no nariz) eram índios pacíficos que habitavam no Idaho ocidental. Tiveram também a pouca sorte de existir ouro no seu território, cuja posse lhes havia sido garantida pelos caras-pálidas. Mal isso se soube, o Governo ordenou a transferência dos habitantes. O chefe dos Nez Perces, Joseph, recusou. Seguiu-se a guerra. E a derrota. Os Nez Perces – que eram então 200 guerreiros e 600 mulheres e crianças – foram exilados para o Canadá. Mas a sua provação não terminara. No Canadá recusaram-lhes asilo e tiveram de recuar em direcção às armas das forças do governo. Joseph acabou por capitular, declarando: “Digam ao general Howard que eu conheço o seu coração. Estou cansado de combater. Os nossos chefes foram mortos. Looking Glass está morto. Toohulhulzote está morto. Os velhos homens estão todos mortos. Faz frio e não temos cobertores. As crianças enregelam até à morte. O meu povo, alguns deles fugiram para as montanhas e não têm cobertores nem comida. Ninguém sabe onde param – talvez gelando até à morte. Quero ter tempo para olhar pelos meus filhos e ver quantos consigo encontrar. Talvez os encontre entre os mortos. Escutem-me, meus chefes. Eu estou cansado. O meu coração está doente e triste. Em nome do Sol que brilha, juro que não me baterei mais.” O chefe Joseph cumpriu a sua palavra. Não se bateu, nem mesmo quando, após a rendição, ele e o seu povo foram enviados para Indian Territory, onde cinco dos seus filhos e muitos membros da tribo morreram de doença.



Chefe Joseph


Joseph também foi um dia a Washington e falou com o “Grande Chefe Branco”, o então Presidente Hayes. A sua declaração, como a de outros chefes índios, passou à posteridade: “Estou cansado de lutar. Todos dizem que são meus amigos e que eu terei justiça, mas enquanto todas essas bocas falam verdade, não compreendo por que é que nada se faz pelo meu povo. Ouvi falar e falar, mas nada foi feito. As boas palavras não servem para nada se não conduzirem a qualquer coisa. As palavras não pagam o meu povo morto. Não pagam o meu país agora percorrido pelos brancos. Não pagam os meus cavalos e o meu gado.
As boas palavras não me devolvem os meus filhos. As boas palavras não farão boas as promessas do vosso chefe de guerra, o general Miles. As boas palavras não darão saúde ao meu povo nem evitarão que morra. As boas palavras não darão ao meu povo uma casa onde ele possa viver em paz e tomar conta dele próprio. Estou cansado de palavras que não conduzem a nada. O meu coração adoece quando recordo as boas palavras e todas as promessas quebradas. (…) Houve demasiada conversa por parte de homens que não tinham o direito de falar. Fizeram-se demasiadas tergiversações; surgiram demasiados mal-entendidos acerca dos índios entre os homens brancos.
Se o branco quer viver em paz com os índios, pode viver em paz. Não é preciso haver complicações. Tratem todos os homens da mesma forma. Dai-lhes a todos a mesma lei. Dai-lhe a todos igual possibilidade de viver e crescer… Podeis esperar que os rios corram para trás tanto como que qualquer homem nascido livre se sinta contente preso, e com a liberdade de ir onde quiser negada. Se atam um cavalo a uma estaca, esperam que ele engorde? Se encerram um índio num pequeno troço de terra e o obrigam a ficar ali, não ficará contente nem crescerá ou prosperará. (…) Todos os homens foram feitos pelo mesmo Grande Espírito. São todos irmãos. A terra é a mãe de toda a gente e toda a gente deve ter os mesmos direitos sobre ela. (…) Apenas peço ao governo para ser tratado como todos os outros homens. Se eu não posso ir para a minha própria casa, deixem-me ter uma casa onde o meu povo não morra tão depressa. (…) Apenas pedimos uma oportunidade de viver como os outros homens vivem. Pedimos para ser reconhecidos como homens. (…) Deixem-me ser um homem livre, livre para andar, livre para trabalhar, livre para estar onde eu escolher, livre para escolher os meus próprios professores, livre para seguir a religião dos meus pais, livre para falar, pensar e agir por mim próprio – e eu obedecerei a todas as leis e submeter-me-ei a todas as penalidades. (…)”



Guerreiro Nez Perce



Guerreiro Nez Perce



Guerreiro Nez Perce


Sioux-Teton - A guerra chegou mais tarde ou mais cedo para todos os ramos da família Sioux (ou Lakota ou Dakota). Os Teton, ramo principal dos Sioux, aceitaram, em 1849, um tratado com as autoridades americanas, ao qual aderiram, dois anos depois, os restantes grupos Sioux. Aceitavam ceder as terras no Minnesotta e, em troca, o governo comprometia-se a que os brancos não tocariam no seu novo território, nem o retalhariam com os trilhos do “cavalo de ferro”. Mas seguiu-se, como sempre, o velho itinerário: violação dos acordos por parte dos brancos, provocações contra os índios e aumento da violência de parte a parte de modo a que a Cavalaria julgasse a intervenção inevitável.
Os Sioux passaram então à ofensiva no rio Minnesotta, alargando-a depois até ao Nebraska. O chefe Nuvem Vermelha reuniu cerca de três mil guerreiros para atacarem o caminho-de-ferro. Os generais Sibley e Sully ficaram encarregados da “pacificação”. A “pacificação”, mais uma vez, fez-se com artilharia, espingardas de tiro rápido e metralhadoras, a estreia desta então nova arma. Não há dúvida que, liquidando tudo em volta, se consegue imensa paz. Basta ir a um cemitério para o comprovar: reina um silêncio de morte.


Standing Bear (Urso Erecto), chefe Ponca

Sobre a retirada forçada das suas terras no Nebraska: “Dissemos-lhes que preferíamos morrer a abandonar as nossas terras. Mas nada pudemos fazer. Eles levaram-nos para baixo. Muitos morreram pelo caminho. Dois dos meus filhos morreram. Depois de termos alcançado a nova terra, todos os meus cavalos morreram. A água era péssima. Todo o nosso gado morreu. Então fugi com trinta membros do meu povo, homens, mulheres e crianças. Algumas crianças eram órfãs. Andámos na estrada durante três meses. Ficámos doentes e esfomeados. Quando alcançámos a Reserva Omaha, os Omaha deram-nos um pedaço de terra e nós despachámo-nos a cultivá-lo com trigo. Enquanto trabalhávamos, vieram os soldados e prenderam-nos. Metade de nós estava doente. Preferíamos ter morrido a ser levados de volta. Mas nada pudemos fazer."



Sete anos depois, desesperado, Nuvem Vermelha vê-se obrigado a aceitar novo acordo de paz. Desloca-se a Washington e avista-se com o presidente Ulisses Grant. Chega a ser homenageado, em 1870, com uma recepção no Cooper Institute. Nessa ocasião, pronunciou um célebre discurso, um dos célebres, belos e profundamente humanos discursos dos chefes índios: “O Bom Espírito fez-nos a ambos. Ele deu-vos terras e deu-nos terras. Vocês vieram para aqui e nós respeitámo-vos como irmãos. (…) Quando vieram, ao princípio, nós éramos muitos e vocês eram poucos, agora vocês são muitos e nós estamos a tornar-nos muito poucos, e nós somos pobres. Vocês não sabem quem aparece hoje aqui para vos falar. Eu sou um representante da raça americana original, o primeiro povo desta terra. (…) Eu represento a nação Sioux. (…) Olhem para mim. Sou pobre e nu, mas sou o chefe da Nação. Nós não queremos riquezas, mas queremos os nossos filhos ensinados e criados convenientemente. Procuramos a vossa compreensão. As riquezas não nos farão qualquer bem: não podemos levar para o outro mundo nada do que temos – nós queremos ter amor e paz. (…) Vocês têm filhos; nós temos filhos. Vocês querem criar os vossos filhos e fazê-los felizes e prósperos; nós queremos criar os nossos e fazê-los felizes e prósperos. Pedimos que nos ajudeis a fazê-lo.”
No entanto, as dignas palavras de Nuvem Vermelha em nada modificaram o modo de agir do governo. Começou a construção de uma via-férrea no território dos Sioux. O velho guerreiro “selvagem”, porém, manteve-se fiel ao tratado de paz e retirou-se com as suas tribos para uma “reserva” no Dakota do Sul.


Chefe Red Cloud (Nuvem Vermelha) na velhice

Mas novos chefes surgiam já no horizonte: Cavalo Louco (Crazy Horse), Lua Dura (Hard Moon), Cauda Manchada (Spotted Tail) e Touro Sentado (Sitting Bull). Com eles, as “guerras índias” atingiriam o auge. O lendário Cavalo Louco, belo e destemido Sioux Oglala, declarou: “Nós não vos pedimos, homens brancos, que viésseis para aqui. O Grande espírito deu-nos este país como morada. Nós não interferimos com os vossos assuntos. O Grande Espírito deu-nos terra suficiente para nela viver, e bisontes, veados, antílopes e outros animais de caça. Mas vós chegastes. Estais a tirar-me a minha terra, estais exterminando a nossa caça, de maneira que resulta para nós ser difícil viver. Agora dizeis que trabalhemos para viver, mas o Grande Espírito não nos fez trabalhar mas viver da caça. Vós, homens brancos, podeis trabalhar se o quiserdes fazer. Não vos impedimos e de novo dizeis: “Por que é que não se tornam civilizados?” Nós não queremos a vossa civilização! Viveremos como o fizeram os nossos pais e os seus pais antes deles”.

Spotted Tail (Cauda Manchada)


Sitting Bull

Sitting Bull (Touro Sentado), um dos maiores chefes índios de sempre, conduziu 900 seguidores até ao Canadá. Quando a caça começou a rarear nas planícies canadianas, centenas de Dakotas regressaram aos Estados Unidos. Restavam apenas cerca de 200 deles e Touro Sentado rendeu-se às autoridades americanas no Fort Buford, Dakota Territory, a 20 de Julho de 1881, pois o governo canadiano recusava-se a ajudá-lo. Ficou prisioneiro de guerra durante dois anos e regressou ao seu povo, na Reserva de Standing Rock em 1883. Ressurgiu então o culto da Dança dos Fantasmas - que preconizava o regresso dos índios assassinados e a sua reconquista da terra - e as autoridades recearam que fosse ele quem estivesse a incitar o povo. Mandaram-no prender. Dizendo que tentara escapar, assassinaram-no a 15 de Dezembro de 1890. O seu povo espalhou-se e alguns fugiram da “reserva”. Big Foot (Pé Grande), que também residia na mesma "reserva" - e que deveria suceder Touro Sentado no comando dos índios - e o seu bando de 350 Miniconju Lakota, foram rodeados por soldados da 7ª Cavalaria a 29 de Dezembro de 1890, e assassinados no Massacre de Wounded Knee.





(1875) Em pé: Red Bear (Urso Vermelho), Young Man Afraid of His Horse (Jovem Homem com Medo do seu Cavalo), Good Voice (Boa Voz), Ring Thunder (Trovão), Iron Crow (Corvo de Ferro), White Tail (Cauda Branca), Young Spotted Tail (Jovem Cauda Manchada). Sentados: Yellow Bear (Urso Amarelo), Jack Red Cloud (Jack Nuvem Vermelha), Big Road (Grande Estrada), Black Crow (Corvo Negro).

Apaches - No Arizona e no Novo México a guerra prolongar-se-ia. Os Apaches, os Navajos e os Comanches constituiram um sério obstáculo ao avanço americano para oeste. Eram tribos semi-nómadas, adeptas da deambulação e da rapina, sobretudo os Apaches. No México, em 1837, pagava-se um prémio a quem conseguisse o escalpe de um Apache.


Bebé Apache - 'pappoose'


Os índios do Texas e do Novo México depressa descobriram que os recém-chegados colonos americanos não diferiam muito dos odiados mexicanos. De facto, americanos e mexicanos uniram-se contra eles. Em 1871, o general George Crook consegue “pacificar” (já sabemos agora o real significado desta palavra) três mil Apaches, encerrando-os em “reservas”. Os que escaparam juntaram-se em torno do chefe Victorio e fizeram a vida negra aos americanos durante quase uma década, guerreando a norte e a sul do Rio Grande. Em 1880, porém, o exército mexicano matou Victorio. O comando passou então para as mãos do famoso Geronimo. Este era tão temido que o chamavam “o tigre de rosto humano”. Três anos depois, o General Crook capturou Geronimo e aprisionou-o numa “reserva”. Mas o bravo Apache conseguiu fugir e retomar a guerra. Miles sucede então a Crook e organiza cinco mil homens para tentarem vencer um número já muito reduzido de indomáveis índios. Em 1886, Geronimo acabou por render-se. De novo se viu numa “reserva”, na Florida, e depois numa outra, no Oklahoma.


Chefe Geronimo, "O Tigre de Rosto Humano"


Em 1887, promulgou-se o Dawes Act, o decreto de adjudicação geral de terras indígenas: os territórios reservados às tribos eram parcelados em propriedades privadas, cuja espoliação seria muito fácil por parte dos colonos. No ano seguinte, ante o Congresso, o senador Pendleton, do Ohio, emitiu um execrável ultimato aos índios através do qual exigia a sua assimilação: “Eles devem mudar o seu modo de vida ou então devem morrer. Nós podemos lamentá-lo, podemos desejar que seja de outra maneira, os nossos sentimentos humanitários podem chocar com esta alternativa, mas não podemos ocultar o facto de que se trata de uma alternativa e que esses índios devem mudar o seu modo de vida ou ser exterminados”. Eis aqui uma interpretação muito discutível, mas infelizmente muito seguida, do princípio “Todos os homens nascem iguais”. Parece significar “há que obrigar todos os homens a ser iguais a nós”! A prossecução deste objectivo corresponde a um empobrecimento alarmante da figura humana, uma figura cuja riqueza e cuja força é a plasticidade e a busca criativa. A pretensão de superioridade dos caras-pálidas é completamente desmentida através desta atitude de quem julga nada ter a aprender, mas tudo a ensinar! E nem sequer ensinar verdadeiramente, mas ensinar interesseiramente apenas para melhor poder domesticar.
Até tribos pacíficas Apaches, como os Chiricahua, foram aprisionadas, dispersas e internadas em “reservas”. Distantes das suas terras originais. A mortalidade entre estes Apaches nas “reservas” atingia o dobro do normal. A única acção tomada foi transferir os internados da Florida para o Oklahoma, quatro anos depois. E aí permaneceriam até 1914. O seu estatuto era o de “prisioneiros de guerra”, mesmo o dos bebés nascidos entretanto. Até um jovem Apache que se alistou no exército Americano e serviu nas fileiras regressou à sua reserva, já licenciado, como “prisioneiro de guerra”. O ridículo foi, portanto, levado muito longe.


Guerrreiro Apache



Em 1881, o Presidente Chester Arthur comentou: “Devemos enfrentar esta realidade terrível que é a de que milhões de vidas foram sacrificadas e centenas de milhões de dólares gastos para tentar resolver o problema índio e ainda não estamos mais perto de uma solução do que há meio século.” Alguma lucidez, por fim? Não me parece. A proximidade das expressões “milhões de vidas” e “centenas de milhões de dólares” desagrada-me, pois não são equiparáveis. Além disso, nunca houve um “problema índio”. Houve, sim, um “problema branco”, a cupidez doentia do homem ocidental hipocritamente mascarada de desejo de evangelizar e “civilizar”, abrindo caminho através da arrogância e do desrespeito.



Velho Apache encerrado numa "reserva"



O MASSACRE DE WOUNDED KNEE


Eu nasci na pradaria onde o vento soprava livre e nada havia que quebrasse a luz do sol. Eu nasci onde não havia cercas e onde tudo exalava um sopro livre. Quero morrer lá e não entre paredes. (Ten Bears – Dez Ursos)
Nas Badlands

O “problema índio” seria “resolvido”, se alargarmos o significado de “resolver” até ao absurdo. A vitória índia mais espectacular deu-se em 25 de Junho de 1876, quando o general George Custer e o seu 7º Regimento de Cavalaria se lançou sobre um vasto acampamento Cheyenne, Oglala e de outros Sioux. Eram 10 000 a 15 000 pessoas acampadas junto do rio Little Bighorn. Atraído a uma emboscada, o batalhão de Custer foi completamente destroçado por índios munidos apenas com arcos, flechas, machados de guerra e umas poucas espingardas. Comandava-os o indomável Cavalo Louco, estratega genial e o mais resistente opositor do domínio americano que os colonos encontraram. Mas essa resistência não podia manter-se. Furioso, outro general, Phillip Sheridan, profere uma frase infame que se tornaria célebre: “Os únicos índios bons que já vi estavam mortos.” Os “bons” dos caras-pálidas transformaram então essa frase num dito popular: “O único índio bom é um índio morto” frase que, muitas décadas depois, seria adaptada para “O único vietcong bom é um vietcong morto”. É comovente, a bondade destes juízes de almas. É de fazer chorar as pedrinhas da calçada.
O “bom” general Sheridan – herói da guerra civil – teve então uma ideia brilhante. Acabar com índios, “para deixar que a civilização avance”, exterminando o seu meio de subsistência: o bisonte. Chama-se a isto matar dois coelhos de uma cajadada. E eis que se afirma o famoso Buffalo Bill. Só ele, ao serviço das companhias rodoviárias, matou 4280 bisontes. Billy Tilgham abateu 3330 bisontes em sete meses. Vic Smith liquidou 5000, com um recorde de 107 mortos em apenas uma hora no mesmo local. A previsível consequência não se fez esperar. O declínio dos índios da planície acentuou-se de forma dramática.

Índio "bravo" Nambe
"Nada mais somos do que pequenos rebanhos espalhados de bisontes. As grandes hordas que outrora cobriram a planície já não existem. Vejam – o homem branco assemelha-se a gafanhotos quando voam em enxames tão densos que todo o céu é uma tempestade de neve. Podem matar um, dois, dez. Sim, tantos quantos as folhas daquela floresta, que os seus irmãos não sentirão a sua falta. Matem um, dois, dez, e dez vezes virão matar-te a ti. "Braves", vocês são crianças – vocês são tontos. Morrerão como coelhos quando os lobos esfomeados os caçam em Hard Moon. Taoyateduta não é um cobarde. Ele morrerá com vocês.”( Little Crow – Pequeno Corvo, ou Taoyatedula – chefe Dakota Sioux) Após a insurreição, 392 homens Dakota foram julgados e 307 condenados à forca como vingança pelos brancos que haviam sido mortos. Acabaram por enforcar 38, sem julgamento, a maior parte dos quais aleatoriamente - um deles havia ajudado uma mulher branca a esconder-se - mas os que escaparam à forca morreram de doença na cadeia. Little Crow e o seu bando fugiram para oeste. Regressou depois ao Minnesota com um pequeno destacamento. A 3 de Julho de 1863, enquanto colhia bagas com o seu filho, foi assassinado pelo fazendeiro Nathan Lamson e o seu filho Chauncey que receberam um prémio pelo escalpe de 75 dólares mais um bónus de 500 dólares por terem livrado o Minnesota de Little Crow.


Os Sioux sucumbiram. Em 29 de Dezembro de 1890, na sequência do assassinato de Sitting Bull (Touro Sentado) devido ao ressurgimento da Dança dos Fantasmas, Big Foot (Pé Grande), outro chefe confinado na mesma "reserva", tentou fugir com umas escassas centenas de índios, sobretudo mulheres e crianças, para ir ter com Red Cloud (Nuvem Vermelha) e pedir-lhe conselho. Num acto gratuito, pois o declínio dos Sioux era evidente, o mesmo 7º Regimento de Cavalaria, então comandado pelo major Samuel Whitside, aprisiona-os, fracos e à beira da rendição. O chefe Big Foot (Pé Grande) era velho e estava extremamente doente, com pneumonia. O frio era tanto que o sangue que lhe pingava do nariz enregelava imediatamente. Mas tiveram de empreender a viagem até ao forte. Por incrível que pareça, porém, já no campo de internamento, quando os índios entregavam as suas armas, os soldados americanos abriram fogo. Primeiro um tiro, depois outro e, num ápice, uma chuva de tiros espalhou o pânico entre os índios. Durante uma hora, o massacre prosseguiu. Então, reinou um enorme silêncio. Trezentas pessoas, homens, mulheres e crianças haviam sido assassinadas. Rapazinhos que os soldados haviam visto a esconder-se foram instigados a mostrarem-se para sobreviver. Os rapazinhos sairam dos seus esconderijos. Foram todos mortos. Depois, os soldados abriram uma grande vala e atiraram para lá os cadáveres enregelados, entre os quais se encontrava o do chefe Big Foot (Pé Grande). Este foi o Massacre de Wounded Knee, pois aconteceu junto a um riacho chamado Wounded Knee, no Dakota do Sul. E foi o fim da resistência dos índios, outrora habitantes de todo um continente.
Black Elk (Alce Negro), que se tornaria o homem-medicina dos Sioux Oglala, contava apenas treze anos na altura da batalha de Little Bigorn. Muitos anos depois, encerrado numa “reserva”, comentaria sobre o Massacre de Wounded Knee: “Eu estava então de pé sobre a montanha mais alta de todas e, por debaixo de mim, em meu redor, estava todo o aro do mundo. E enquanto ali estava vi mais do que posso expressar. Porque via de maneira sagrada a forma de todas as coisas no espírito, e a forma de todas as formas tal como devem viver juntas como um só ser. E vi que o aro sagrado do meu povo era um de muitos arcos que formavam um círculo, amplo como a luz do dia e o resplendor das estrelas, e que no centro crescia uma imensa árvore florida que abrigava todos os filhos de uma mãe e um pai. E vi que era sagrado. (…)
Tudo o que faz o Poder do Universo fá-lo em forma de círculo. O céu é circular e ouvi dizer que a Terra é redonda como uma bola e que também as estrelas são redondas. O vento, na sua força máxima, forma um remoinho. Os pássaros fazem os seus ninhos em forma de círculos, pois têm a mesma religião do que nós. O sol sai e põe-se em círculo, como a lua, e ambos são redondos. Até as estações formam um círculo enorme na sua mutação e voltam sempre para onde estiveram. A vida de um homem é um círculo de infância a infância e o mesmo ocorre com todas as coisas onde o poder reside. Os nossos tipis eram redondos como ninhos de pássaros e dispunham-se sempre em círculo, o aro da nação, ninho de múltiplos ninhos, no qual o Grande Espírito desejava que nós chocássemos os nossos filhos. (…)

Homem-medicina Sioux (Dakota)

Os Wasichus (homens brancos) puseram-nos nestas casas quadradas. O nosso poder foi-se e estamos a morrer, porque o poder já não está em nós. Podeis olhar para os nossos rapazes e ver o que nos está a suceder. Quando vivíamos sob o poder do círculo na forma devida, os rapazes tornavam-se homens aos doze ou treze anos. Mas agora precisam de muito mais tempo para amadurecer. Bem, é como é. Somos prisioneiros de guerra enquanto aguardamos aqui. Mas existe um outro mundo. (…)
Não sabia então o quanto morreu então (em Wounded Knee). Quando olho para trás agora a partir desta alta colina da minha velhice, ainda posso ver as mulheres esquartejadas e as crianças jazendo empilhadas e espalhadas ao longo da curva da ravina, tão claramente como as vi com olhos ainda jovens. E posso ver que uma outra coisa morreu lá na lama ensanguentada, e foi enterrada na neve. O sonho de um povo morreu lá. Era um belo sonho... Vêem-me agora, um velho lamentável que nada faz, pois o aro da nação foi quebrado e espalhado. Já não há centro e a árvore sagrada morreu.”


Black Elk (Alce Negro), homem-medicina dos Sioux Lakota, na sua juventude



O QUE RESTA DOS ÍNDIOS?

“Sou agora um obscuro membro de uma nação que outrora honrou e respeitou as minhas opiniões. O caminho para a glória é duro e muitas horas sombrias obscurecem-no. Que o Grande Espírito vos ilumine – e que vocês nunca experimentem a humilhação a que o poder do governo americano me reduziu. Eis o desejo daquele que, nas florestas onde nasceu, foi outrora tão orgulhoso e audaz quanto vocês.” (Black Hawk- Falcão Negro - chefe Sauk e Fox)

Chefe Arikara


O que aqui contei não é senão uma ínfima parte de toda a desgraça que o homem branco infligiu aos índios. Houve inúmeros massacres terríveis, nos quais se matava indiscriminadamente homens, mulheres e crianças e se mutilava os seus corpos. Comportamentos indignos de seres humanos que deixavam os índios atónitos. Inúmeros tratados de paz que eram traídos pelos brancos. Armadilhas mesquinhas para liquidar o pele-vermelha. Provocações contra índios nas "reservas", de modo a fazê-los reagir e ter justificação para os matar. Recusa de fazer a paz com índios que a solicitavam porque os americanos não queriam a paz com eles, queriam exterminá-los. Por exemplo, replicando, perante índios submetidos que já nada mais desejavam a não ser a paz, que havia uma denúncia de que eles, na verdade, se haviam aliado secretamente com outra tribo para combater os caras-pálidas. Deste modo, havia sempre um argumento a favor da guerra até fazê-los desaparecer para sempre. "Eu não desejo a paz com os índios. Os meus soldados foram treinados para os exterminar e é isso que lhes vou dar!", declarou um general. Até uma tribo que acampava pacificamente sob uma bandeira americana que lhes fora doada pelo próprio presidente dos Estados Unidos, como garantia de que nenhum soldado lhes faria mal, foi cercada e impiedosamente liquidada. As mulheres, crianças, velhos e doentes que correram em pânico para debaixo da protecção da bandeira foram todos mortos e horrivelmente mutilados. Após Wounded Knee, as crianças índias sobreviventes eram arrancadas aos braços das mães, por vezes com apenas seis anos e encerradas em colégios internos. Aí submetiam-nas a uma disciplina militar e proibiam-nas de falar a sua língua ou recordar fosse o que fosse da sua cultura e das suas tradições. A fúria assassina que o homem branco demonstrou perante os índios trai, de alguma maneira, um sentimento de culpa. Nem uma testemunha deveria sobreviver para contar todo o horror praticado, a ignomínia de tantos actos, a vileza de tantas decisões. De certo modo, conseguiram-no. Ainda hoje, a voz dos índios não se ouve. O que se passou com eles não é "pequena história", mas uma das mais negras e pungentes páginas de toda a história da humanidade. E, no entanto, quanto silêncio em torno dela! Porque será que a querem folhear tão apressadamente, como se não existisse sequer?

Durante todo este horrível processo, a superioridade ética dos índios foi evidente. Eram fiéis à sua palavra. Amigos da verdade. Desprezavam a traição. Amavam a vida e a paz e nunca começavam nenhuma guerra contra o branco. Há inúmeras histórias sobre a nobreza da sua conduta, como quando índios feitos prisioneiros se lançaram a um rio para salvar da morte os soldados que os guardavam. Ou o grande chefe Sitting Bull (Touro Sentado), que costumava dar todo o pouco dinheiro que possuía a miúdos brancos pobres quando ia à cidade, comentando: "Os brancos sabem fazer tanta coisa mas não sabem distribuir." Os índios, a quem a dádiva e a partilha eram ensinadas desde a mais tenra idade, não compreendiam a pobreza, a crueldade do homem branco para com o seu póprio povo.
No princípio do séc. XX, os índios estavam reduzidos a umas meras 250 000 mil almas. Hoje, a população índia é de cerca de 2 milhões, menos de um por cento da totalidade dos habitantes dos Estados Unidos. Mas a cultura índia foi ferida de morte. A nação índia desapareceu para sempre, irrevogavelmente. O que restou foi algum sangue índio, folclore, alguns hábitos e costumes. O espírito índio, porém, já moribundo, extinguiu-se para sempre, lá na neve de Wounded Knee. A maior parte dos descendentes dos índios vive ainda acantonada em “reservas”, em terras inóspitas, estranhos no seu próprio país e marginalizados por ele. São territórios onde o nível de vida se assemelha a um país do terceiro mundo, onde a esperança de vida não ultrapassa os 47 anos, onde a água está contaminada e onde, muitas vezes, nem uma biblioteca existe. O alcoól e a droga são problemas graves nas comunidades. Geralmente, sobrevivem através de uma agricultura pobre, porque as terras que lhes dispensaram não frutificam, e à custa do turismo, oferecendo tristemente em espectáculo as suas danças outrora sagradas e a sua olaria outrora significativa. O local mais pobre dos Estados Unidos é uma "reserva" índia. Basta ir à Wikipédia e ler o artigo sobre a reserva de Pine Ridge, no Dakota do Sul, onde se situa o ribeiro Wounded Knee, para percebermos a gravidade da situação. Todavia, como tudo o que diz respeito aos índios, é uma face da América que está escondida do grande público. Claro que, sobretudo nos últimos trinta anos, alguns "prosperaram", se se considerar que "prosperar" significa alcançar prestígio social e uma profissão bem remunerada. Alguns viciaram-se no jogo e estão ligados ao negócio dos casinos. Mas continuam a ser vítimas de abuso, estas pálidas sombras dos índios de outrora, por parte do governo americano. Em pleno território Lakota, por exemplo, erguem-se empreendimentos turísticos e residenciais, como dantes se construíam caminhos-de-ferro. Em território Navajo, procede-se à exploração petrolífera e mineral.
No séc. XX, o momento culminante da luta índia contra a política do governo americano deu-se em 1969. O American Indian Movement aprovou uma constituição e ocupou a ilhota de Alcatruz, na Baía de São Francisco. Durante a ocupação, os índios reivindicaram a lembrança das formas de vida indígenas e o direito dos índios sobre as terras de que foram os primeiros habitantes. Proclamaram então ironicamente: “Desejamos ser leais e justos para com os brancos que habitam esta terra. (…) Guiá-los-emos até às formas de vida convenientes. Oferecemos-lhes a nossa religião, a nossa educação, os nossos costumes, para ajudá-los a elevarem-se até ao nosso nível de civilização, a fim de que eles, e todos os seus irmãos brancos, possam escapar ao estado de selvajaria e de desgraça em que se encontram. Oferecemos este tratado com toda a boa-fé e desejamos ser justos e leais em todas as nossas negociações com os homens brancos.”


CONCLUSÃO


Índios, maravilhosos índios! Gosto que se chamem índios. Ao contrário do que muitos defendem, com base no argumento de que são vocês os verdadeiros nativos do continente, desagradar-me-ia que lhes chamassem americanos. Que têm vocês a ver com Amerigo Vespucci? Índios, gosto que se chamem índios, porque o í traz uma pena na cabeça. Obrigada pelos vossos macios mocassins, que pisavam a terra com ternura. Por usarem arcos e flechas, belo instrumento digno do melhor engenho humano. Pelos vossos tipis, cónica e leve morada de nómadas. Pelas vossas incríveis indumentárias, de franjas aladas. Pelas penas na cabeça que vos tornam semelhantes a pássaros. Pelos vossos nomes repletos de significado. Por terem sido cavaleiros magníficos. Por serem guerreiros-poetas, como só os samurais souberam ser. Pela vossa presença cheia de casta. Os majestosos rostos solares, o porte sacerdotal. Os vossos perfis de aristocracia antiga. Quem poderá rivalizar convosco em beleza e refinamento natural? Pelo vosso grande amor à verdadeira liberdade. Aquela que não precisava de vir consignada na Lei, porque residia no interior de cada um de vós. Por darem valor à palavra, de tal maneira que dispensavam que ela ficasse escrita. Por o vosso fascínio secreto ter povoado o imaginário das crianças de todo o séc. XX. E como a criança que fui me deixa contente por me ter posto sempre ao vosso lado. Por preferir os fracos aos fortes (no sentido - e apenas nesse - em que a força considerada é equiparada à força bruta), os humilhados aos vencedores. Os amantes da liberdade aos amantes do medo. Por ter desejado ser um de vós. Por vos ter desenhado tantas, tantas vezes em longas tardes africanas, como um acto de magia que vos fizesse reviver. Por ter sido em brincadeiras um índio chamado Cavalo Forte, o melhor guerreiro e o melhor caçador do acampamento. Por ter sido o homem de confiança do feiticeiro e o braço-direito do chefe Touro Sentado. Por ter descido o desfiladeiro, só, em busca do bisonte, e regressado com a presa ao círculo dos tipis em volta da fogueira, quando já a noite caíra.


Guerreiro Piegan

Não há muitos motivos que justifiquem a arrogância dos ocidentais quanto à sua civilização que tende a globalizar-se. Alegremo-nos por aquilo que alcançou em certos aspectos mas não esqueçamos que muito foi conseguido espezinhando inutilmente parte da humanidade, através da falta de escrúpulos e do atropelo da ética. Ora, será o progresso técnico, como comumente se leva a acreditar, o melhor critério para se medir o índice de civilização? Não deveremos mudar esse critério e medir antes o grau de exigência ética? Se o medirmos dessa maneira, quem foram, nesta história, “os selvagens”? Quem foram “os civilizados”? E não me venham com a desculpa de que "era a época!". Tudo isto se passava há cerca de 150 anos. Ontem. Ou antes, "há um segundo", em termos da história da humanidade. E Jesus Cristo, de quem os colonos eram devotos, nascera há quase dois mil anos. Além disso, os índios, apesar da época, souberam reconhecer seres humanos nos brancos. Que doença atacava a civilização ocidental que impedia que os seus filhos reconhecessem os outros seres humanos como tal?
Não esqueçamos que muito do mal praticado foi irreversível e que, para se afirmar, a civilização ocidental silenciou para sempre culturas que muito lhe tinham a ensinar. Que a civilização ocidental foi erguida sobre sangue, suor e lágrimas de inocentes. A nossa liberdade foi conseguida à custa da negação da liberdade dos outros. Logo, a nossa liberdade não pode ser a verdadeira. O facto de os ocidentais não se sentirem verdadeiramente livres provém daí.
A nação índia, nobre e orgulhosa águia que pairava sobre as planícies, as florestas, as montanhas e os rios da América, desapareceu para sempre. Não é senão uma recordação, visto o seu modo de vida – comunhão entre o Homem e a Natureza – se ter extinguido. Hoje em dia, os estudos sobre os índios são estudos históricos, estudos sobre o passado. Deles restam apenas vestígios, como estas comoventes fotografias, testemunho da grandeza e declínio de uma extraordinária estirpe de homens que existiu outrora sobre a Terra. Atentem nestes nobres rostos amargurados, que espelham o horror de ter visto ruir todo o edifício da sua cultura. “Cerro os olhos e sei de novo que toda esta gente morreu. Mas o que mais me perturba é pensar que o rasto de toda essa gente está suspenso de mim. Porque eu ainda tenho uma pequena notícia da sua vida, o eco apagado do que foi a massa complexa do seu ser e sentir. (…) Mas de muitos retratos já nada sei. São esses que fito com mais angústia. (…) Mas vós estais mortos e ninguém vos julga e ninguém vos ouve.(…) Mas agora ainda estais vivos, ainda alguém, eu, aqui, silencioso nesta casa solitária, vos liga à vida que freme para lá destes muros na Primavera anunciada, nas primeiras andorinhas que me buscam o beiral, na planície aberta de esperança. Sede vivos neste instante infinitesimal em que vos fito e vos sei um nada do vosso convulso e rico e inverosímil milagre.” (Vergílio Ferreira, Aparição)


"Bravo" Hollowhorn

Bibl: Dee Brown, Bury My Heart at Wounded Knee ( este é o livro, editado em 1971, que veio repor muita da verdade sobre os índios norte-americanos.) Existe tradução brasileira, Enterrem meu coração na curva do rio.
Kent Nerburn, The Wisdom of the Native Americans.
Nicolau Sião, O Índio e o Ocidente. Reflexos de duas visões diferentes sobre o mundo., 1997.
Edward S. Curtis, The North American Indian. The Complete Portfolio.


Janeiro/Fevereiro 2007



POEMAS DOS ÍNDIOS NORTE-AMERICANOS



Caçador Mandan com esqueleto de búfalo


O dia levantou-se por entre uma chuva suave.
O lugar chamado “onde fica a água do relâmpago”,
O lugar chamado “ali onde surge a alba”,
Quatro lugares denominados “a alba da vida”,
Ali é onde toco a terra.
Os filhos do céu, vou por entre eles.
Chegou até mim com uma longa vida.
Quando fala por cima do meu corpo com a mais longa vida,
A voz do trovão falou quatro vezes
Falou-me quatro vezes com vida.
O santo jovem celeste falou-me quatro vezes.
Quando me falou, chegou o meu alento.
(Apache)




Índio com cachimbo


Era digno de se ver,
esse mundo novamente criado.
Sobre toda a largura e amplidão
da terra, nossa avó,
estendia-se o reflexo verde
da sua cobertura
e os perfumes que ascendiam
eram doces de respirar.
(Winnebago)




Índio Jicarilla


Às vezes
Sucede que me compadeço
Enquanto que, levado pelo vento,
Atravesso o céu.
(Chippewa)




Acampamento Sioux



Esse vento, esse vento
Sacode a minha tenda. Sacode a minha tenda
E canta uma canção para mim
Canta uma canção para mim.
(Kiowa)



Lobo - Apsaroke

Ao entardecer
Chove.
Além, nos confins da terra
Há um ruído como um ranger,
Há um ruído como o de uma queda.
Além, abaixo, continua a bramir
Continua a tremer.
(Papago)




Jovem mulher Sioux



Por mais que me esforce por te esquecer,
Voltas sempre aos meus pensamentos.
E é quando me ouves cantar,
Que te choro.
(Makah)





Índio Crow



Cada vez que como, como a pena do teu amor,
amada.
Cada vez que tenho sono, sonho com o meu amor,
minha amada.
Cada vez que estou deitado de costas em casa,
estou deitado sobre a pena do teu amor, amada.
Porque, cada vez que caminho,
ponho o pé sobre a pena do teu amor, amada.
(Kwakiutl)





Vigilância na noite- Nez Percé


Como desejaria vaguear na noite
Contra os ventos.
Vaguear na noite
Quando a coruja ulula.
Como desejaria vaguear.

Como desejaria vaguear na alba
Contra os ventos.
Vaguear na alba
Quando a gralha grita.
Como desejaria vaguear.
(Sioux)



Guerreiros Atsina



Surgirão – podes vê-los!
Surgirão – podes vê-los!
Uma nação a cavalo surgirá.
Uma nação estrondosa surgirá.
Surgirão, olha!
Surgirão, olha!
(Sioux)





Aguardando um sinal - Nez Percé


Por cima da cabana de terra mítica que nos domina
Os espíritos depositados deixam-se cair ao longo do telhado.
Os espíritos depositados deixam-se cair pelo umbral
As flores curvam-se pesadamente sobre os seus caules.
(Wintu)




Chefes Atsina

Os nossos grandes antepassados falavam em conjunto. Levantaram-se e olharam-se, caminhando. Inclinaram-se e saíram do quarto mundo, os seus tesouros estreitados contra o peito.
Inclinaram-se e saíram do mundo de espuma, os seus tesouros estreitados contra o peito.
Inclinaram-se e saíram do mundo de barro, os seus tesouros estreitados contra o peito.
Inclinaram-se e saíram do mundo da beira, os seus tesouros estreitados contra o peito.
Inclinaram-se e saíram. Vieram até ao seu Pai, o Sol, e respiraram o alento sagrado da luz do dia. (Zuni)

Yellow Kidney - Piegan


Canto do sonho

Ali onde a montanha se acaba,
Lá em cima, nem eu mesmo sei aonde,
Vagueei por ali, por onde a minha cabeça

e o meu coração pareciam perdidos.
Vagueei lá longe.
(Papago)




Head Carry



Canto do veado de cauda negra

Do alto das moradas da magia,
Do alto da moradas da magia,
Sopram os ventos. Nos meus cornos,
Nas minhas orelhas, juntos, sopram ainda mais forte.

Lá longe, corria tremendo,
Lá longe, corria tremendo:
Arcos e flechas perseguindo-me.
Quantos arcos havia na minha pista!
(Pima)

Mulher índia


A minha casa lá longe, a minha casa lá longe!
A minha casa lá longe, agora me recordo!
E quando vejo essa montanha lá longe,
Pois bem, choro. Ai! Que posso fazer?
Que posso fazer? Ai! Que posso fazer?
A minha casa lá longe, agora me recordo.
(Tewa)


Homem Sioux (Dakota)

Cobre a terra minha mãe quatro vezes de flores inumeráveis.
Que os céus se cubram de nuvens acumuladas.
Que a terra se cubra de névoa; cobre a terra de chuvas.
Grandes águas, chuvas, cubram a terra. Relâmpago, cobre a terra.
Que se oiça o trovão por cima de toda a terra; que se oiça o trovão.
Que se oiça o trovão por cima das seis regiões da terra.
(Zuni)


Chefe e sua comitiva - Apasaroke

Sunday, January 21, 2007



AGUARELA
CHINA

SOBRE KUI XlNG


Sob a constelação Kui e pisando a cabeça de um dragão, eis Kui Xing, a divindade taoísta associada à escrita.


Kui Xing, divindade Taoista, é o guardião da escrita, dos ensaios e das obras literárias, o protector dos intelectuais da antiguidade chinesa. Originalmente, o primeiro caracter, kui, escrevia-see não seu homófono. Era o nome de uma das Vinte e Oito Constelações da astrologia chinesa, uma das sete associadas ao Oeste e ao Sector do Tigre Branco. Não se sabe ao certo quando terá mudado o nome. Xing significa "estrela", "astro". Kui por sua vez, significa "chefe", "à cabeça", "primeiro" e é formado pela junção do caracter gui, demónio, e dou (recipiente aberto de forma rectangular). Assim, o candidato que conseguisse a melhor classificação nos exames imperiais recebia o titulo de kuijia (jia é o primeiro dos Dez Ramos Celestes da calendariologia chinesa; significa ainda concha, carapaça, armadura): a ideia reforçada de “Primeiro”. Kui Xing é quase sempre representado segundo a expressão Kui Xing dian dou, du zhan Ao tou: "Kui Xing pega no dou, só, em pé, sobre a cabeça da Ao” (nome de uma tartaruga gigante lendária que suporta a Terra). Kui Xing dian dou significa: "segurando numa mão o pincel, Kui Xing agarra com a outra o dou, ou seja, usa o pincel e escreve os nomes daqueles que iriam tentar o exame imperial. Du zhan Ao tou significa: ficar à cabeça, em primeiro lugar. Simplificando:“Tentar o exame imperial e ficar em primeiro lugar.”
Assim, na China antiga, havia por todo o lado pavilhões consagrados a Kui Xing, onde este recebia a veneração dos que se dedicavam ao estudo. Na gravação em estela reproduzida a seguir, Kui Xing aparece fisicamente representado através do desenho dos dois caracteres que formam o seu nome. Levanta o pé e sustenta o caracter dou. A figura ergue-se sobre um terceiro carácter, Ao, a tartaruga gigante.

Eis agora uma fotografia, tirada em Maio de 1988, da estela da Dinastia Tang onde foi gravada a figura anterior. Encontra-se na Beilin (Floresta de Estelas) do Museu Provincial de Shanxi, em Xi'an.



1998

Friday, December 29, 2006



FOTOGRAFIA

ah! os aviões que partem de mim...
gostaria de saber
instantâneamente

tudo.
sobre o que fica longe
fica perto
o pão primitivo cereais
com vénias à fuga
dos ventos.

os domínios da noite
a perturbação
dos lobisomens nas cinzas as tribos
no descanso aparente das armas e dos ossos.
E o tarot nas mãos, e na mesa.
Mais,
as inumeráveis ciências
observando
classificando
e medindo o ritual
da morte.
A morte,
usa pequenas águias degoladas
dependuradas
ao pescoço.

Segue-se a lanterna gigante
no calendário entre lume e gelo das cozinhas.
É a hora do dragão
num qualquer
país vincado ao mapa.
Rastejam então as bruxas em entre-instantes
em valas medievais
em tempos expulsos
da geometria dos homens que avançam
por entre vigílias de símbolos.
Os homens só vêem os gritos só
o chicote
dizem aos filhos
em refúgio
nos alarmados olhos das osgas:
"podeis caminhar
por toda esta enorme casa
e nela fazer
tudo o que quiserdes.
No entanto, prestai atenção:
não abrireis nunca esta porta.
Para além dela jaz
um terrível segredo -
um segredo todo ele negro todo ele baço.
E quem a abrir
nunca mais por ela sairá."
As crianças dormem
no suspiro das mães infinitas...
e o tarot move
as mãos a tarântula
move castelos
agarrando-se a penhascos move
o contorno da memória.

As máquinas, a produção,
passos, teorias,
as pessoas avisando
a sua chegada;
à lava inconscientes
aos subterrâneos violentos
nas artes do fogo que pulsam
e tramam a paz.

É a exaltação do dia
e há menos uma ave em detrimento
na falésia
menos um índio
mais uma voz;
há a fala a traição
em que se cria a estatística
da exacta frequência de som das mais
cruéis palavras.
É a Terra e é o homem.
E tudo é fascinante e para além disso
o espaço.


16.10.84

AGUARELA
SIMBOLOGIA
Para as várias pessoas que me têm perguntado que significa o meu ex-libris, aqui fica uma breve explicação, redigida em 1987, logo após o ter desenhado. Breve porque se trata de símbolos e os símbolos são multívocos, se são verdadeiramente símbolos e não meros sinais. No entanto, uma análise exaustiva seria demasiado longa para o propósito. O ex-libris e respectiva explicação foram publicados no Boletim da Associação de Ex-libris, número 113, de 1989.




BREVE EXPLICAÇÃO DO MEU EX-LIBRIS




- Os dois caracteres dispostos verticalmente no cimo lêem-se xing fu e significam “Felicidade”. São frequentemente utilizados na China como decoração em todas as ocasiões especiais, pois os chineses acreditam que a sua simples inscrição possui o poder de efectivamente trazer felicidade. Estão no cimo porque a Felicidade só pode ser um resultado, um resultado da nossa acção, não porque caia do céu numa bandeja de prata. Daí que não deva constituir o nosso objectivo cimeiro; a busca de felicidade pessoal não tem sentido. Ela virá depois de escolhas acertadas e nunca poderá apoiar-se no egoísmo: a felicidade alheia é condição necessária para a nossa própria felicidade.

- A Suástica: é um dos mais antigos e universais símbolos humanos. Encontra-se nos cinco continentes, mas é particularmente importante nas cosmovisões orientais, no budismo, onde significa a “chave da sabedoria”. A sua origem e o seu sentido original, porém, permanecem misteriosos. Os nazis viriam a inverter este símbolo, fazendo-o rodar da direita para a esquerda, tornando-o na “chave do poder” e demonstrando, assim, a ambivalência inerente à expressão simbólica e a estreiteza da fronteira que separa os símbolos criativos dos símbolos degradados.

- A frase “Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet” pertence a um poema de Angelus Silesius, filósofo e esoterista alemão, e traduz-se: “A rosa não tem porquê; floresce porque floresce.” Mostra-se deste modo a insuficiência das explicações baseadas no mecanismo de causa e efeito em face de certas dimensões da vida, e aponta-se a importância daquela área metafísica onde a pergunta “porquê?” simplesmente perde qualquer pertinência.
A frase percorre uma linha circular, circular como o ser é dito ser circular, e engloba um círculo menor, inscrito no triângulo – sugestão de universos incluídos em universos, de microcosmos e macrocosmos.

- Um pouco abaixo, uma máxima alquímica corta ao meio todo o desenho: “Ignotum per ignotius, obscurum per obscurius”, que se traduz. “O desconhecido através do desconhecido; o obscuro através do obscuro.” O mistério sabe preservar-se como mistério –demasiada luz incidindo sobre ele perverte-o, retira-lhe a profundidade. É pelo mistério que o mistério é alcançado.

- Segue-se, do lado esquerdo, o lado obscuro, o hexagrama puramente yin do Yi Jing (O Livro das Mutações chinês), O Receptivo, a que se contrapõe, do lado direito, o hexagrama puramente yang, O Criativo. São os dois princípios universais que se opõem e se complementam e de cujo equilíbrio depende a harmonia do cosmos.

- A palavra grega ΣΥΜ-ΒΟΛΟΝ (symbolon: símbolo) aparece repartida por um lado e pelo outro, de modo a ser mais facilmente apreendido o seu significado original: “Lançar em conjunto”. Trata-se de uma homenagem à dimensão simbólica do Homem e a explicitação da sua meta real.

- O triângulo é a figura geométrica que mais se salienta – porque representa o fogo, o espírito, a ascensão e a síntese superior. É de notar ainda que os três dragões formam, entre si, um subreptício triângulo invertido. Trata-se de figurar os dois caminhos que o homem pode escolher, a polaridade dupla em que se move: ascenção e queda, forças do alto e forças de baixo, elevação até aos céus e descida aos infernos, o lado luminoso e o lado sombrio da vida que, como se pode ver, se interpenetram e misturam como verso e reverso.

- Nas quatro secções que encimam o triângulo estão inscritas palavras em várias línguas: o carácter Qi, palavra-chave da mundivisão chinesa – o sopro primordial, a “in-fluência” que é fonte de vida; Om, que é o mais famoso dos mantras hindus (sons ou palavras com ressonâncias espirituais especialmente acentuadas) – do lado superior esquerdo encontra-se o som Om escrito em sânscrito, do lado direito, em tibetano; e, na parte inferior, outro mantra em sânscrito, OM BHUR BHUWAH SWAHA, que evoca os Três Reinos (este mundo, o próximo e a eternidade) e do qual se servem os místicos na sua orientação espiritual. A seguir vê-se a palavra hebraica CREAVIT, criar: tirar do nada o ser. Finalmente, a palavra grega ΑΡΧΝ, archê, o princípio regulador, o Poder.

- Rodando o círculo inscrito dentro do triângulo pode ler-se as palavras latinas ADVENTURA (aventura, mas também “ad-ventura”, ou seja, “em direcção ao que há-de vir”) e INVISIBILE (invisível, mas também “in-visível”, no visível); e ainda as palavras hebraicas para “sabedoria”, “conhecimento”, “força” e “beleza”.

- Nos dois ângulos inferiores do triângulo, encontram-se vários símbolos astrológicos, os de relevância maior no meu horóscopo. Do lado direito, o signo solar, Áries, onde, além do Sol, estão Marte, conjunto ao Sol e ambos na Casa VII, e ainda a conjunção de Júpiter a Mercúrio na Casa VIII. Do lado esquerdo, o Ascendente em Virgo, ao qual estão conjuntos Plutão e Urano.

- O Dragão é o meu animal totémico, além de ser o meu signo oriental. Há que ter em conta a simbologia associada a este animal imaginário: partilhando de muitas características com a Fénix, a Serpente Emplumada e mesmo a Esfinge egípcia, o Dragão simboliza as forças instintivas originárias e a capacidade de regeneração e sublimação, o lado bestial e desenfreado e o poder de o disciplinar e controlar. É o senhor do vento e do trovão, dos subterrâneos e das águas profundas. Simboliza ainda os impérios, o imperador, a desmesura, os tesouros ocultos de que é o guardião (sobretudo dos tesouros imperiais) e é o animal que representa o Extremo-Oriente.

- O carácter chinês que o dragão inserido no círculo envolve lê-se Long, e significa precisamente “dragão”.

- A frase “O mistério é a forma superior de ascese” foi escolhida para frase-chave porque sublinha a importância do mistério no conhecimento. É o desconhecido que nos move. Todo o conhecimento provém do re-conhecimento da nossa ignorância, da sensação de mistério, do encontro com o que para nós parece oculto ou obscuro. Pois se tudo estivesse claro e fosse conhecido, que conhecimento haveria? Mas relembremos um velho ditado chinês: “O lugar mais obscuro está sempre sob a lâmpada.”

1987

Wednesday, November 08, 2006


FOTOGRAFIA
CHINA

A PEREGRINAÇÃO DO MONGE XUAN ZANG


A dinastia Tang foi uma época gloriosa no que diz respeito à história do budismo na Ásia Oriental. Tal glória deveu-se, em grande parte, à acção desenvolvida por peregrinos e tradutores. De entre eles, o mais célebre é o monge Xuan Zang.
O nome leigo de Xuan Zang era Chen Wei e nascera em Yanshi, na província de Henan, no segundo ano de Ren Shou (602 d.C.), durante o reinado do imperador Sui Wen Di. Desde os treze anos (outras fontes dizem onze), altura em que foi admitido num mosteiro budista, começou a aplicar-se no estudo dos sutras. Sabe-se também que cedo viajou por muitos lugares da China como Luo-yang, Xi’an, Sichuan e Hubei, com o fito de conversar com os monges mais eminentes. Aos trinta anos, tendo lido já numerosos textos canónicos budistas, era conhecido em todo o país. A sua aspiração mais profunda era ir à Índia, berço da religião que abraçara, para aprofundar os seus conhecimentos e eliminar as contradições existentes entre as diversas escolas budistas. Desejava também encontrar o manuscrito de um grande tratado de metafísica, o Yogâcaryâbhûtmìçâstra (“Tratado dos Mestres do Yoga”). A viagem foi possível quando Xuan Zang tinha trinta e dois anos, em 627 (outras fontes afirmam 629). Por essa época, sob o governo do imperador Tai Zong (de 626 a 649), o país vivia num clima de prosperidade e estabilidade. Para além disso, abrira-se então uma rota que se dirigia para o oeste, atravessando a zona do actual Xinjiang (Turquestão chinês). Naqueles tempos recuados, porém, essa viagem desde a capital Tang -Chang’an (a actual Xi’an) - até à Índia remota era, não é difícil imaginar, muito demorada e, sobretudo, extremamente perigosa. Havia que cruzar desertos imensos e vencer gigantescas montanhas. A vida achava-se em permanente risco. A prova mais dura consistia na travessia do deserto de Gobi onde, se fazia vento, a poeira cobria tudo; se o vento cessava, a areia caía do alto e acumulava-se formando montes - bastas vezes a sepultura dos viajantes. De dia, sem vento, o calor era sufocante; de noite, tiritava-se de frio.

Xuan Zang


Xuan Zang venceria todos os percalços da viagem e alcançou a Índia volvido um ano. Em Cachemira, deteve-se dois anos. Daí, partiu para os lugares santos do budismo primitivo, em Magadha (região de Gaya e Patna, Bihâr). Permaneceu depois cinco anos no mosteiro sagrado de Nâlânda, no actual Râjgir, sob orientação do mestre Sâstra Silabhadra. Consagrou-se ao estudo dos cânones do brahmanismo e às doutrinas das distintas escolas da Índia, sem descurar o estudo das várias línguas locais. Viajou também por todo o país, em busca de relíquias budistas e de antigos templos, ao mesmo tempo que procurava os grandes mestres budistas indianos no intuito de com eles trocar ideias. Pelo caminho, converteu almas em cento e trinta e oito reinos. Xuan Zang tornou-se conhecido em toda a Índia.

Painel no templo Wenwu, em Taiwan, ilustrando as viagens de Xuan Zang


Quando decorria o ano de 642, foi organizado em Kanyâkubja um grandioso festival budista no qual participaram reis e monges de dezoito países, num total de mais de três mil pessoas, sem contar com a enorme multidão de ouvintes. O festival, cujo propósito era discutir as doutrinas do budismo, durou dezoito dias. Xuan Zang fora convidado pelo rei Silâditya para presidir à assembleia quinquenal de debates livres. Não houve ninguém que, nas polémicas organizadas, conseguisse deitar por terra os argumentos apresentados por Xuan Zang, que refutavam as doutrinas não budistas e da corrente Hinayâna (ou “Pequeno Veículo”). A turba, no intento de demonstrar o seu respeito e afecto, rodeou então o monge e fê-lo montar num elefante luxuosamente enfeitado. Numa cerimónia especial o rei Silâditya tornou-se seu discípulo.
O monge regressou à pátria dezasseis anos depois de ter partido, em 645, levando consigo mais de seiscentos livros budistas. Nem todos chegariam incólumes ao seu destino. No rio Rawalpindi, no actual Paquistão, o vento arrebatou-lhe cerca de cinquenta para lançá-los nas ondas.

Mapa da viagem de ida e de volta de Xuan Zang


Perfazendo um total de várias dezenas de milhar de pessoas, uma imensa multidão de civis, oficiais militares, monges budistas, mestres taoistas e leigos invadiu a capital, Chang’an, e os seus subúrbios para o acolher. O imperador Tai Zong, seu profundo admirador, deu-lhe audiência em Luoyang, capital provisória em viagem imperial. Tentou convencer o monge a regressar à vida laica e aceitar um cargo governamental. A oferta foi gentilmente recusada. A ambição de Xuan Zang era outra: propagar o budismo e traduzir os sutras.
A velhice de Xuan Zang foi toda passada em Chang’an, dirigindo durante dezanove anos consecutivos equipas de tradução que verteram para chinês os sutras transportados da Índia. Em 646, começou a traduzir o Yogâçaryâbhûmiçâstra, a obra que mais desejara encontrar ao partir do seu país. No ano seguinte, traduziu para o sânscrito o Dao De Jing (Tao Te King), atribuído a Lao Zi (Lao Tse). A tradução foi dedicada ao rei de Kâmarûpa, no actual Assam. Até à véspera da sua morte, no dia cinco do segundo mês lunar do primeiro ano de Lin De (664), aos sessenta e três anos, havia traduzido um total de setenta e cinco obras, com mil trezentos e trinta e cinco volumes e mais de treze milhões de caracteres, Trata-se da quarta parte do conjunto das traduções para chinês de textos indianos. Tornara-se no maior tradutor da História da tradução dos sutras budistas. A sua sede de rigor filológico era tão intensa que instituiu toda uma série de regras de tradução de uma extrema exigência. Graças a este monge excepcional, grande mestre budista, notável conhecedor do sânscrito e da cultura indiana, a China pode contactar com a complexa filosofia da escola epistemológica Vijnânavâdâ. Foi, com muita probabilidade, o único chinês que alguma vez conheceu a filosofia budista indiana em toda a sua imensidão e profundidade. Ao tomar conhecimento da sua morte, o imperador Gao Zong, em lágrimas, exclamou: “Acabámos de perder um tesouro nacional!”. Ordenou que a corte imperial fosse fechada durante três dias e decretou um funeral de estado para o mestre Xuan Zang. Toda a nação chorou a sua morte.

Templo Xingjiao,arredores de Xi'an, China, onde se encontra a maior parte dos restos mortais de Xuan Zang

As notas de viagem que Xuan Zang tomara serviram de ponto de partida para a obra Datang Xiyu Ji (“Memória sobre as Regiões Ocidentais na Época dos Grandes Tang”), composta por um discípulo seu. Nela se descrevem todas as regiões por ele percorridas, informando sobre o clima, usos e costumes, produções, história, política e, claro, sobre a situação do budismo. Um ano após a sua partida deste mundo, começou a escrever-se a sua biografia, dando especial atenção às suas viagens. É o Daci’en San Zang Fa Shi. Xuan Zang viria a tornar-se na personagem principal do famoso romance fantástico Xì You Ji (“Peregrinação a Oeste”, séc.XVI), de Wu Cheng En, onde se narra que viajava com um discípulo muito singular: Sun Wu Kong, o Rei dos Macacos, Mestre das Flores e dos Frutos, versado na arte da metamorfose e herói de todas as crianças chinesas. Na realidade, Xuan Zang teve um discípulo chamado Shi Pantao que fora, a princípio, um fiel protector do monge mas que, vencido pelo medo dos constantes perigos da viagem acabou, não só por o abandonar, como chegou mesmo a tentar matá-lo. Neste romance extremamente popular, Sun Wu Kong cria distúrbios no Reino Celeste e autoproclama-se Par do Imperador do Céu. Buda, como castigo, aprisiona-o numa montanha. Ao passar por ali na sua viagem em direcção à Índia, Xuan Zang, moído pela compaixão, liberta-o. O Rei dos Macacos torna-se seu discípulo e, valendo-se dos seus poderes sobrenaturais, enfrentará inúmeros demónios e espíritos para proteger o mestre.



1995


AGUARELA
POEMA



Não relembro o lugar da pele
onde a deixei cair e agora
- se em música me diluo e em pradarias
inteiras pradarias em que outrora
rasgavam tempestades alquimistas de papel,
papel de seda, papel de lustro, papel vegetal,
papel de arroz tão raro
deflagrando através do elixir da vida da morte
longa especiaria e os metais multiplicados,
os poucos elementos, os estados
regenerando-se, transformando-se, sublimando-se
os venenos vários curadores o seu trabalho
e amavam o seu trabalho-meticuloso-espanto e o amor
tornava-os sérios guardavam
atrás dos olhos a água em gotas onde eu
apagava a luz -
rebento no silêncio as palavras contra os dedos quando assisto
em pleno brilho cego
à sua voz retirando-se na noite.

e cravo a cabeça em árvores impenetráveis
cheirando a sangue inexpressivas
e a séculos já muito impessoais,
e interrogo peregrinos, os mais transparentes
que se enrolam em zero e rolam no ar:
como é que era? como é que os dedos escorregavam?
como era em púrpura? como era em fábulas?

o carnaval explodia em terra em máscaras e o terror
das crianças afogava os navegadores no mar, no Atlântico
o carnaval e os homens das jangadas
matavam ratazanas as salamandras incendiavam-se
os cadáveres comiam pólvora os espiões trincavam ratazanas
usavam sabres na coluna vertebral e mastigavam
com uma tesoura de prata pura nos dentes;
e lançavam gritos frios e matavam
sem combate e com dedos ilegais e sem conquista
só com gritos frios e ladrões e os homens tremiam
toda a noite divididos entre as pedras, arrefeciam
nos cofres piratas treme-luziam e os piratas
cravavam o corpo contra as mais velozes âncoras

eu partia a cabeça em aventuras transpirando
no carnaval os homens partiam
os impulsos contra as vítimas, os mártires
roçavam-se em lâminas em brancos sorrisos as crianças
deixavam-se cair no infinito.


e eu enlouquecia a febre lenta e corria
contra rochas chão perverso e escorregava
e corria, em frente sempre só em frente, sempre sempre
sobre espinhos vidros cactos e voava

*

agora vivo, porém, dentre duas,
na terceira avenida do lado
que não dá jeito, no magro desfiladeiro
entre as palavras e o silêncio num diamante
que gela
no samurai que vive
dentro da minha secretária;
e se me afasto

muito recordo o campo
da guerra os mudos destroços
o vento mexendo nos destroços abanando
o ruído contra as pedras as espadas
da guerra brilhando de vez em quando caindo
na vazia solidão ilimitada e no silêncio dos mortos
pesados na terra no céu sorvendo sangue chovia sangue
em todo o planeta;
mas agora

quanto mais se enterra a faca
mais o sangue sai para fora; e então
a chuva inverte-se e fica
fina chuva fria e cai
bravia;
e nas paredes, nos perfis efémeros a fala
efémera
é só o móvel ar
deformado.



18.11.84

Sunday, October 29, 2006


FOTOGRAFIA
FICÇÃO

CHINOISERIES


Narração e ilustração de pequenos factos-ficções alusivos às relações luso-chinesas


Retrato do chinês Lili, cantador de fado - Talvez vocês conheçam, para os lados de Belém, aquele painel de azulejos que reproduz a figura de um chinês. O homem reproduzido existiu realmente nas ruas da Lisboa das primeiras décadas do século XX, e chamava-se Li. Os lisboetas de então, com a sua habitual verve, chamavam-no o Lili. Tratava-se de um chinês vendedor de rua, natural da província de Zhejiang. Como é sabido, na Lisboa antiga, a Lisboa dos pregões, dos galegos aguadeiros, das varinas e saloios, das mulheres da fava-rica e dos pretos caiadores, havia ainda um outro tipo de vendedor - os chineses das gravatas. O Lili pertencia a esse grupo, pouco numeroso, mas sempre alvo de muita curiosidade por parte dos transeuntes, que pasmavam para eles, desabituados ainda de extravagâncias. O Lili destacava-se, pois jamais abandonou os seus trajes tipicamente chineses, que trouxera de Zhejiang. Era uma galhofa por essas ruelas abaixo sempre que ele surgia com as suas cabaias coloridas, com a caixa de madeira a tiracolo, cheia de gravatas para mercar. Excepto quanto à sua intransigente recusa em envergar vestes ocidentais o Lili era então, e de longe, o chinês mais bem adaptado à vida portuguesa. Por isso, e porque tinha um temperamento alegre e suportava a troça com jovialidade, com resposta pronta para tudo, foi ganhando o respeito e a estima do povo de Lisboa. Pela manhã, podia topar-se com ele a sorver o seu café de lepes e, em a noite caindo, não dispensava o pratinho de iscas com elas, repugnante para qualquer outro chinês. Amantizado com a dona de um café de camareiras, diz-se que frequentava as meias portas, onde agarrava na banza e soltava o fado com espírito, sempre vestido à chinesa e trocando os erres pelos eles, o que lhe valeu a alcunha de "faia amarelo".
Quando se encomendou o referido painel de azulejos, o artista julgou de gosto exótico, à moda da época, pintar um mandarim. Lembrou-se logo do Lili para fazer de modelo. O chinês aceitou posar com as suas melhores vestes, em troca de umas moedas.
O Lili ainda galgaria as calçadas de Lisboa com as suas gravatas durante mais alguns anos mas, após dura rixa numa viela da Mouraria, acabou por fugir para Moçambique, onde terá eventualmente findado os seus dias. Foi visto pela última vez, já bastante velho, a dançar o merengue em grupo numa rua esconsa da então Lourenço Marques.
O chinês Lili, tal como a famosa preta Fernanda - que serviu de modelo para a figura feminina em bronze que simboliza a África no pedestal da estátua ao Marquês de Sá da Bandeira - é uma das duas personagens populares da cidade de Lisboa reproduzidas numa obra artística.




Lao Tse e o "Verdadeiro Clássico do Inominável" - Na cave do edifício da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, existe uma biblioteca sinológica da maior importância, que permanece todavia desconhecida do público devido à inexistência no país de especialistas na área. A maioria dos livros foi doada pela Embaixada da República Popular da China e pelo Instituto Cultural de Macau. Lá se podem consultar, entre outros tesouros, as obras completas de Ouyang Xiu, a poesia de Li Bai, Du Fu e Bai Ju Yi, os principais romancistas contemporâneos e o Sutra do Diamante.
Nessa biblioteca encontra-se também o único manuscrito existente em todo o mundo da obra atribuída a Lao Tse, Wu Ming Zheng Jing. O Wu Ming Zheng Jing ("Verdadeiro Clássico do Inominável") é a sua única obra conhecida, para além do famoso Dao De Jing (Tao Te King). Alguns sinólogos estrangeiros são de opinião de que o recentemente descoberto Wu Ming Zheng Jing (em geral, abreviado para Wu Jing) é ainda superior ao Dao De Jing.
O manuscrito foi descoberto no túmulo do sábio, no templo de Lou Guan Tai, província de Shanxi. O túmulo foi violado em 1994, durante um ritual secreto praticado por uma seita esotérica de alquimistas taoistas. A seita defende que Lao Tse, tal como sua mãe, cujo túmulo se encontra ao lado, continua vivo, uma vez que se dedicara à prática de lian dan, isto é, ao fabrico de pílulas da Imortalidade. De facto, mais nada, a não ser o Wu Jing, foi encontrado no túmulo. A obra, ainda mais breve e densa do que o Dao De Jing e caligrafada sobre tiras de bambu, foi-se desfazendo à medida que um dos iniciados taoistas a copiava rapidamente para um caderno.
No cap. XX pode ler-se: "Wo du wu si di ye/ wu ming zhi bao/ da dao zhi xuan." ("Apenas em mim nada é mortal/ tesouro do Inominável/ maravilha do Grande Dao!”). Segundo os alquimistas, trata-se, com efeito, de uma obra composta por Lao Tse já depois de se ter tornado um Imortal.
Três meses após a sua inesperada descoberta, o caderno foi vendido ao governo chinês para divulgação, decepado embora num terço das suas páginas. Segundo consta, nessas páginas, Lao Tse descreveria minuciosamente a receita infalível para adquirir a Longevidade e a Imortalidade, em cuja demanda se aplicaram gerações e gerações de seguidores do taoísmo. O grupo de alquimistas mantém absoluto segredo sobre o seu conteúdo e a pressão do governo para resgatar as folhas tem sido vã. A obra foi publicada incompleta pela Editora Xinhua em 1995. Quanto ao manuscrito truncado, foi roubado em 1998 do depósito da Biblioteca de Pequim, onde se encontrava, para ressurgir posteriormente num leilão da Sotheby's. A Fundação "A Leste" adquiriu-o então a peso de ouro após acérrima disputa com o Instituto Ricci. Como foi parar à cave da Biblioteca da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, ninguém o sabe explicar. A Fundação "A Leste" está neste momento em negociações com a dita Reitoria no sentido de reaver o precioso manuscrito.




O incêndio do pavilhão - A cidade de Macau esteve representada na Exposição do Mundo Português em Belém, quando decorria o ano de 1940. Construiu-se a Rua de Macau, cujo maior atractivo era um colossal paquiderme de pedra, de tromba erguida e carregando no dorso um pavilhão de dois andares em estilo chinês. O portal que dava acesso a essa rua pode ainda hoje ser visitado entre a folhagem do ex-Jardim Colonial. No entanto, o elefante com o seu pavilhão desapareceu misteriosamente. O processo relativo ao desaparecimento foi abafado pelo regime de Salazar. Encontra-se na Torre do Tombo e, ainda hoje, não pode ser consultado pelo público em geral.
Segundo consta, a Seita do Dragão Azul, uma seita nacionalista chinesa, mantinha entre os estudantes macaenses residentes em Portugal uma pequena ramificação. Formada ainda sob influência, pelo menos indirecta, do Dr. Sun Yat-sen, enquanto este viveu Macau, nos primeiros anos do século, a seita encontrava-se então activamente empenhada na luta contra o invasor japonês que ocupava toda a China do leste e, por extrapolação, contra qualquer poder colonizador. Os estudantes macaenses em Portugal receberam ordens para queimar toda a área colonial da Exposição, na noite seguinte à da sua abertura oficial. Algo terá, porém, corrido mal e Salazar foi informado a tempo. A vigilância apertou-se em torno da área colonial e os asiáticos, goeses incluídos, passaram a ser discretamente revistados e identificados antes de nela poderem penetrar. Os planos da Seita do Dragão Azul saíram gorados pela máquina salazarista e os portugueses puderam regozijar-se com a vastidão do seu império. No entanto, na última noite da Exposição, um estudante macaense, de nome Xavier Cheong, conseguiu deitar fogo ao símbolo de Macau. No flanco do elefante de pedra pincelou insultos a Portugal em português e chinês. Foi posteriormente capturado pela PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), antecessora da PIDE.
Na manhã seguinte à do fecho da Exposição, do pavilhão em madeira restavam apenas cinzas. Salazar ordenou que fossem rapidamente removidas e que lançassem ao Tejo o elefante de pedra, onde ainda hoje provavelmente jaz, sob as mesmas águas que as caravelas sulcaram outrora em demanda do Oriente.




A pedra das Mutações - Como é commumente sabido, o Jardim da Fundação Gulbenkian contém, na sua arquitectura, elementos chineses e japoneses. Um dos mais curiosos é a pedra colocada sobre o relvado que desce para o lago dos nenúfares. A pedra foi transportada para Portugal nos princípios do séc. XVII por um fidalgo aventureiro nascido em Lisboa, Nuno Gouveia de Faria. Este, julgando-a altamente decorativa, tê-la-ia usurpado de um jardim que existia então em Liampó (Ningbo), como o comprovam fontes inglesas coevas (veja-se a obra de Sir Colin Ormsby-Gore, The Portuguese Trade and Atrocities at the Port of Macao and Southern China, London, 1602, New Delhi, 1971, reprint.). De facto, a pedra foi outrora profusamente gravada e pintada com os 60 hexagramas do Clássico das Mutações (Yi Jing).
A pedra adornou o parque da mansão da família do fidalgo Nuno Gouveia de Faria até à sua demolição, nos finais do séc. XIX. Durante a construção do jardim da Gulbenkian, nos anos 60, o sinólogo espanhol Pe. Lorenzo Benito Muralles, SJ, que veraneava então por cá, descobriu-a por acaso num descampado, tendo sido ele próprio a sugerir ao arquitecto Ruy Jervis D’Athouguia nova morada para a pedra. Muralles conhecera os pais do arquitecto em Macau, a cidade onde D’Athouguia nascera. Este falou do assunto ao seu colega Ribeiro Telles, encarregado do plano dos jardins do museu. Ribeiro Telles aprovou a ideia.
Muralles julgava mesmo distinguir ainda, no canto direito superior da pedra, a gravação - naturalmente muito desgastada pelo tempo - dos traços contínuos e descontínuos do primeiro dos hexagramas, o hexagrama Pi - em cima, o Céu, por baixo, a Terra.




O Pátio das Flores Rubras - Pouca gente terá conhecimento da história assaz pitoresca que está por detrás da construção da casa típica de Macau do Portugal dos Pequenitos, em Coimbra. Durante a concepção desse projecto do Antigo Regime, ficou encarregado do plano da casa de Macau um arquitecto que nunca estivera no Oriente. Para levar a cabo a tarefa, e na impossibilidade de até lá se deslocar, consultou afanosamente arquivos fotográficos respeitantes àquele longínquo território português. A sua escolha, no entanto, não foi feliz. Tomou como inspiração para reproduzir em pedra certa fotografia que mostrava um edifício de estilo acentuadamente chinês. O pobre arquitecto ignorava que se tratava de um famoso lupanar da zona mais libertina da Cidade do Santo Nome de Deus: o Pátio das Flores Rubras (Hong Hua Yuan). Este lupanar, que deliciou gerações de chineses e portugueses, foi incendiado em 1947, como consequência de uma intrincada história de vingança entre duas seitas rivais. Dos seus escombros resta apenas, na rua onde se situara, a pedra fronteira gravada com três caracteres chineses sobre a tradução portuguesa, ainda em grafia antiga: "Páteo das Flores Rubras". No entanto, por ironias do destino, e para que fossem iniciadas de bem cedo as crianças portuguesas nos inefáveis mistérios do Oriente, a reprodução da sua fachada iria sobreviver, fiel, muito longe dali, em Portugal, no Portugal dos Pequenitos.



Retrato da Senhora Jacinta Wok - A Senhora Jacinta Wok (1884~1945), portuguesa nascida no Porto, foi a protagonista de um dos maiores escândalos que alguma vez abalaram Macau. Deveu-se o escândalo ao facto de ela ter vivido trinta e nove anos em regime de concubinato com um rico negociante chinês, Wok Mei Lo, estabelecido no território desde os finais do séc. XIX. Wok Mei Lo tomou-a como sexta concubina quando a dona Jacinta, cujo apelido era ainda Santos da Cruz, servia como ama em casa da família Mendes Couceiro.
Juram versões que a ama terá trocado essa família pela casa Wok por se ter tomado de amores pelo negociante; outras explicam-no por um desejo irreprimível de ascensão social ou desilusões com a comunidade portuguesa. O que é certo é que se submeteu às exigências do negociante a ponto de chegar a enfaixar os pés. Sofreu, por isso, dores atrozes durante todo o resto da vida, uma vez que tal operação, em princípio, se destinaria a meninas com cerca de cinco anos de idade. Além disso, teve de suportar as torturas e vexames que lhe infligiam as outras concubinas do negociante, não só devido à sua insignificante posição na casa - concubina número seis - como devido ao facto de ser estrangeira, pior, estrangeira traidora à sua própria comunidade. Rejeitada por ambas as raças, também no negociante Jacinta não encontrou qualquer apoio, pois Wok Mei Lo nunca a conseguiu apreciar, nem mesmo com os pés enfaixados. Segundo consta, servia-se dela nos seus negócios, cedendo-a a outros chineses ricos e curiosos, e exibia-a perante os portugueses como um troféu humilhante.




Retrato de Wu Sheng Ren em Trás-os-Montes - Na Aldeia da Mó, em Trás-os-Montes, habita, desde 1999, um poeta chinês cujo nome é Wu Sheng Ren. Este poeta, natural da província de Henan e cuja obra bem merecia uma urgente e cuidada edição, habitou muitos anos em Macau, para onde fugiu durante a Revolução Cultural, antes de se estabelecer em Portugal.
Na boa tradição dos poetas chineses, Wu Sheng Ren, depois de se ter dedicado à política e a assuntos mundanos, decidiu retirar-se para longe em busca de contacto com a natureza. Cansado das intrigas de Macau e não desejando então regressar à China, veio para Portugal e escolheu a aldeiazita transmontana para se consagrar ao seu novo estilo de vida. No entanto, como a escola mais próxima da aldeia se situa a catorze quilómetros de distância, o poeta, insensivelmente, foi fazendo as vezes de professor das cinco crianças da aldeia.
Pela manhã, Wu Sheng Ren dá-lhes aulas em chinês, na sua própria casinha de pedra, despojada de haveres. As crianças portuguesas desenham os caracteres, decoram os ensinamentos de Confúcio e recitam poetas da dinastia Tang. Wu Sheng Ren explica que dá as aulas num estilo muito semelhante ao dos primeiros professores que teve, na sua aldeia natal da província de Henan. As cinco crianças, que o estimam e veneram, acompanham-no ainda nos seus longos passeios pelas montanhas e ajudam-no a tratar de uma pequena horta e dos seus três porquinhos. Os pais, camponeses pobres, afirmam preferir que os filhos estudem chinês a que permaneçam analfabetos como eles próprios e mostram-se satisfeitos com este inesperado professor. Aliás, já muitos destes pais conseguem exprimir-se num chinês fluente, embora não o saibam ler nem escrever.



Tartaruga Wenjia - As tartarugas wenjia (à letra, "carapaça escrita") são uma espécie que se encontra apenas em território chinês. Os exemplares desta espécie caracterizam-se por uma particularidade notável: na sua carapaça, apresentam gravados caracteres chineses, alguns deles muito antigos.
A existência destas tartarugas só pode ser explicada à luz da teoria da selecção artificial, num processo em tudo semelhante ao que sucedeu com os caranguejos Heike de Danno-ura, no mar do Japão, que exibem nas suas couraças rostos de samurai. Assim, os cientistas supõem que, originalmente, as tartarugas wenjia seriam semelhantes a todas as outras espécies comuns na China. No entanto, como se sabe, há vários milhares de anos que os chineses praticam a adivinhação com carapaças de tartaruga e também há vários milhares que vêm apreciando a sua carne. Assim, os adivinhos teriam começado por poupar à panela os antepassados das tartarugas wenjia cujas carapaças apresentavam sulcos que se assemelhavam a caracteres chineses. Os chineses acreditam que a origem dos seus caracteres é sagrada. Ao evitar-lhes a morte, e provavelmente sacralizando-as, as tartarugas encetaram um processo evolutivo. Apercebendo-se da vantagem de não apresentar uma carapaça vulgar - a sua morte ficava adiada e havia tempo para procriar - as tartarugas investiram nos caracteres das carapaças, marcas que são hereditárias. Com o fluir das gerações tanto de adivinhos como de tartarugas, aqueles animais cujas carapaças apresentavam caracteres sobreviveram. Hoje em dia, as tartarugas wenjia formam uma comunidade bastante numerosa. Grande coleccionador de carapaças wenjia foi o nosso poeta Camilo Pessanha. Exibiram-se exemplares notáveis no Museu Machado de Castro, em Coimbra. Por ocasião da passagem da administração de Macau para a Rep. Pop. da China, o Museu organizou uma exposição temporária da colecção inteira, infelizmente pouco visitada pelo público. Na loja do Museu, contudo, está ainda à venda o magnífico catálogo (35 euros).




O Templo Taoista da Serra da Estrela (Xing Shan Guan) - O Templo Taoista da Serra da Estrela (Xing Shan Guan) é o único templo taoista existente em toda a Europa e um motivo de orgulho para o nosso país. Foi inteiramente concebido segundo as normas arquitectónicas dos templos taoistas chineses. A sua estatuária, como, por exemplo, os Oito Imortais no pavilhão do mesmo nome, veio directamente da China. A valiosa figura em folha de ouro do Imperador Amarelo foi oferta do Templo Taoista Zhong Yue Miao, que se ergue na montanha sagrada Song.
De Cantão deslocou-se um célebre especialista em geomancia chinesa (fengshui), Luk Ku Lou, a fim de escolher a localização ideal do templo no cenário da Serra da Estrela. Do Templo Taoista da Nuvem Branca (Bai Yun Guan), em Pequim, chegaram os monges que presidiram à cerimónia religiosa que teve lugar aquando da inauguração, em Outubro de 1998. Alguns permaneceram por ali até se terem formado novos acólitos.
A localização exacta do templo, contudo, é apenas revelada aos iniciados. Diz-se que lhes é ensinada então uma dança oculta destinada a transformar o yang em yin. A dança decorre em cima de um mapa secreto da montanha, cujo reflexo num antigo espelho de bronze que terá pertencido ao próprio Chang Dao Ling - o Mestre Celeste que, no séc. I d.C., converteu o taoísmo numa religião organizada - aponta o local do templo.
Mas como poderá o espelho mágico de Chang Dao Ling ter vindo parar a Portugal?
Chang Dao Ling nasceu no primeiro ou segundo século da nossa era sobre a Montanha do Tigre-Dragão, no Jiangxi. Certo dia, Lao-tse apareceu-lhe sob uma forma espiritual e encarregou-o de encontrar a fórmula pela qual compor o elixir da imortalidade. Chang Dao Ling foi bem sucedido nesse empreendimento. Aos cento e trinta e três anos, subiu aos céus montado no dorso de um tigre e, de seguida, preservou a sua identidade reincarnando sucessivamente num após outro dos seus próprios descendentes. Cada um daqueles a quem coube este privilégio retomou, assim, o nome de Chang Dao Ling. Tais reencarnações continuaram pelo séc. XX adiante. No séc. VIII, um decreto do imperador Xuan Zong deu jurisdição ao Mestre Celeste Chang "sobre todos os templos taoistas no mundo". Isto inclui, obviamente, o Templo Taoista da Serra da Estrela.
Mais curiosa ainda é uma passagem da obra de John Blofeld, Living Taoism. Embora muitos creiam no contrário, Blofeld declara ser altamente improvável que toda uma linhagem de pontífices que se conseguiu perpetuar por quase dois mil anos tenha desaparecido nos nossos dias sem deixar rasto. E refere que alguns estudiosos defendem que foi o governo de Chang Kai-chek quem baniu a última reencarnação do Mestre Celeste, antes dos anos 50 do século findo. Revela ainda que um autor chinês sustém que Chang Dao Ling tem vivido desde então em Macau "como um dragão, entre as volutas de espessas nuvens - o ópio!" Isto explicaria a sua ligação a Portugal e a sua possível implicação na construção e funcionamento do Templo Taoista da Serra da Estrela. Quanto ao ópio, é bem sabido ser um dos componentes essenciais no fabrico das pílulas da longevidade.




Retrato de Joaquim Antunes e família - Joaquim Patrocínio da Silva Antunes, nascido em Gondomar em 1941, é um exemplo feliz do poder de adaptação dos portugueses a alheias terras e gentes.
Entre 1960 e 1963, Joaquim cumpriu o serviço militar em Macau. Ali frequentaria a escola pela primeira vez, terminando a instrução primária.
Cedo deu provas de profunda adaptação à mentalidade asiática, com inexcedível capacidade de miscigenação, conhecendo numerosas senhoras orientais que lhe viriam prestar preciosa ajuda na sua mais notável obra: prolífera procriação luso-chinesa, incontáveis mestiçozinhos que contribuiriam para um aumento sensível da densidade populacional de Macau.
Joaquim Patrocínio da Silva Antunes só regressou à pátria lusa em 1997, já reformado. Aqui permanece, dedicando-se à nobre arte da poesia. Reflecte, nos seus versos, a riqueza das experiências vividas naquele enclave oriental. Eis alguns exemplos, retirados da última obra publicada, "Macau que bi e bibi" (1999):

Numa rua de Macau
eu te abisei sem vulir
ai q' achego-te cum pau
se cum outro eu te bir.

Um português a baler
aonde anda tem mulher
arranja do que comer
cum pauzinhos ou colher.

Sei quem sou e isso canto
desde que cheguei ao cais
de Macau, terra de encanto:

chinólogo, e nada mais!




As curandeiras - Terão reparado numa pequena estatueta portuguesa do princípio do século XX, retratando duas mulheres chinesas que seguram frasquinhos de unguentos, exposta num dos armários da primeira sala do bar-museu "Pavilhão Chinês", no nº 89 da Rua D. Pedro V, em Lisboa? O "Pavilhão Chinês" foi outrora uma farmácia e a estatueta fazia parte do seu espólio, algum do qual adquirido pelo novo dono do espaço.
Essa tosca estatueta é uma humilde homenagem a duas curandeiras chinesas que protagonizaram, em Novembro de 1911, um escândalo de contornos bizarros que abalou a então jovem república portuguesa.
Ajus e Joé, assim as chamavam os jornais da época, numa grafia aportuguesada dos seus nomes originais, eram naturais de Xangai e apresentavam-se como especialistas em devolver a vista a cegos. Os ceguinhos de Lisboa, mais as suas caixinhas de esmolas, guitarras e acordeões, acorreram aos magotes ao humilde hotel onde as chinesas se hospedaram. Naqueles tempos conturbados, o povo sucumbia facilmente à crendice e floresciam as bruxarias.
Todavia, devido talvez ao seu perfume exótico, as chinesas foram tomadas como caso exemplar pelos republicanos, adeptos ferrenhos do positivismo. Resolveram encher-se de brio racionalista e mandaram prender as duas arautas do obscurantismo numa capital que se queria um paradigma do progresso.
A Polícia, porém, deparou com tal resistência por parte dos ceguinhos - que não hesitavam em quebrar as suas guitarras nas cabeças dos agentes - e da populaça em geral, que se tornou impossível evitar um confronto. Rebentou um motim que degenerou em mortes. Estouraram bombas. As redacções de imprensa foram assaltadas. Não fora a pronta acção da cavalaria e Machado Santos teria sido linchado. O caso acaba por ascender ao Parlamento, por iniciativa do ministro do Interior. A prisão das chinesas é usada como mote em comícios e no ataque a adversários políticos. Ninguém consegue manter a serenidade.
A estatueta do "Pavilhão Chinês" é obra de Zeferino Santos, que acompanhava o pai cego nas consultas às curandeiras. O dono da antiga farmácia resolveu adquiri-la para, por graça, a colocar ao lado do anúncio de um medicamento oftálmico.
Quanto a Ajus e Joé, poucos dias depois da sua prisão foram novamente libertadas. Recusaram a extradição para o seu país natal. Algumas semanas antes, a 26 de Outubro desse ano, Sun Yat-sen proclamara a República da China. Receavam ver-se envolvidas com mais republicanos, ainda que chineses. Deixaram Portugal num navio que iria atravessar o Atlântico e nunca mais ninguém soube delas. Tudo quanto resta é uma foto de Joshua Benoliel no Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa e a estatueta do "Pavilhão Chinês".




Amália em Xangai - Em 1950, o jornal satírico "Os Ridículos" comentava a notícia sobre a actuação de Amália Rodrigues em Xangai, a realizar-se dali a pouco tempo: «(...) A Xangai, à China, achamos francamente fantástico! (...) A verdade, porém, é que achamos a China um país esquisito de mais para o fado (...) Vocês já pensaram, por momentos, no que será um auditório de chineses, todos sentados no chão, a comer arroz com dois pauzinhos e a Amália a cantar-lhes o "Tudo isto é fado" ou "Avé Maria Fadista"?»
Este é o único registo português aludindo à actuação de Amália em Xangai. A notícia foi, de resto, completamente abafada. Nem os jornais da época, nem as biografias de Pavão dos Santos ou Jean-Jacques Lafaye mencionam tal facto. O contrário se passaria em relação ao Japão, duas décadas volvidas, quando o estrondoso êxito de Amália lá obtido alcançou merecido eco no nosso país.
Todavia, Amália actuou de facto em Xangai, decorria o ano de 1950, acompanhada por Jaime Santos à guitarra e Santos Moreira à viola.
A República Popular da China havia sido proclamada no ano anterior e Xangai fora o berço do Partido Comunista. Devido à fama, mas sobretudo devido à modestíssima origem social da fadista, Amália foi escolhida pelos chineses para representar Portugal num espectáculo de folclore internacional.
Ao contrário, porém, do que supunha o jornal "Os Ridículos", Amália não cantou o "Tudo isto é fado" nem o "Avé Maria Fadista". Achou mais graça a, estando na China, cantar o "Grão de Arroz", de Belo Marques ("O meu amor é pequenino como um grão de arroz/ é tão discreto que ninguém sabe onde mora...)
Além disso, com a sua proverbial facilidade para aprender línguas estrangeiras, Amália fez questão de cantar a versão chinesa, levada a cabo de propósito para a ocasião: Wo xin shang de ren er shi duome xiaoxiao de/ ta xiang yili mi side/ ta duome jinshen, mei you ren zhidao ta zhu de difang...
Até aqui, a audiência entusiasmou-se com tal voz e tal mestria do chinês. Mas quando os versos seguintes foram cantados ("Tem um palácio de ouro fino aonde Deus o pôs/ e aonde eu vou falar de amor a toda a hora..."), um dos representantes dos camponeses presentes por entre o público indignou-se e berrou: "Se tem um palácio de ouro fino, não foi Deus que lho deu, mas o sangue e o suor das classes trabalhadoras!"
Foi como um rastilho. A audiência aplaudiu o representante dos camponeses e começou a assobiar e a apupar a nossa pobre Amália que, seguida pelos dois assustados instrumentistas, teve de abandonar o palco lavada em lágrimas. No dia seguinte, partiu precipitadamente para Berlim, onde conheceria um êxito monumental nos espectáculos do Plano Marshall.
Este breve e triste episódio na carreira da grande fadista foi abafado pela própria Amália, que negou sempre ter alguma vez posto os pés na China Popular. No entanto, foi relatado no dia a seguir pelo Diário de Xangai. Esse exemplar do jornal pode facilmente ser consultado na Biblioteca da cidade por quem dominar a leitura dos caracteres chineses. A notícia, de 21 de Setembro, intitula-se "Cantora burguesa é apupada pelo povo trabalhador no Espectáculo de Folclore Internacional".





1997-2000


FOTOGRAFIA

THE BEATLES- O SEU SENTIDO DE HUMOR


Em 1994, fiz uma pequena recolha e tradução de famosas réplicas humorísticas por parte dos quatro elementos dos Beatles – John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr – muitas das quais nas inúmeras conferências de imprensa em que participaram durante os anos sessenta, na fase anterior ao lançamento do LP Seargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Como disse Bill Harry em “The Unique Humour of the Beatles” “…tinham um estilo de comentário vivaço que era só deles, embora derivasse em parte da área de onde eram originários – Liverpool – que tem sido o berço de tanta gente espirituosa. (…) Eles saíam-se tão bem com uma réplica engraçada como os melhores comediantes de Liverpool, mas acrescentavam ao seu tipo de piadas uma pitada extra que provinha directamente das suas personalidades. (…) Tornaram-se adeptos de respostas tão devastadoras que ganhavam sempre o dia (…). Quando confrontados com uma série de clichés, viravam-nos às avessas e de cabeça para baixo!” Naquele tempo, também Maureen Cleave, jornalista no Evening Standart, comentou: “Ou eles têm como empregado o mais maravilhoso dos comediantes escondido ou Bob Hope deveria contratá-los sem perda de tempo.” O próprio New York Times rendia-se ao seu charme: “O humor dos Beatles foi contagioso. Toda a gente desatou a rir. Os fotógrafos esqueceram-se de tirar as fotografias que queriam.”





Beethoven surge numa das vossas canções. Que pensam vocês de Beethoven?
Ringo: É óptimo. Especialmente a sua poesia.

Acreditam nesta demência?
Ringo: Sim, é saudável.
Mas não se sentem embaraçados com toda esta demência?
Ringo: Não, é louco.

Pensam que é errado dar um exemplo tão mau aos adolscentes, a fumar da maneira que vocês fumam?
Ringo: É melhor do que sermos alcoólicos.

Que pensam da crítica que afirma que vocês não são muito bons?
George: Não somos.

Qual julgam ser a razão pela qual são o grupo musical mais popular hoje em dia?
John: Não fazemos ideia. Se fizéssemos, arranjávamos quatro rapazes de cabelo comprido, juntávamo-los e tornávamo-nos nos seus managers.

Admitiram ser agnósticos. E também são irreverentes?
Paul: Nós somos agnósticos, por isso não há razão para sermos irreverentes.

Que pensaram quando o vosso avião começou a deitar fumo ao aterrarem hoje?
Ringo: Beatles, mulheres e crianças primeiro!

Planeias casar com a Jane Asher?
Paul: Não tenho planos. Mas toda a gente diz que tenho. Talvez saibam mais. Dizem que sou casado e tenho cinquenta filhos, por isso também tu o podes fazer.

Como começou o teu hábito de usar quatro anéis ao mesmo tempo?
Ringo: Seis seriam demasiado pesados.

Porque achas que recebes mais correio das fãs do que qualquer outro do grupo?
Ringo: Sei lá. Julgo que é porque mais pessoas me escrevem.

Tens muitos encontros?
Ringo: O que é que vais fazer hoje à noite?

Vocês costumam brigar uns com os outros?
John: Só pela manhã.

Ao chegar à América…
Que tal estas boas vindas?
Ringo: Então isto é a América. Parecem todos doidos.

Esperam levar alguma coisa convosco para o vosso país?
Ringo: O Rockefeller Center.

Qual é a vossa mensagem para os adolescentes americanos?
Paul: A nossa mensagem é… comprem mais discos dos Beatles.

Qual é a vossa reacção à opinião de um psiquiatra de Seattle que diz que vocês são uma ameaça?
George: Os psiquiatras são uma ameaça.

Quais são os vossos programas preferidos da televisão americana?
Paul: ‘News in Espanhol’ de Miami. Popeye, Bullwinkle. Todos esses programas culturais.
John: Eu gosto da televisão americana porque porque há dezoito estações, mas não há um único programa bom em nenhuma delas.

Há uma campanha ‘Destruir os Beatles’ em Detroit. Que vão vocês fazer quanto a isso?
Paul: Vamos começar uma campanha para destruir Detroit.

Que fazem vocês quando estão engaiolados num quarto de hotel entre dois espectáculos?
George: Patinagem no gelo.

Paul, que pensas tu do colunista Walter Winchell?
Paul: Ele disse que eu era casado e eu não sou.
George: Talvez ele queira casar contigo…

Como acharam a América?
Ringo: Fomos até à Gronelândia e virámos à esquerda.

Gostariam de caminhar pelas ruas sem serem reconhecidos?
John: Costumávamos fazê-lo sem dinheiro nos bolsos. Não tem interesse nenhum.

Que é isso de adoeceres anualmente, George?
George: Apanho cancro todos os anos.

Quando fazem uma nova canção, como decidem quem será o cantor principal?
John: Juntamo-nos todos e aquele que souber melhor a letra fica o cantor principal.

Que tal é a sensação de enganar o mundo inteiro?
John: Que tal é a sensação de ser enganado?

A adulação das adolescentes afecta-vos?
John: Quando começo a sentir-me inchado, olho para o Ringo e fico perfeitamente ciente de que não somos super-homens.

Que acham vocês de um night club, “Arthur”,cujo nome é o mesmo do vosso penteado?
George: Eu fiquei orgulhoso – até que vi o night club.

Vocês ficam ressentidos por as fãs rasgarem os vossos lençóis como recordação?
Ringo: Não, não me importo. Desde que eu não esteja neles enquanto elas os rasgam.

BBC: Os franceses ainda não se decidiram acerca dos Beatles. Que pensam vocês deles?
John: Oh, nós gostamos dos Beatles. São bestiais.

Vocês gostam de fatos de banho topless?
Ringo: Aos anos que nós os usamos!

Ficaram preocupados com os rufiões altíssimos que tentaram infiltrar-se na multidão do aeroporto à vossa chegada?
Ringo: Esses éramos nós!

Que farão quando a Beatlemania amainar?
John: Contar o dinheiro.

Alguma vez aceitariam uma rapariga no vosso grupo se ela soubesse cantar, tocar um instrumento e usar o penteado Beatle?
Ringo: Quanto é que ela mede?

Quem inventou o nome Beatles?
Paul: Eu.
Porquê?
Paul: Porque não?



Vocês não estão cansados de toda esta mistificação? Não preferiam sentar-se sobre as vossas recheadas carteiras?
Paul: Quando nos cansamos tiramos férias recheadas à custa das nossas recheadas carteiras.

Porque é que vocês foram recusados pela Imigração?
John: Tivemos de ser despiolhados.

Vocês preocupam-se por fumar em público? Não pensam que será um mau exemplo para os vossos fãs mais novos?
George: Nós não damos exemplos. Fumamos porque sempre fumámos. Os miúdos não fumam porque nós fumamos. Fumam porque querem. Se nós mudássemos estaríamos a ser falsos.
Ringo (segredando): Nós até bebemos!

Quem é que os Beatles gostariam de conhecer mais do que ninguém no mundo?
Ringo: O verdadeiro Pai Natal.

Paul, tu pareces-te com o meu filho.
Paul: Tu não te pareces nada com a minha mãe.

A vossa popularidade começa a diminuir?
Paul: Concordo que a nossa popularidade atingiu um cume. Mas também concordei com um homem que disse a mesma coisa no ano passado. E estávamos ambos errados.

Falas francês?
Paul: Non.

É verdade que nenhum de vocês sabe ler ou escrever música?
Paul: Nenhum de nós sabe ler ou escrever música. A maneira como trabalhamos é assim, nós assobiamos. O John assobia para mim e eu assobio para ele.

Têm algum conselho especial para dar aos adolescentes?
John: Não apanhem acne.

Se eras mau em matemática como é que contas todo o dinheiro que ganhas?
John: Eu não o conto. Peso-o.

É verdade que usaram uma palavra de quatro letras para os turistas nas Bahamas?
John: O que nós dissemos mesmo foi “Céus!”
Paul: Também podemos ter dito “Credo!”
John: Não podemos ter dito isso, Paul. Mais do que quatro letras.

Desculpem interromper enquanto comem, mas que pensam que estarão a fazer dentro de cinco anos quando isto tudo acabar?
Ringo: Ainda a comer.

Que pensam da afirmação do leader duma banda, Ray block, que diz que os Beatles não durarão um ano?
John: Provavelmente duraremos mais do que Ray Block.

Porque é que foram os Beatles, e não duzentos outros grupos, que tiveram êxito?
Ringo: Às vezes também tento ver se percebo isso.

Porque é que os quatro Beatles não cantam nunca todos juntos?
George: Bem, pelo menos tentamos começar juntos.

És um mod ou um rocker?
John: Sou um mocker (gozão).

O sucesso estragou os Beatles?
Paul: A melhor coisa quanto a isso é que se deixa de ter grandes preocupações quando se tem o que nós temos – só pequeninas, como se o nosso avião se vai despenhar ou não.

O que é que planeiam fazer depois disto?
Ringo: O que é que há mais para fazer?

Que desculpa têm para esse cabelo comprido até aos colarinhos?
John: Bem,é que nos cresce da cabeça para fora.

Qual de vocês é mesmo careca?
George: Somos todos carecas. E eu sou surdo-mudo.

Quem vos penteia quando estão em Paris?
John: Ninguém nos penteia quando estamos em Londres.
Mas de onde vieram esses penteados?
John:
Você quer dizer despenteados.

Vocês usam perucas?
John: Se usamos, devem ser as únicas com caspa verdadeira.

Que pensam dos adolescentes que vos imitam a usar perucas Beatle?
John: Não nos estão a imitar porque nós não usamos perucas Beatle.

Vocês usam perucas ou cabelo verdadeiro?
George: O nosso cabelo é verdadeiro. E o seu, minha senhora?

O vosso cabelo necessita de alguma atenção especial?
John: Desatenção é o principal.

Qual é a maior ameaça às vossas carreiras, a bomba atómica ou a caspa?
Ringo: A bomba atómica. Caspa já nós temos.

Ringo, porque usas dois anéis em cada mão?
Ringo: Porque não consigo enfiá-los no meu nariz.

Paul, qual foi a canção mais curta que composeste?
Paul: 65 cm.

John, como está o teu pai e o seu cavalo de corrida? O cavalo já ganhou alguma corrida?
John: O cavalo ganhou uma corrida e o meu pai ganhou outra – venceu o cavalo.

George: Lembras-te daquela casa em que ficámos em Harlech?
Paul: Não. Qual delas?
George: Lembras-te sim! Havia uma mulher que tinha um cão sem pernas. Ela costumava levá-lo a dar um deslize pela manhã.

Durante o Royal Command Variety Performance no Teatro Prince of Wales em Piccadilly Circus com a Raínha Mãe e a Princesa Margarida presentes…
John: No próximo número quero que se juntem a nós. Aqueles que estão nos lugares baratos batam palmas. Os restantes podem fazer chocalhar as jóias.

No primeiro encontro com o manager Brian Epstein na NEMS, Paul não compareceu à hora marcada e George foi telefonar-lhe a saber o que se passava. Após o telefonema, explicou que Paul acabara de se levantar e estava a tomar banho.
Brian Epstein
: Mas isto é uma desgraça! Ele vai chegar muito atrasado!
George: E muito limpo!

No primeiro encontro com o produtor George Martin nos estúdios da Abbey Road...
George Martin: Digam-me, por favor, se há alguma coisa que não vos agrade.
George: Bem, para começar, não gosto da sua gravata.

Quando se encontraram com Jayne Mansfield, que era excepcionalmente bem dotada de peito, ela pegou no cabelo de George e perguntou:
- É verdadeiro?
George baixou o olhar e inquiriu:
- São verdadeiras?

Dirigndo-se às fãs…
Ringo
: E para que não comece toda a gente a escrever montes de cartas a perguntar acerca os emblemas que se vêem a serem usados por nós quando estávamos no palco, deixem-me dar-vos a resposta antes que façam a pergunta – são emblemas Wells Fargo Agent genuínos. Ofereceram-nos quando íamos para um concerto num camião Fargo. O John pôs o dele na parte de trás do boné.
John: Não senhor. Eu tinha era posto a minha cabeça de trás para a frente nesse dia.

Dirigindo-se à audiência em Nova Orleães…
John: Gostaríamos que agora se juntassem a nós – quer dizer, aquelas de entre vocês que ainda estiverem vivas.

Acerca do seu primeiro livro, “In His Own Write”
John: As pessoas tanto se fartaram de dizer que eu estava a copiar o James Joyce que decidi lê-lo. Foi fantástico. Levei meio dia a ler meio capítulo mas foi como encontrar o papá.

Quando o avião em que se encontravam ameaçava cair…
John: Nada a temer, rapazes! O avião só tem cinquenta anos!

Sobre a digressão na Suécia…
Richard Lester: Gostaste da Suécia?
John: Era um quarto e um quarto e um carro e um quarto e um quarto e um carro…

Após ter saltado para a piscina de um hotel, vestido apenas com uma camisola…John: Tragam-me uma gravata que me sinto nú!

1994

Sunday, October 15, 2006


AGUARELA
POEMAS



O SAMURAI


Quero dizer que o coração
era uma espada pelas estradas
do Japão o dia o proibia
pelas estradas do Japão até ao nada

e nos campos de batalha é que sonhava; e não falava
para não ferir o ar não tinha ouro,
cavalo ou senhor, só tinha a espada
e só à espada pertencia e ao sonho
a que servia; quero dizer à sábia árvore
em cuja pouca sombra a morte se recosta,
quero dizer, foi este o samurai que só eu vi
num dia ilegal daquelas ilhas.

oh! Terrível, como um abismo!
Selvagem, como a ventania!
Assombrado, como um dragão!

Não quero dizer que gravara
um samurai no coração
e que o gravara
na quotidiana dor
de respirar quero dizer
o seu sonho era tão grande que cegava.


21.2.93




O CAVALEIRO DA FORTUNA


Vinha de ilhas perdidas,
caminhava sempre
em planos de fundo
e afundava as mãos em tesouros,
em perpétua demanda
de uma coisa remota e incerta
que já não nomeia a humanidade, e julga vã.

Sendo jovem
recordava idades muito antigas,
quando súbitas feras
se apoderaram da fala
e nas árvores nas estátuas e nas fontes
morava uma alma
e as coisas várias abrigavam
um sentido.

Com frequência esquecia
os homens,
e caminhava.
Caminhava sempre
em translacção
ao destroçado planeta.
Por vezes quedava-se
ao relento e à escuta
da respiração primeira.

Como um sonhador a cavalo,
no seu olhar descia
a noite inteira;
e a ferida do peito,
a galope,
desabava,
aberta,
sobre a tempestade
e o esplendor
do universo.


Pequim,
12.12.90




ah! os aviões que partem de mim...
gostaria de saber
instantâneamente

tudo.
sobre o que fica longe
fica perto
o pão primitivo cereais
com vénias à fuga
dos ventos.

os domínios da noite
a perturbação
dos lobisomens nas cinzas as tribos
no descanso aparente das armas e dos ossos.
E o tarot nas mãos, e na mesa.
Mais,
as inumeráveis ciências
observando
classificando
e medindo o ritual
da morte.
A morte,
usa pequenas águias degoladas
dependuradas
ao pescoço.

Segue-se a lanterna gigante
no calendário entre lume e gelo das cozinhas.
É a hora do dragão
num qualquer
país vincado ao mapa.
Rastejam então as bruxas em entre-instantes
em valas medievais
em tempos expulsos
da geometria dos homens que avançam
por entre vigílias de símbolos.
Os homens só vêem os gritos só
o chicote
dizem aos filhos
em refúgio
nos alarmados olhos das osgas:
"podeis caminhar
por toda esta enorme casa
e nela fazer
tudo o que quiserdes.
No entanto, prestai atenção:
não abrireis nunca esta porta.
Para além dela jaz
um terrível segredo -
um segredo todo ele negro todo ele baço.
E quem a abrir
nunca mais por ela sairá."
As crianças dormem
no suspiro das mães infinitas...
e o tarot move
as mãos a tarântula
move castelos
agarrando-se a penhascos move
o contorno da memória.

As máquinas, a produção,
passos, teorias,
as pessoas avisando
a sua chegada;
à lava inconscientes
aos subterrâneos violentos
nas artes do fogo que pulsam
e tramam a paz.

É a exaltação do dia
e há menos uma ave em detrimento
na falésia
menos um índio
mais uma voz;
há a fala a traição
em que se cria a estatística
da exacta frequência de som das mais
cruéis palavras.
É a Terra e é o homem.
E tudo é fascinante e para além disso
o espaço.



16.10.84

Monday, October 02, 2006


FOTOGRAFIA

FILOSOFIA

Tradução directa do chinês do argumento “Cavalo branco" é diferente de "cavalo” (Bai Ma Lun) de Gong Sun Long, membro da escola dos lógicos da Filosofia chinesa. Gong Sun Long viveu no Período Dos Reinos Combatentes, séc. III a. C.



DISCUSSÃO SOBRE CAVALOS BRANCOS



Pintura chinesa


Interlocutor- Pode dizer-se que "cavalo branco" é diferente de "cavalo"?
Gong Sun Long- Pode.
I- Porquê?
GSL- A palavra "cavalo" designa uma forma. A palavra "branco" designa uma cor. Uma palavra que designa uma cor é diferente de uma palavra que designa uma forma. Por isso se diz que "cavalo branco" é diferente de "cavalo".
I- Mas, se existem cavalos brancos, não se pode dizer que não existem cavalos. Se não se pode dizer que não existem cavalos, então como é que é diferente de "cavalos"? Se, existindo cavalos brancos, logo, existem cavalos, então como é que "cavalo branco" é diferente de "cavalo"?
GSL- Se o que se pretende são cavalos, os cavalos baios ou negros podem ser incluídos. Mas, se o que se pretende são cavalos brancos, os cavalos baios ou negros não podem ser incluídos. Se "cavalos brancos" fosse o mesmo que "cavalos", ambas as pretensões seriam iguais. No caso de ambas as pretensões serem iguais, não haveria diferença entre "brancos" e "cavalos". No caso de ambas as pretensões não serem diferentes, como explicar que cavalos baios ou negros ora possam ser incluídos, ora não possam ser incluídos? É óbvio que poder e não poder não são idênticos um ao outro. Por isso, e uma vez que, se existem cavalos baios ou negros, se pode concluir que existem cavalos mas não se pode concluir que existem cavalos brancos, é claro que "cavalo branco" é diferente de "cavalo"!
I- Dizes que "cavalos com cor" é diferente de "cavalos" mas, neste mundo, não existem cavalos sem cor. Poderá dizer-se então que, neste mundo, não existem cavalos?
GSL- Por natureza, os cavalos têm cor e por isso é que existem cavalos brancos. Se os cavalos não tivessem cor, então só existiriam cavalos; como poderiam existir cavalos brancos? Mas "branco" não é "cavalo". "Cavalo branco" é a união de "cavalo" com "branco". Poderá a união de "cavalo" com "branco" ser ainda "cavalo"? Por isso digo que "cavalo branco" é diferente de "cavalo".
I- Nesse caso, só quando "cavalo" não se une a "branco" é que se trata de cavalo, e só quando "branco" não se une a "cavalo" é que se trata de branco. Quando "cavalo" e "branco" se unem, há que designá-lo como "cavalo branco". Isto é utilizar palavras que não se unem uma à outra para designar uma coisa una, o que não pode ser. Por isso, não se pode dizer que "cavalo branco" é diferente de "cavalo".
GSL- Dizes que, se existem cavalos brancos, então existem cavalos. E poderá dizer-se que, se existem cavalos brancos, então existem cavalos baios?
I- Não pode.
GSL- Agora dizes que existirem cavalos é diferente de existirem cavalos baios. Isto é criar uma diferença entre cavalos baios e cavalos. Ora, criar uma diferença entre cavalos baios e cavalos é concluir que "cavalos baio" é diferente de "cavalo". Concluir que "cavalo baio" é diferente de "cavalo", mas manter que "cavalo branco" é o mesmo que "cavalo" é, na verdade, uma argumentação confusa e contraditória, como "voando no céu o pássaro penetra no lago" e "o caixão interior e o caixão exterior estão em casas diferentes"[1].
Afirmar que, se existem cavalos brancos, se pode dizer que existem cavalos é um modo de falar que ignora o branco. Se não ignorasse, então, existindo cavalos brancos não se pode dizer que existem cavalos. Assim, se existem cavalos, é só porque, existindo cavalos, então existem cavalos, não é porque, existindo cavalos brancos, então existem cavalos. Por isso se pode dizer que existem cavalos, mas não se pode chamá-los "cavalos brancos".
O problema "o branco que não se une a nada é que é branco", pode ser posto de parte. Em "cavalo branco" fala-se de um branco que já está unido. O branco que já está unido é diferente do "branco"(brancura). "Cavalos" não tem a estipulação da cor, por isso, baios ou pretos podem ser incluídos. Mas "cavalos brancos" tem a estipulação da cor e, por isso, cavalos baios ou pretos foram excluídos e só os cavalos brancos podem ser incluídos. O que tem a estipulação da cor não é igual ao que não a tem, por isso digo que "cavalo branco" é diferente de "cavalo".



[1]Na China Antiga, para cada cadáver, era costume utilizarem-se dois caixões, um exterior e um interior.


1996

FOTOGRAFIA

Saturday, September 30, 2006

POEMAS



Destes dias dir-se-ia: esterilizados.
Clara é a sua dependência da fidelidade dos
computadores da
gentil presença dos computadores.
O seu descontrolo imagino se
alguém o subscrevesse que imagens
o espanto das repúblicas indefesas.

"Irreal impossivelmente real" este
filme não recorda o vivo
écran, a súbita luz da penumbra
das tâmaras caindo doces caindo
sobre óbvias mesas.
Cessará o choque do passado quando
nas logo primeiras páginas dos
livros, esses velados, "Natal '74"?

E estas estátuas, o riso delas
estes tótems a alta troça dos pássaros
sem porquê os suponho cúmplices
das levitantes pipocas tão
cósmicas curtas crateras que vão
relembram lugares lunares resíduos
esquecidos pregões o triunfo
dos dinossauros escancarados.

Além disso a víbora se torce
retorce-se
na espinal medula tenta
olhos já de si cheios daquilo em que
descuidados aterraram durante todos estes anos
Entre almas penadas vegetava um assassino
as sombras onde a certas horas se espreitam
prévias vidas no silêncio.

Por vezes rápidas se impõem
as persianas estalam
no chão estalam - são
estreita vigia o arqueiro um
alarme muito
estranhamente aberto são
matizes medievais
a contenção atenta das flechas.

Após tudo voaremos enfim em
estilhaços, pó, transmigrações,
não surpreende a tal separação
é um papel de arroz
é delicada como um papel de arroz nas
mãos, belas mãos do oriente na auréola do sol.
Diremos era a vida olharemos
para trás era o efémero (es)pasmo.

De nada serve é vã
a máquina minuciosa dos gestos a
irritação das fibras as susceptíveis harpas.
São mudos os nervos a voz
é a (insufi)ciência atroz
das palavras dos homens.
Bem gritam eles mas -
sós no espaço -
Ninguém ouve.


26.6.84






Se na minha direcção
rodares as tuas horas em
ténues peregrinações, olhos de lenda,
talvez um sinal pelas minhas
concentradas cartilagens
magro se filtre; talvez eu páre
em segundos-escuta de lavrar
os firmamentos.

Daqui se desprende uma
certa labareda críptica e
o astro, diria que
não ousara nunca ser tão
inflamado; as crianças, vê,
derretem-se e os homens
- os construtores de paredes - páram
nas pálidas veredas do medo.

Pelas gazuas secretas
rodopiantes, obsessivas,
concebo ágeis pensamentos
incrédulos nos novos instantes;
permitem este bloqueio
da beleza, e como faz
barulho na cabeça como
se transplanta se penetra

Penetra e consinto porque
nasci já sendo qualquer
coisa indomável. Brota
esta vontade ingrata de
recitar uma cor; a da
sagrada lava que é
a do sangue que é
entre todas a que é mais cor.

Transfiro-me para as gares
em ferro enormes, gonzos, portões
e os ventos são comboios
"os comboios são assobios negros".
De aviões inexpugnáveis vou
amá-los, anotar as
coincidências dentre elas
as mais difíceis nas órbitas.

Estão em prodígio de
dissolução metamorfoseada
àquela altitude não
mais do que aparente e
os átomos em selectas
avenidas em metal emanam
de quando em quando
fugas de luz.

Repara nelas, nas
fugas de luz tão
sem-remédio e a morte,
por isso os pôs em
lamelas de cinza as suas parcas
peles; há um disco lá-dentro
que rasga uma música arrepia
abafada assim pelo tórax.

Veio de um feiticeiro
inquieto na sua clava
aborígene; não há notas
para ela, as pautas
recusam-se, também
não há pautas não
são precisas pautas
não prestam, as pautas.

Não há muita coisa as
palavras, por exemplo, nem
nunca foram necessárias
tem falsas maneiras
a expressão; já nada
se diz por outra coisa
não há dizer ou silêncio
a música em breve será extinta.

Nem silêncio ou música nem
sombras-grilhões amarrados
às extremidades; aprendo agora
a outra dimensão o
domínio dos objectos,
o verdadeiro, aquele que é
despojado e sem-toque;
por isso esquece a gravidade.

Vem leve e cai como um deus
naquela queda muito lenta
sobre o chão sem água ou sede
seco quando atravessam mensagens
em águias e eu não
pisarei o teu esbelto devaneio;
não existe sequer o devaneio
só existe o íntimo pulsar.



15.7.84






Toca-se e gelam
os postes de iluminação pública
soam e riem-se agora através
dos fios mais longos.
É um hábito viver
lado-a-lado nas dobras transparentes
dos mantos ancestrais de uma tragédia,
as placas "PERIGO DE MORTE" -
segregam esconderijos.

Tornou-se mais vívida a visão
das caixas cósmicas, as coisas
cabem dentro umas das outras,
não se pode abri-las,
fechá-las ou abri-las.
Que resposta (a)guardam
os excelentes povoadores, os pioneiros
do tempo do espaço?
observam este fluir, fluem.

Esquartejando a neblina
atmosférica, o pássaro proibido
não deixa pista alguma -
quem disca na tarde os números
e os telefones estridentes em casas
abandonadas? isto não é
mar nenhum é o fogo
o fósforo misturado
com a pele única.

Esqueci vários gestos talvez
não os chegasse a decorar
nunca. Como é possível
amar o que tem tamanho?
nos círculos a faca estreitos
dos negros buracos estereofónicos
o que neles os ultrapassa,
deste modo sempre
o que me chega.

Às ondas eléctricas
me encosto, esguichos
dos celestes corpos.
P'rá 'li está à toa um
bicho qualquer desconhecido
nestes sons apenas vagamente
suspeitos a microscópios
já muito elaborados
e muito hábeis nas curvas.
Os homens escorrem a vergonha
nas pálpebras dos prédios
e, no entanto, quem não sabe
o sabor das tintas sob os cortinados
o cimento sob as tintas
as mornas madeiras, as suas
sestas no âmago da noite?
Frases do vida-a-vida pequenas:
esvoaçam.


1.8.84

Friday, September 29, 2006



AGUARELA

Friday, June 02, 2006

CIÊNCIA

TEXTO DA EXPOSIÇÃO ALUSIVA A 2005 - ANO MUNDIAL DA FÍSICA - REALIZADA NUMA ESCOLA EM FEVEREIRO DESSE ANO (para além do simples objectivo de comemorar o Ano Mundial da Física, a referida exposição visou também constituir-se como complemento à imprescindível cultura científica básica que qualquer estudante de Filosofia deverá exibir, com particular relevância para os estudantes do 11º ano, uma vez que a unidade 3 do Programa de Filosofia é precisamente dedicada ao estatuto do conhecimento científico. A Exposição em causa constava ainda de diversos desenhos ilustrativos a pastel de óleo e outro material iconográfico).

“O tamanho e a idade do Cosmos ultrapassa a comum compreensão humana. Perdida algures entre a imensidão e a eternidade fica a nossa minúscula casa planetária. Numa perspectiva cósmica, a maioria dos interesses humanos parece insignificante, até mesquinha. E todavia, a nossa espécie é jovem, curiosa e mostra-se promissora. Nos últimos milénios, fizemos as mais surpreendentes e inesperadas descobertas sobre o Cosmos e o lugar que ocupamos. Estas descobertas recordam-nos que os homens evoluíram para descobrir que o conhecimento é um prazer, que o saber é uma condição indispensável à sobrevivência.” (Carl Sagan )


Estrelas, pó e nebulosa


Beatriz – Sabias que este ano de 2005 é o Ano Mundial da Física?
Dinis – A sério? Por alguma razão especial?
Beatriz – Faz cem anos que Albert Einstein publicou os seus primeiros papéis sobre a Teoria da Relatividade.
Dinis – Einstein deve ser a maior “estrela” do mundo científico! Já reparaste que nas lojas que vendem posters , há sempre um do Einstein ao lado dos das “estrelas” pop?
Beatriz – E era da nossa idade, 16, 17 anos, quando começou a congeminar as ideias que viriam a revolucionar toda a nossa maneira de encarar o universo!
Dinis – Bem, estou a ver que tenho andado a perder o meu tempo...
Beatriz – Ele nasceu na Alemanha, a 14 de Março de 1879, mas cresceu em Munique. Em adolescente, já usava o cabelo um pouco comprido, como tu, e reprovou no liceu. Sempre foi um excelente aluno a matemática, mas houve professores que lhe disseram que nunca conseguiria ser alguém e que as suas perguntas prejudicavam a disciplina da aula! Aconselharam-no a abandonar o liceu!
Dinis – Olha lá a pontaria dos professores! Que falta de visão! Claro! Agora percebo! A minha turma deve estar cheiinha de génios incompreendidos!
Beatriz – Ninguém vaticinaria um futuro brilhante ao bebé Albert Einstein. Só começou a falar depois dos três anos.


Einstein aos 4 anos




Mas estava ali a formar-se uma mente verdadeiramente cósmica! Com a nossa idade, leu uma obra de divulgação científica. Na primeira página, era referida a espantosa velocidade da electricidade através dos fios e da luz do espaço. Depois de ter reprovado, o rapaz, que então caminhava a pé pelos campos do norte da Itália, começou a imaginar como seria se pudesse viajar à velocidade da luz. Como veria o mundo se isso pudesse acontecer? E eis o gérmen da sua Teoria da Relatividade. Mas isso foi anos antes da publicação dos papéis. Primeiro, foi para Zurique e tirou um curso de quatro anos para se tornar professor de ciências num liceu. Dois anos depois de concluído o curso, empregou-se na repartição de registo de patentes da Suíça onde trabalhou durante sete anos. E foi nesse cenário que criou a Teoria da Relatividade, no ano mágico de 1905.
Dinis – E=mc2. Também deve ser a “estrela” do mundo das equações!
Beatriz – Sim, toda a gente a conhece. Mas poucos compreendem o seu significado...
Dinis – Deixa ver se eu sei. E significa energia, m significa massa e c2 é a velocidade da luz elevada ao quadrado. O que a equação postula é que massa e energia têm uma equivalência, certo? São duas formas da mesma coisa. A energia é matéria libertada. A matéria é energia à espera de acontecer. E c2, sendo a velocidade da luz multiplicada por si própria, traduz um número imensíssimo – conclui-se que existe uma quantidade colossal de energia aprisionada em todas as coisas materiais.
Beatriz – É isso mesmo! Calcula tu que um adulto com uma altura mediana contém, na sua estrutura, 7x10 (dez seguido de dezoito zeros) joules de energia potencial. E isso é o suficiente para explodir com uma força equivalente a 30 enormes bombas de hidrogénio!
Dinis – Livra! Ainda bem que os homens-bomba não percebem nada de física!
Beatriz – De pouco lhes serviria, por enquanto. Ainda não se descobriu a maneira de libertar toda essa energia. A coisa mais energética que já produzimos foi a bomba de urânio, que liberta menos de 1% da energia que poderia libertar se estivéssemos mais avançados nesse campo.
Dinis – Pergunto-me a mim mesmo que consequências isso trará ao nosso mundo...
Beatriz – Com a sua fórmula, Einstein explicou de um só golpe como é que as estrelas podem arder durante biliões de anos sem consumir o seu combustível e revelou que a velocidade da luz é insuperável.
Dinis – Imagino o êxito retumbante dos seus artigos!
Beatriz – Estás enganado. Não te esqueças que ele era ‘apenas’ um empregado do registo das patentes. Os outros físicos não lhe prestaram grande atenção e, no entanto, o tal empregado acabara de resolver vários dos mais abstrusos mistérios do universo. Einstein candidatou-se a um lugar de leitor numa universidade mas...
Dinis – Não me digas que foi rejeitado?

O jovem Einstein


Beatriz – E foi mesmo! Então tentou ser professor de liceu e ... foi rejeitado de novo! Que fazer? Voltou ao cargo de fiscal de 3ª classe. Mas não foi por isso que aquela maravilhosa cabeça parou de pensar! Passou a ocupar-se do seguinte problema: o que sucederia se algo em movimento, digamos, a luz, encontrasse um obstáculo como a gravidade? A sua investigação resultou na Teoria Geral da Relatividade. Muitos a consideram, como produto de uma única mente, a maior realização intelectual da humanidade.
Dinis- Que elogio!
Beatriz – A obscuridade daquele homenzinho genial e modesto, sempre com o cabelo no ar, estava a terminar. Com o fim da 1ª Grande Guerra, o mundo descobriu a Teoria da Relatividade e o seu autor. Mas claro que continuamos sem perceber grande coisa dela.
Dinis – Também me parece difícil de entender. Explica lá tu então naquilo em que consiste.
Beatriz – A dificuldade na compreensão da Teoria da Relatividade reside na necessidade de total exclusão do conhecimento intuitivo. Não se vai lá por intuição, percebes? Na sua essência, estipula que o espaço e o tempo não são absolutos, mas relativos ao observador e à coisa observada. E que, quanto mais rápido for o nosso movimento, mais pronunciados se tornam esses efeitos. O nosso movimento não pode simplesmente ser acelerado até à velocidade da luz e, quanto mais tentamos, mais distorcidos ficaremos em relação a um observador exterior a nós.
Dinis – Isso não tem a ver com aquela história de dois gémeos, em que um fica na Terra e o outro empreende uma viagem espacial numa nave que se desloca quase à velocidade da luz, rumo a uma galáxia longínqua? No regresso da viagem, o gémeo que ficara em terra terá morrido há muito ou, pelo menos, será muito mais velho do que o gémeo que viajou no espaço. Para este último, passaram-se apenas uns três meses, para o outro, muitos anos.
Beatriz – Exactamente. Sabes que a Teoria da Relatividade pode ser testada em simples viagens de avião? O tempo atrasa. Se atravessarmos a Europa, ao sair do avião estamos um micro-segundo mais novos do que as pessoas que deixámos para trás. Os próprios relógios atrasam em relação aos delas.
Dinis – E há quem prefira o método das operações plásticas!
Beatriz – Essa é boa! Já estou a imaginar, as “tias” do futuro a fazerem viagens intergalácticas como método anti-rugas! Mas parece que estão com azar, pois viagens intergalácticas implicam numerosos problemas para o ser humano... as naves Voyager, que viajam a um décimo milionésimo da velocidade da luz, necessitam de 40 000 anos para percorrer a distância até à estrela mais próxima. Mas continuando... O filósofo Bertrand Russell, aquele que os nossos colegas do 12º ano andam a estudar, lembrou-se de uma imagem talvez mais fácil de entender. Visualiza um comboio de cem metros de comprimento a deslocar-se a uma velocidade equivalente a 60% da velocidade da luz. Se estivesses parado num cais, como julgas que o verias?
Dinis – Comprimido, como se tivesse menos uns vinte metros.
Beatriz – E se pudesses ouvir os passageiros a falar?
Dinis – As vozes todas arrastadas e confundidas.
Beatriz – Então agora, pensa lá. E o que se passaria para as pessoas que estivessem dentro do comboio?
Dinis – Para quem está dentro do comboio tudo está perfeitamente normal. Nada parece comprimido e as vozes chegam-nos da maneira habitual. Olha, o que parece esquisito é aquilo que se vê através da janela! Agora é isso que parece lento e arrastado.
Beatriz – Ora aí está! Tudo depende da posição do observador em relação ao objecto em movimento. Agora imagina as consequências de tudo isto a uma escala cósmica. As diferenças tornam-se brutais. A ideia menos intuitiva de todas é a de que o tempo faz parte do espaço. O tempo é variável, está em constante mudança e inextricavelmente interligado com as três dimensões do espaço – é a dimensão espaço-tempo. A nossa intuição leva-nos à crença errada de que o tempo é eterno, absoluto, imutável. E não é nada disso. Se viajarmos no espaço estamos a viajar no tempo.
Dinis – Mas essa visão das coisas implica que o tempo só exista aonde existe o espaço...
Beatriz – E é precisamente assim. Se realmente, como hoje muitos crêem, o universo teve origem no big-bang, o tempo também principiou aí. Segundo essa teoria o espaço-tempo começou no big-bang, nesse ponto matemático sem dimensões que gerou uma titânica explosão cósmica. Desde aí, o universo encontra-se em expansão, as galáxias afastando-se umas das outras.
Dinis – Mas então o que havia dantes? Antes do big-bang?


A história do Universo


Beatriz – Essa pergunta não faz sentido. A palavra “dantes” refere-se ao tempo e o tempo surgiu com o big-bang.
Dinis – No princípio era o nada. E explodiu no universo! É isto?
Beatriz – É isso. Só que essa frase...
Dinis – Já sei. Não posso dizer “no princípio” – o tempo não existia antes do universo.
Beatriz – Bingo! O tempo faz parte do universo. Este não ocupa um espaço nem se insere num tempo. O universo é o espaço-tempo e a matéria. Assim, talvez se possa dizer apenas “explodiu!” e mesmo isso levanta problemas, pois o verbo está a ser utilizado no passado e o big-bang é passado relativamente a nós e na perspectiva linear de tempo que o senso comum adopta. E o “nada” não “era”. O verbo “ser” não faz sentido aplicado em relação ao “nada”. Mas há que não esquecer que a teoria do big bang é uma teoria, ou nem isso, é especulação.
Dinis – “Porquê então o ser e não o nada?”, já perguntavam os filósofos Leibniz e Heidegger... Mas, para falar como um deles, direi que nos estamos a aproximar do inefável.
Beatriz – Primeiro teríamos de atravessar a barreira do invisível. O universo começou por ser opaco, pois era demasiado denso. A luz era imediatamente reabsorvida. Nunca veremos a origem do universo. Nenhuma luz chegará até nós. A nuvem de electrões à deriva impedia a sua passagem. Quando os electrões começaram a mover-se em volta dos núcleos foi quando os grãos de luz, os fotões, conseguiram abrir caminho. E o universo tornou-se transparente! Apenas a partir daí podemos ver os primeiros tempos do universo. Antes disso, a informação perdeu-se, como se toda uma biblioteca tivesse ardido... Mas, apesar de não se poder ver, a ciência aproxima-se cada vez mais de saber o que se passou desde o momento zero. E nessa tarefa se conjugam a física das partículas e a astrofísica. Existe, devido à nossa presente ignorância um muro, o muro de Planck, quando o universo era dez milhões de milhares de milhões de vezes mais pequeno do que um átomo de hidrogéneo. Só faremos desabar esse muro quando formos capazes de conciliar a mecânica quântica e a relatividade. Qual o comportamento da matéria e da luz a nível sub-atómico quando a gravidade se torna um factor importante? Não sabemos, mas é isso que acontece se recuarmos a esse momento primordial do universo. Este era tão minúsculo mas tão denso que a gravidade, habitualmente desprezível a nível da física das partículas se torna num elemento crucial.
Dinis – E a densidade provoca a opacidade?
Beatriz – Sim. E isso relaciona-se com a Teoria Geral da Relatividade de Einstein. Lembras-te da questão que o ocupou depois de ter regressado ao seu cargo de fiscal de 3ª classe? Que sucede se a luz encontra um obstáculo como a gravidade? Pois bem, a resposta é que a matéria curva o espaço e isso altera o curso da luz. O espaço-tempo é como um colchão maleável. Se lhe colocares em cima uma bola de ferro, o colchão estica-se e afunda-se. Deforma-se. Se fizeres rolar uma bola de pingue-pongue no colchão, ela será inevitavelmente atraída pela bola de ferro. No fundo é isso a gravidade, o resultado de uma concavidade no espaço-tempo. Matéria atrai matéria, dizia Newton. E como? Curvando o espaço, respondeu Einstein.
Dinis – Isso faz lembrar os buracos negros que existem no cosmos e de que tanto se fala.

Vento de um buraco negro

Beatriz – Lembras muito bem. A determinado passo das suas vidas, certas estrelas acabam por se contrair. A força da gravidade aumenta rapidamente até um ponto em que nem a luz passa. Um buraco negro suga tudo, até a luz. A contracção prossegue até ao tamanho de um micróbio e depois até distâncias ainda menores, distâncias tão curtas que nunca foram dadas ao Homem examinar. A gravidade é tão elevada que a luz fica fechada lá dentro. Por isso há físicos que defendem que, se se passar através do “buraco de verme” do buraco negro, do outro lado está um buraco branco. Outros vão mais longe: dizem que, se fosse possível sobrevivermos a ser sugados por um buraco negro, sairíamos ao mesmo tempo num buraco branco – e achar-nos-íamos no mesmo espaço mas noutro tempo, passado ou futuro; ou mesmo noutro universo. Porque pode ser que o big-bang seja um fenómeno corrente, que acontece de vez em quando. Nesse caso, haverá muitos universos, além do nosso.
Dinis – É demais!
Beatriz – São especulações engraçadas. Outra hipótese é a de que os universos se contêm uns aos outros como caixas menores dentro de caixas maiores. Se pudéssemos olhar para dentro de um átomo, veríamos um universo e o nosso universo seria um átomo de um universo muito maior. Também pode ser que tudo termine com o universo contraindo-se de novo até ao mesmo ponto primordial.
Dinis – Espantoso!
Beatriz – Mas voltando aos buracos negros... se houver tanta matéria negra (isto é, matéria tão densa que não deixa passar a luz, como os buracos) como se julga, o universo terá uma forma bem estranha, como que curvado sobre si próprio. Não se expandirá infinitamente, cada vez mais frio, morto e vazio.
Dinis – Forma do universo? Mas se tem uma forma o que fica para lá dos seus contornos?
Beatriz – Estás a incorrer num erro semelhante ao de há pouco, com a questão do big-bang. Essa pergunta não faz sentido. O espaço só existe com o universo. Não podes usar a expressão “para lá” a não ser referindo-te ao universo. E o verbo “ficar” também só faz sentido para o universo.
Dinis – Já percebi. O melhor é estar calado.
Beatriz – E, de igual modo, ao inefável antecipa-se o invisível. Dos biliões e biliões de galáxias do universo em contínuo afastamento umas das outras, nunca poderemos chegar a ver as mais afastadas. Estão tão longe que a sua imagem teria de viajar a uma velocidade superior à da luz para alguma vez chegar até nós. Para além de certa distância, nada se vê. A luz viaja a uma velocidade de caracol relativamente às dimensões gigantescas do espaço.
Dinis – Que frustração! Se olharmos para o princípio, acabamos por deparar com as trevas. Se olhamos para o fim, acabamos por nos deparar na mesma com as trevas.

A Cruz de Einstein

Beatriz – É irritante, não é? Mas são especulações, não é a verdade numa bandeja de prata! Não há dúvida, porém, somos filhos da luz e feitos da mesma matéria com que são feitas as estrelas. Mas, quem sabe? A humanidade tem vencido muitas das suas frustrações através da criatividade e da perseverança. Vê as contribuições de Einstein para o aumento do conhecimento humano. Não só mudou radicalmente a nossa visão do infinitamente grande, como também modificou a nossa visão do infinitamente pequeno, nos seus artigos de 1905. Um versava sobre a Teoria da Relatividade e outro apresentava uma nova perspectiva no modo de ver a radiação electromagnética. Essa maneira de ver tornar-se-ia característica da física quântica, a física que se ocupa dos estranhíssimos fenómenos atómicos! Einstein, no entanto, iria ter sérios problemas em aceitar as implicações da física quântica. A Teoria da Relatividade foi construída por ele mas a teoria quântica completa só seria resolvida nos maravilhosos anos vinte – vinte anos mais tarde – por toda uma equipa de cientistas europeus. Ambas as teorias, porém, deram um golpe terrível em todos os principais conceitos da visão newtoniana do mundo...
Dinis – Estou a ver, a física clássica e os seus grandes “gurus”, Galileu, Descartes e Newton, sofreram um abalo de que nunca mais se recompuseram...
Beatriz – É verdade. Mas, atenção, a física clássica continua a funcionar no nível da zona de média dimensão, ou seja, o domínio da nossa experiência quotidiana. A nível cósmico e atómico é que se revela inadequada. Como vimos, a noção de espaço e tempo absolutos foi aniquilada. Mas igualmente a noção de partículas sólidas elementares; a natureza estritamente causal dos fenómenos físicos; o ideal de uma descrição objectiva da natureza... A física quântica abalou tudo isso. Foi uma grande revolução científica e Einstein deixou a sua marca genial em todas as frentes. Nunca mais nada foi igual.
Dinis – Podemos então dizer que este é o 126º ano d. E.!

O incomparável Einstein

Beatriz – É isso! A visão mecânica da física clássica era baseada na noção de corpos sólidos movendo-se no espaço vazio. Ambos os conceitos – o de espaço vazio e o de corpos de matéria sólida – estão profundamente entranhados nos nossos hábitos de pensamento. Ora, eles não se aplicam quando ultrapassamos a dimensão média e penetramos na dimensão sub-atómica. O diâmetro de um átomo é tão pequeno que se torna impossível sequer de imaginar: uma centésima milionésima parte de um milionésimo de centímetro. Para ver o núcleo de um átomo do tamanho de um grão de sal, teríamos de ampliar todo o átomo até ao tamanho da catedral de São Pedro, em Roma!
Dinis – Inimaginável, de facto. E os electrões?
Beatriz – Seriam nuvens de poeira rodopiando em redor do núcleo no vasto espaço da cúpula. Nunca ninguém viu um electrão. Apenas podemos ver o seu rasto, por exemplo, numa chapa fotográfica. Aliás, um electrão não existe realmente. Um electrão “tende a existir”, postula a física quântica.
Dinis – Que estranho! Explica lá isso por miúdos.
Beatriz – É mesmo muito estranho, o mundo sub-atómico. Quando esse nível começou a ser explorado, a natureza respondia às experiências dos físicos com paradoxos inesperados. Os cientistas tiveram de se adaptar a ele, modificando por completo a sua visão das coisas. Tiveram de aceitar toda essa estranheza, de adoptar um novo espírito, o espírito da teoria quântica.
Dinis – Deve ser de loucos!
Beatriz – Talvez por nos parecer louco é que o universo também nos parece tão interessante. Mas o nível sub-atómico obriga a uma espécie de expansão da consciência. As experiências do grande Ernest Rutherford mostraram que o átomo, ao invés de ser sólido e indestrutível, consiste em vastas regiões de espaço no qual partículas extremamente pequenas se movem. E chega a teoria quântica e torna claro que essas partículas não têm, além disso, relação alguma com os objectos sólidos da física clássica.

Ernest Rutherford

Dinis – Então?
Beatriz – As unidades sub-atómicas de matéria são entidades 'abstractas' e têm um duplo aspecto. Dependendo de como as perspectivamos, aparecem ora como partículas, ora como ondas. O mesmo sucede com a luz, como já vira Einstein audaciosamente num dos seus artigos de 1905.
Dinis – Espera lá! Depende de como as perspectivamos? Isso não significa que o observador influencia a coisa observada?
Beatriz – E de que maneira! Mas esta a interpretação ortodoxa da escola de Niels Bohr ou escola de Compenhaga. É uma interpretação. Mais uma vez, não é a verdade numa bandeja de prata. Existem físicos quânticos que pensam que a consciência humana é uma variável que tem de ser introduzida nas equações da teoria. O ideal de objectividade absoluta da ciência, para eles, ficou reduzido a pó. Tornou-se claro que teremos de nos contentar com uma intersubjectividade. Se fizermos todos a mesma pergunta, obteremos a mesma resposta. Mas essa resposta depende da pergunta que fazemos. Imagina como a mecânica quântica não fez com que os cientistas sentissem que o chão lhes fugia debaixo dos pés.
Dinis – E disseste que Einstein foi um dos que mais lhe resistiu.
Beatriz – É verdade. Einstein combateu tenazmente contra os resultados da interpretação bohriana da teoria quântica. Não conseguia aceitá-los. Foi a propósito dela que proferiu a sua famosa frase: “Deus não joga aos dados”. Mas, nesse campo, foi derrotado. A longo prazo, porém, talvez se verifique que tinha alguma razão. A teoria quântica de Bohr mostra-se extremamente eficaz na explicação do mundo sub-atómico.
Dinis – Que quis Einstein dizer com isso dos dados?
Beatriz – Já vais entender. É preciso muito esforço mental para conceber que uma coisa possa ser, simultaneamente, uma partícula – entidade limitada a um volume muito pequeno – e uma onda, que se espalha numa grande região do espaço. Todo o desenvolvimento começou quando Max Planck descobriu que a energia irradiada por um corpo quente não era emitida continuamente, mas antes sob a forma de “pacotes de energia”. Einstein designou estes pacotes por “quanta” e reconheceu-os como o aspecto fundamental da natureza. O quanta de luz, que deu o nome à teoria foi, daí em diante, aceite como partícula, hoje chamada fotão. Os fotões são muito especiais: não têm massa e viajam sempre à velocidade da luz.
Dinis – O sonho de Einstein aos 16 anos: ser um fotão!

Max Planck e Einstein


Beatriz – Ha! Ha! Sabes como foi resolvida essa aparente contradição entre onda e partícula? Através do conceito da realidade da matéria. A nível sub-atómico, segundo Bohr, a matéria não existe em certeza em lugares exactos, mas mostra apenas “tendência para existir”. E os acontecimentos atómicos não ocorrem com segurança em tempos e modos definidos, mas mostram “tendência para ocorrer”. No formalismo matemático da teoria quântica, estas tendências são expressas como probabilidades e são associadas com quantidades matemáticas que tomam a forma de ondas. Esta é a razão das partículas poderem ser ondas ao mesmo tempo. Não são “autênticas” ondas tridimensionais, como o som ou as ondas de água. São “ondas de probabilidade”, quantidades matemáticas abstractas com todas as propriedades características das ondas, que estão relacionadas com as probabilidades de encontrar as partículas em pontos particulares do espaço e em instantes determinados. Todas as leis da física atómica estão expressas nos termos destas probabilidades. Nunca podemos prever um acontecimento atómico com precisão. Podemos apenas dizer como é provável que aconteça. Há uma barreira epistemológica, segundo Bohr.
Dinis – Acho que é demais para mim...
Beatriz – Pelo contrário, Niels Bohr diria que significa que estás a começar a entender. Afirmou uma vez que, se uma pessoa não ficasse indignada com a teoria quântica quando ouvisse falar dela pela primeira vez, era porque nem sequer estava a perceber o que lhe estavam a dizer.
Dinis – Parece assim uma coisa... psicadélica! Alucinações provocadas por L.S.D.!
Beatriz – É muito melhor do que L.S.D. e igualmente viciante. É como disse o Richard Feynman, uma superstar dos físicos da segunda metade do séc. XX: “Numa escala pequena, a forma como as coisas se comportam não tem nada a ver com a forma como se comportam a uma grande escala”. O nível sub-atómico é uma área do universo que parece escapar ao nosso cérebro – não se sintonizar com ele. Por isso nos parece um mundo louco. Ouve mais esta. Mas não te esqueças que é uma interpretação, a ortodoxa. Existem outras interpretações, nomeadamente as da corrente de De Broglie, para as quais há aí demasiado delírio. Esta escola defende uma interpretação realista e objectiva dos fenómenos quânticos.
Dinis – Até já sinto os meus neurónios a estalar com a interpretação ortodoxa!
Beatriz – O estranho comportamento dos electrões estava a dar com os físicos europeus em doidos. Até que Werner Heisenberg apresentou uma solução de compromisso com o seu Princípio da Indeterminação. O princípio diz que, das duas uma, ou se consegue determinar o percurso que um electrão faz ao mover-se através do espaço ou conseguimos determinar onde ele se encontra. Não podemos saber as duas coisas ao mesmo tempo. Qualquer tentativa de medir um dos parâmetros perturbará inevitavelmente o outro. Ora, nós, para prevermos o futuro de um electrão, teríamos de saber ambas as coisas: onde está e para onde vai. Sendo isso impossível, não podemos fazer previsões, temos de nos contentar com probabilidades. E isto é uma propriedade imutável do universo.

Heisenberg


Dinis – Explica lá melhor.
Beatriz – Significa que, na prática, nunca se pode prever onde estará um electrão num determinado momento. Só se podem listar as probabilidades de ele estar ou não algures. Por outras palavras, até ser observado, um electrão deve ser considerado como estando “em todo o lado e em nenhum ao mesmo tempo”!
Dinis – Bem, agora é que os meus neurónios vão explodir!
Beatriz – E dessa explosão nascerá um novo universo!
Dinis – Ha! Ha! Ainda há mais coisas estranhas?
Beatriz – Muitas mais coisas maravilhosamente estranhas! O dinamarquês Niels Bohr explicou a maneira pela qual os electrões conseguem evitar ser absorvidos pelo núcleo, ocupando antes determinadas órbitas. Um electrão passa de uma órbita para outra, desaparecendo de uma e aparecendo instantaneamente noutra sem visitar o espaço entre elas!
Dinis – Meu Deus! Até faz lembrar “Alice no País das Maravilhas!”
Beatriz – O universo que habitamos é o País das Maravilhas! Essa estranhíssima ideia chama-se o “salto quântico”. E explica muito bem como os electrões não caem no núcleo, antes ocupando áreas definidas. Só têm “tendência para existir” nessas órbitas, por isso, apenas aí são detectados. E foi assim que Niels Bohr ganhou o Prémio Nobel da Física em 1922, um ano após Einstein ter ganhado o seu! Há quem conteste esta teoria – como disse Karl Popper, as teorias científicas sã sempre hipóteses destinadas a serem refutadas um dia . De facto, não te parece demasiado delirante? Hoje há quem defenda que o electrão não se comporta ora como onda ora como corpúsculo, de acordo com o que nele desejamos medir, mas é onda e corpúsculo a um tempo. Isto outorga-lhe uma objectividade impossível segundo a interpretação ortodoxa.

Niels Bohr

Dinis – Quero mais! Não garantiste que era viciante?
Beatriz – Pois aqui vai mais uma, talvez a mais bizarra das improbabilidades quânticas da interpretação ortodoxa. Certos pares de partículas sub-atómicas, mesmo estando separadas pelas maiores distâncias, como que “sabem” instantaneamente o que está a outra – a partícula irmã – a fazer. Têm uma propriedade conhecida por spin, como a ponta aguçada de um pião e giram sobre si. No momento em que se determina se o spin de uma está “para baixo”, por exemplo, a outra partícula, por mais distante que esteja, começa imediatamente a girar sobre si própria na direcção oposta – spin “para cima” – e à mesma velocidade!
Dinis – O quê? Isso parece telepatia!
Beatriz – Aplicaste a mesma palavra que Einstein. Agora percebes por que é que ele se sentiu tão descontente com a física quântica e lhe foi tão difícil aceitar que Deus jogasse aos dados? “Que Ele jogue aos dados e use métodos ‘telepáticos’, não acredito nem por um momento”, afirmou. Já viste as implicações? Que uma partícula ‘saiba’ instantaneamente o que a outra está a fazer nem que seja a triliões de quilómetros de distância?
Dinis – Já percebi! É mais rápido que a velocidade da luz!
Beatriz – Exactamente! Mas não há nada mais rápido do que a velocidade da luz, segundo a Teoria da Relatividade!
Dinis – Mas então? Sempre há?
Beatriz – Uma teoria explicativa é a de que os sistemas quânticos exibem um inesperado grau de união: a mera divisão espacial não os divide uns dos outros. Isto não constitui uma contradição flagrante com a regra de Einstein, segundo a qual os sinais não podem viajar a uma velocidade superior à da luz. É como se todo o universo estivesse misteriosamente presente em cada local e a cada instante do mundo. Como naqueles belíssimos versos de William Blake:

“Num grão de areia o mundo inteiro ver
E numa flor do campo o firmamento.
Todo o infinito na tua mão conter
E ter a eternidade num momento.”

Dinis – Que assombro!
Beatriz – Para Einstein, o mundo deveria ser totalmente inteligível. Passou a segunda metade da vida em vãs tentativas para eliminar o elemento de indeterminação postulado pela nova física que ele, ironicamente, tinha ajudado a criar...
Dinis – Mas, escuta lá! Já li não sei onde que os constituintes últimos da matéria, afinal, não são os electrões, protões e neutrões, mas os quarks.
Beatriz – Oh, isso é outra das estranhezas da física quântica. Veio mostrar que não há constituintes últimos da matéria. Não há nenhuma peçazinha de Lego primordial, um ‘bloco de construção’ básico.
Dinis – Então?
Beatriz – As partículas sub-atómicas – que são muitas mais do que aquelas que tenho vindo a referir, o grupo dos leptões, dos hadrões, cada qual com a sua anti-partícula, uma espécie de negativo de si própria... – não parece terem significado como entidades isoladas. Só podem ser entendidas como interconexões entre a preparação de uma experiência e a medição subsequente. Os objectos materiais sólidos da física clássica tornam-se nos modelos-onda de probabilidades e nem sequer de probabilidades de coisas, mas probabilidades de interconexões. E essas interconexões incluem sempre o observador de um modo essencial.

Mapa das partículas e suas interacções


Dinis – Então será que tudo é criação da mente, como nos diz o budismo, para os que crêem na interpretação ortodoxa da física quântica?
Beatriz – Uma corrente do budismo defende esse ponto de vista, mas a Doutrina do Grande Veículo (Mahayana) o que diz é que entre o mundo exterior e a consciência existe uma relação de interdependência e que, portanto, ambos - mundo exterior e consciência são vazios, no sentido de que não têm existência própria. São relações e pertencem a samsara, ao mundo ilusório. Há quem defenda que a teoria quântica ortodoxa se assemelha bastante às doutrinas místicas e espirituais, desenvolvidas sobretudo no Oriente, como o budismo, o taoísmo, o hinduísmo. Mas muitos cientistas (e budistas) rejeitam tal comparação. Para já, para os budistas, aquilo que chamamos o universo é desprovido de realidade intrínseca, como se não passasse de um sonho e o verdadeiro conhecimento não é o científico, mas o espiritual e ético.
E existem “místicos quânticos” que dizem coisas como “se ninguém olhar para um objecto sólido, por exemplo, uma mesa, durante biliões de anos, ela acabará por se desintegrar. Evaporar-se do mundo visível!” Há uma interconexão básica da matéria. A física quântica demonstraria que a energia do movimento se pode transformar em massa e que as partículas são processos, não objectos. Isto está muito de acordo com a tradição mística. O universo é uma teia dinâmica de acontecimentos inter-relacionados. Nenhuma propriedade de qualquer das partes desta teia é fundamental. Todas derivam das propriedades das outras partes.
Dinis – Que ‘cena’ louca!
Beatriz – Isto tudo irrita os cientistas mais exigentes. Vislumbram por detrás de toda esta interpretação uma série de escolhas metafísicas. Ou seja, fazendo outras escolhas metafísicas, não se chegaria a tais conclusões.

Dinis – Que interessante! Mas ainda tenho uma dúvida. O que é que acontece, então, se dividirmos as partículas sub-atómicas em partes menores?
Beatriz – Todo o universo se empenha numa actividade de movimento incessante: uma dança cósmica de energia. Há um incessante fluir de energia que se manifesta na transmutação de partículas, um teatro dinâmico no qual se criam e destroem partículas sem fim. A interacção de partículas dá origem a estruturas que, por sua vez, dão origem ao mundo material que, também ele, não permanece estático, antes oscilando em movimentos rítmicos. Se cindires partículas atómicas, elas quebram-se noutras iguais a si próprias, ou desintegram-se noutras partículas – ‘decaem’, para usar o termo certo – ou emitem outras partículas. A actividade é a própria essência da existência da matéria. As partículas do mundo sub-atómico não só se movem rapidamente como são, elas próprias, processos. Tudo é energia, padrões dinâmicos. Cada objecto que julgamos sólido é, na verdade, uma contínua dança de energia. Algo de muito diáfano e fugidio. As partículas são entidades de energia, compostas dinamicamente umas das outras, como que cada uma contendo todas as outras. Cada partícula participa na geração de outras partículas que, por sua vez, lhe dão origem. Tudo é relação.
Dinis – Fabuloso!
Beatriz – Pois é. Por isso, quero dedicar a minha vida ao mundo do infinitamente pequeno: a física quântica!


Acelerador de partículas do CERN



Dinis – E eu ao mundo do infinitamente grande: a astrofísica!



O nascimento de estrelas na nebulosa Trifida




A ARQUITECTURA DO UNIVERSO


- A massa do electrão é 1 840 vezes inferior à do protão e à do neutrão.
- As 3 partículas formam o átomo. O tamanho de um átomo-tipo é de cinquenta milionésimos de centímetro. Ampliando um átomo até ao tamanho de um grão de areia pousado numa mesa de cozinha, esta mediria 3 500 quilómetros de comprimento.
- Um átomo consiste, na sua maior parte, de vácuo. O tamanho do átomo é 10 000 vezes superior ao tamanho do núcleo (protões e neutrões) que está no centro. Se o invólucro exterior de electrões do átomo fosse do tamanho da cúpula que cobre o maior estádio de baseball do mundo, o núcleo seria uma bola de pingue-pongue no centro do estádio.
- O átomo mais simples – um único electrão girando em volta de um núcleo composto por um só protão – é o de hidrogénio, que constitui 90% de toda a matéria do universo.
- O átomo com dois neutrões e dois protões (logo, com dois electrões), é o átomo de hélio, que constitui os restantes 9%.
- As 92 espécies de átomos formam todas as variedades de matéria – animal, vegetal e mineral – que existem no universo.

A estrutura do átomo


- Os átomos juntam-se em grupos, formando moléculas.
- Um grande número de átomos ou de moléculas cimentados formam matéria sólida.
Há um bilião de biliões de átomos em 20 cm cúbicos de uma qualquer substância sólida vulgar, o que perfaz, mais ou menos, o número de grãos de areia existentes em todos os oceanos da Terra.
- A Terra é uma colecção particularmente grande de átomos unidos em conjunto, formando uma bola de rocha e ferro com 12 700 quilómetros de diâmetro e pesando seis milhões de triliões de toneladas.
- É um dos 9 planetas ligados ao Sol pela força da gravidade.
- O conjunto do Sol e dos planetas girando à sua volta forma o sistema solar.
- O maior dos planetas é Júpiter, com 140 000 quilómetros de diâmetro.
- O mais pequeno é Mercúrio com 5 000 quilómetros de diâmetro (três vezes mais pequeno do que a Terra).
- Todos os planetas são como anões girando à volta de um gigante: o Sol, que tem 1 600 000 quilómetros de diâmetro e pesa 700 vezes mais do que o peso conjunto dos nove planetas.

Os planetas no verão

- O Sol é uma entre 100 mil milhões de estrelas unidas pela força da gravidade que formam um numeroso enxame chamado galáxia. As estrelas giram à volta do centro da galáxia como os planetas giram à volta do Sol. O nosso Sol leva 200 milhões de anos a completar o seu circuito em redor da galáxia.
- A distância em média entre as estrelas da galáxia é de 5 anos-luz (um ano-luz é a distância percorrida num ano por um raio de luz, o qual se desloca a 3 000 000 quilómetros por segundo) e o diâmetro da galáxia é de 100 000 anos-luz.
- A distância média entre as galáxias mais próximas é de 1 milhão de anos-luz.
- Se o Sol fosse do tamanho de uma laranja, a Terra seria um grão de areia circulando a nove metros de distância. O planeta gigante, Júpiter, 11 vezes maior do que a Terra, seria um caroço de cereja girando a 60 metros de distância; Saturno seria outro caroço de cereja a dois quarteirões do Sol; e Plutão, o planeta mais afastado, seria um grão de areia a uma distância de 10 quarteirões do Sol. Na mesma escala, a distância média entre as estrelas seria de 3 500 quilómetros. A estrela vizinha mais próxima do Sol, a estrela Alfa do Centauro, estaria a 2 000 quilómetros de distância (a distância real é de, mais ou menos, 40 biliões de quilómetros, ou 5 000 vezes a envergadura do sistema solar). A galáxia seria uma colecção de laranjas separadas por uma distância média de 3 500 quilómetros, tendo o monte inteiro 35 milhões de quilómetros de diâmetro. É desta ordem, a vacuidade do espaço.
- A galáxia mais próxima da nossa, a Grande Nebulosa de Andrómeda, situa-se a dois milhões de anos-luz de distância.
- Um grupo de galáxias é um enxame de galáxias.
- Um grupo de enxames de galáxias é um super-enxame.
- O grupo de Hércules, que se compõe de 10 mil galáxias, é um dos mais importantes sistemas de matéria organizada do universo. Os grupos de galáxias ocupam o topo da estrutura hierárquica do universo.

Galáxia


- Há cerca de 100 mil milhões de galáxias, cada qual com uma média de 100 mil milhões de estrelas e talvez outros tantos planetas.
- A distância da Terra até aos quasares (corpos tumultuosos que podem ser colossais explosões de galáxias e que são responsáveis por um vastíssimo derramamento de energia – os mais grandiosos acontecimentos da história do universo desde o big-bang) mais longínquos é de 8 ou 10 mil milhões de anos-luz. Vêmo-los actualmente como eram antes da Terra ser constituída, antes da formação da Via Láctea, devido ao tempo que a luz demora a atravessar o espaço e chegar até nós.




Um quasar primordial



BIBLIOGRAFIA

Bryson, Bill, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, Lisboa, 2004.
Reeves, Hubert, Um Pouco Mais de Azul. A Evolução Cósmica, Gradiva, Lisboa, 1983.
Sagan, Carl, Cosmos, Gradiva, Lisboa, 1984.
Jastrow, Robert, A Arquitectura do Universo (dos astros, da vida, dos homens), Edições 70, Lisboa, 1981.
Weinsberg, Steven, Os Três Primeiros Minutos. Uma análise moderna da origem do universo, Gradiva, Lisboa, 1987.
Pagels, Heinz R., Simetria Perfeita, Gradiva, Lisboa, 1990.
Chauvin, Rémy, Deus das Formigas, Deus das Estrelas, Publicações Europa-América, Mem-Martins, 1988.
Polkinghorne, J. C., O Mundo dos Quanta, Publicações Europa-América, Mem-Martins, 1988.
Capra, Fritjof, O Tao da Física. Uma exploração dos paralelos entre a física moderna e o misticismo oriental, Editorial Presença, 1989.
Stannard, Russell, Ciência e Religião, Edições 70, Lisboa, 1996.

Fotos: de diversas proveniências.

Thursday, April 13, 2006



AGUARELA

Friday, April 07, 2006

FADO

NOTÍCIAS E ARTIGOS DE JORNAIS E REVISTAS SOBRE AMÁLIA RODRIGUES


“Tão longe o fado a levou
que Deus a perdeu de vista.”

“Malmequer Pequenino”




Sendo aquilo que comumente se chama uma fã tanto dos Beatles quanto de Amália, e possuindo várias obras com estudos exaustivos sobre a carreira e vida do grupo britânico, penso ser injusto e sintoma do nacional desleixo que o mesmo se não passe com a nossa maior fadista. Uma dessas obras sobre os Beatles é precisamente constituída por uma recolha de notícias e artigos de jornal. Assim, resolvi eu própria abalançar-me a uma recolha, efectuada na sua maior parte na Hermeroteca de Lisboa nos finais dos anos 90, de notícias e artigos de jornais e revistas sobre Amália e também sobre os seus guitarristas e violistas. Foi uma pesquisa entusiasmante, com muitas descobertas inesperadas, como, por exemplo, a da existência de fotografias de Amália anteriores àquela que, oficialmente, costuma ser descrita como sendo a primeira que se conhece. Vou aqui partilhar essas minhas descobertas, contribuindo deste modo para os “estudos amalianos” e fazendo votos para que, tal como existem beatlelógos, em breve surja no nosso país a primeira geração de amaliólogos.


1. Artigos biográficos

Vida Mundial Ilustrada, nº 151 (1944) - "Isto não é uma entrevista - um repórter à procura de Amália Rodrigues" – (resumo) Atesta a já enorme popularidade de Amália em Portugal. Era muito difícil entrevistar Amália. Atesta também a sua famosa irresponsabilidade, nos primeiros anos de carreira. Constava que Amália estava de partida para o Brasil. Amália almoça com a irmã no café "Palladium", salmonete "à meunière". Marca entrevista para as seis horas na "Bijou". O repórter ficou à espera até às sete e Amália não apareceu. Telefonou para o Casablanca e o Apolo. Ninguém sabia onde Amália parava desde havia dois dias. O José Miguel telefona-lhe a dizer que Amália estava no norte, Coimbra ou Porto, a cantar numa festa. E que regressava no dia seguinte. Amália acabava o ensaio às seis horas no Apolo, da "Rosa Cantadeira" (com Hermínia Silva, Ribeirinho, Santos Carvalho, Morgado Maurício, Hortense Luz, Armando Machado). Explica que não apareceu na "Bijou" porque tivera de partir para o norte. Diz que tem de estar em casa às seis e um quarto e que está muito cansada. Para ele passar à noite por ali, às dez e meia. O repórter espera até à meia-noite e Amália não aparece. O repórter apurou que Amália cantaria no intervalo de um último espectáculo no Casablanca. Comprou um bilhete para a frisa. Amália cantou com grande êxito, com muitos bis, empolgando o público. No final, o repórter correu para o palco, mas Amália tornou a escapar!

Eva (Outubro de 1944) - "A nossa fadista nº 1 parte para o Brasil! Boa viagem, Amália!" - Rua à cunha. Era esta a primeira impressão que tinha quem queria entrar no "Luso" naquela noite. A da Travessa da Queimada à cunha, "superlotada" com a gente que não tinha podido encontrar lugar. Na bilheteira continuavam a chover pedidos e telefonemas. A sala estava arqui-cheia, mas na rua ninguém arredava pé; com lugar ou sem ele, dentro da sala ou fora, todos queriam, "ao menos", ver a Amália.
Mas nós é que não podíamos apenas vê-la. Queríamos fotografá-la, falar-lhe e ouvi-la. Por isso o Miranda, fotógrafo, tentava atravessar aquele mar de gente triste, revoltada, invejosa e resmungona. Eu seguia-o de perto, agarrada ao tripé da máquina fotográfica, como a um reboque. E ele, de vez em quando, voltava-se para trás e encorajava-me:
- Nós somos as chamadas forças de invasão a estabelecer uma chamada testa de ponte...
Eu esboçava um risinho amarelo e submergia-me na multidão, que continuava a fazer azeite.
A teimosia do Miranda levou a melhor (ou seriam as arestas da máquina que ele levava na frente, como um escudo?) e chegámos por fim à bilheteira. "Não há mesas. Lotação esgotada. Não se respeitam marcações". Respostas dadas com ar cortante e sem réplica. Olhámo-nos desolados. Um senhor prestável que assistia à cena e que adivinha em nós (não é difícil) um caçador de imagens e uma caçadora de impressões, informa-nos de que "A Amália ainda não chegou". São 10 e meia. O espectáculo estava marcado para as dez.
Nisto, o Miranda tem um sorriso luminoso como um clarão de magnésio.
- Aí vem o chamado guitarrista da chamada Princesa do Fado... A ele...
Falemos com o Fernando Freitas, que é uma espécie de prolongamento de Amália.
- Também vou, diz-nos ele com um ar radiante.
- E... ela quando vem?
- Lá para a meia noite... Está a jantar no Tavares, com umas pessoas amigas.
A turba espreita-nos e olha-o com um certo respeito. É Fernando Freitas que acompanha à guitarra a nossa moderna Severa, e é no seu ombro que se apoia, enquanto Amália canta, a pequena mão da grande cantadeira.
- À meia noite... - reflecte o Miranda, e propõe: e se fôssemos ao chamado Tavares, em chamada missão de reconhecimento?
E fomos. O primeiro contacto com Amália é uma surpresa e uma delícia.
Muita simplicidade, muita doçura, nenhum cabotismo.
Explicámos-lhe ao que íamos. "Que não, que não ia à meia-noite. Era só acabar de jantar. Que fazia todas as fotografias que fossem necessárias, que agradecia muito."
E eu aproveito para lhe perguntar se está contente por partir.
- Contente... diz ela com uma suavidade triste, estou, muito contente. É uma grande, uma linda viagem... Mas já sei que ao fim de oito dias estou doida por voltar, e cheia de saudades. Já qundo fui a Espanha, senti a mesma coisa...
- Mas foi por pouco tempo. Desta vez são...
- ...três meses. Um contrato para o Casino de Copacabana.
- Tem tempo de ter saudades e de deixar de as ter...
- Não. Não creia isso. Depois ainda vai ser pior.




Chamam-na. Deixamo-la ir jantar, e dirigimo-nos novamente para o "Luso" onde chegámos durante um intervalo. O Miranda, com as suas habilidades, consegue fazer-nos entrar.
A cervejaria está cheia de luz e de gente. Gente do fado, gente boa e gente "bem". Actrizes. Junto de nós fica a Carmencita Aubert. Artistas, entre as quais a Estela Faria, o Tom. O corpo diplomático, representado pela Embaixatriz de Espanha e pelo Embaixador.
E, espalhados pelas mesinhas de "caveau", o conde de Sobral, o conde de Sabrosa, a outra voz de oiro da "canção nacional", Maria Teresa de Noronha, o barão de Hortega, o poeta José Bruges de Oliveira que escuta Leonilde Gouveia com a atitude sonhadora de quem ouve versos de Règulier.
E há crianças, uma garotinha de tranças alouradas, um miúdo de olhos grandes e um pouco espavoridos, apreciadores que começam cedo, e mais tarde hão-de ser entendidos...
O Miranda aponta-me um senhor que está quasi sempre no estrado, suba ao dito seja lá quem for:
- Aquele é o chamado Linhares Barbosa, um chamado poeta, que faz a letra dos fados da Amália...
Vai começar a cantar um rapaz baixo, moreno. (...)
Mas sente-se que a sala inteira está electrizada, em expectativa, num enervamento que aumenta de instante a instante, até que - perto da meia-noite...- Amália chega.
Recebem-na com uma ovação prolongada. De todas as mesas a chamam, lhe falam.
Um senhor "forte" fala ao público. O Miranda, inesgotavelmente bem informado, precioso, diz-me:
- É o chamado Tavares da Silva...
E o senhor lê, devagar, com emoção, algumas palavras de elogio à festejada. Fixámos entre outras:
"...Amália e o Fado confundem-se... Sem dúvida, Amália deu ao Fado uma certa dignidade.
...O Fado é tristeza. De resto, só quem viveu uma vida de amarguras e incertezas poderia cantar assim o Fado. Eis aqui, porém, uma das facetas mais luminosas desse grande temperamento artístico. Amália, elevada ao cume da sua arte, conquistando uma popularidade enorme, conservou-se igual a si própria, simples, amável, modesta..."
Muitas palmas, que redobram e atingem o delírio quando Amália Rodrigues sobe por sua vez ao estrado, que se cobre rapidamente de flores.
Que bonita é a cantar! O seu rosto transfigura-se e é o de um anjo moreno, tocado de melancolia:
Vem, eu ainda sou tua...
O público escuta, em êxtase, aquela voz suave, que vai subindo e morrendo:
... e mesmo de olhos fechados
encontras a minha porta...
Mais palmas, mais flores.
Entretanto, o Miranda murmura-me:
- Chegou o chamado momento psicológico de fazer os chamados bonecos...
E daí em diante não se vê senão ele, a subir e a descer das cadeiras, e a esgueirar-se por entre as mesas, produzindo clarões, como um outro Júpiter a expedir raios...
Num curto momento de repouso, Amália Rorigues, que não esqueceu o prometido, vem ter comigo, e fala-me do fado. Digo-lhe que não percebo nada do assunto. E ela, convincente, num soriso que os olhos não acompanham, os negros olhos sempre tristes:
- Talvez nem goste. Há muita gente que não gosta do fado. E é natural. Da maneira como a maior parte da gente o canta, e com versos horríveis... Nem é possível gostar... Mas cantado com naturalidade, com bonita letra... é uma linda canção, como qualquer outra...
- Assim até eu gosto...
- E toda a gente gosta, creia... Eu, adoro-o...
O Miranda aproxima-se e atira outro clarão...
Fico atrapalhada e faço uma pergunta palerma, género "test" de trazer por casa:
- Se não fosse o que é, que desejaria ser?...
Ela medita uns segundos e responde a sorrir, divertida:
- Ora, se não fosse o que sou... gostava de ser o que sou...
- Ainda um momento, Amália; que quer que diga da sua parte ao público português no momento da sua partida?
- Ao "meu" público... que tem sido tão bom para mim...Olhe, não quero despedir-me, faz-me tristeza... Diga-lhe... os últimos versos do fado que vou cantar daqui a pouco... e se chama Agradecimento...
E é com esses versos que Amália nos diz adeus.
Neste adeus de simpatia
Somente um favor lhes rogo:
Não adeus até um dia
Mas sim: adeus, até logo!



É uma e meia da noite. Saímos do "Luso" deixando a sala em delírio, num alarido de palmas, de gritos de entusiasmo, de admiração, de devoção.
E Amália vai partir no "Clipper", no "Clipper" para o Brasil. Para Copacabana... Por três meses...
No "eléctrico" que me leva a casa, tão diferente do "Clipper", tão ronceiro, tão manhoso, surpreendo-me a monologar com tristeza e influenciada pelo amigo Miranda:
- Quem me dera ser uma chamada fadista, para ir para o chamado Rio de Janeiro, com um chamado contrato de três meses..." Maria Antónia. Numa foto no Luso, Amália aparece com Fernando Freitas e Martinho da Assunção à viola.

Filmagem (1946) - artigo que comprova a mudança de comportamento de Amália, agora mais responsável perante os seus compromissos. "Amália, vinte valores em comportamento...", uma entrevista com Augusto Fraga.

Canção do Sul (16-3-1947) – Amália Rodrigues desistiu temporariamente da sua anunciada digressão à América do Norte, por ter firmado contratos não só para o Teatro Variedades como para a sua actuação no filme "O Fado".

Século Ilustrado (14-6-1947) - Entrevista com Amália, (resumo). Amália chegou há pouco do Brasil, está nas filmagens de "O Fado", após terminá-las segue para S. Sebastian, para veranear e fazer um curto filme sobre fado, depois segue para o México.

Ecos de Portugal (15-10-1949) – (resumo) Amália, Santos Moreira e Raúl Nery no almoço de homenagem ao Dr. Amaro de Almeida - nascido na Rua do Capelão -, realizado a 24 de Setembro na Adega Mesquita. O Dr. Amaro de Almeida era um médico que muito tinha feito em prol dos fadistas e do fado. Reuniram-se ali médicos, advogados, comerciantes, jornalistas e fadistas. Presidiu Amália Rodrigues que tinha a ladeá-la o homenageado, Alfredo Marceneiro, D. José António Conde de Sabrosa, Dr. Castelo Branco, Dr. Antunes Leal e Santos Moreira. O homenageado ficou entre Amália e Santos Moreira. Comissão de homenagem: Filipe Pinto, Gabriel Infante, Raúl Nery, Joaquim Cordeiro, Agostinho das Neves e Romeu Rosa Gomes. Entre os presentes: João Linhares Barbosa, Felix Correia, Modesto Maia, Orlando Silva, Frederico de Oliveira, Carvalhinho, Ilídio dos Santos, Berta Santos, Tolentino de Oliveira, Carlos de Oliveira, o empresário José Miguel, Frutuoso França, Ricardo Cruz, Fernando Couto, Romeu Rosa Gomes, António dos Santos, Júlio Peres, Gabino Ferreira, Tony de Matos, Manuel Nunes, António Cipriano, Manuel Gomes, Castro Mota, Joaquim Cordeiro, Adelino dos Santos, Armando Gonçalves, Fonseca Santos, Cândida Rosa, Branca Machado, Mina Doly, Eulália Duarte, Flávio Teixeira, Joaquim Nicolau de Almeida, Maria da Saudade, Vitor Dias, Agostinho Dias, Fernando Reis, Rolanda Rodrigues, Henrique Simas, Nicolau Neves, Alfredo Mendes, Joaquim Fundidor e esposa, Fernanda Santos, Celeste Rodrigues, Guilherme Santos, Fernando Farinha, Isabel Silva, Noémia Cristina, António Carícias, Miguel Ramos, Jacinto Pereira, Márcia Condessa, António Penedo de Abreu, António dos Santos, Cidaliza do Carmo, Aires Maia, Dr. Rui Nogueira, Amílcar Nogueira, Vitor Clemente da Silva, Quinita Gomes, António Augusto dos Santos, Maria Santos, Gil Bordonhos, José Moreno, Manuel Fernandes, Clemente Correia, Xavier Pinto.
Ofereceram ao homenageado inúmeras lembranças, destacando-se uma "seringa" e uma guitarra artisticamente trabalhada, oferta de todos os presentes. Amália, depois de feita a entrega, cantou acompanhada pelos seus guitarristas privativos, tendo Raúl Nery utilizado a guitarra oferecida ao homenageado que afirmou no seu discurso: "Todos os fadistas terão em mim dois ouvidos muito atentos, muito abertos, para ouvir os seus gemidos".

Eva (Abril 1950) - mostra uma foto de Amália aos 5 anos no artigo, muito impreciso, de Metzner Leone: "A história desconhecida de Amália Rodrigues." O primeiro pulo da sua carreira foi-lhe proporcionado no Porto. O seu empresário organizara uma "tournée" de fadistas pelo Norte, com os grandes nomes do fado, conhecidos nesse tempo à cabeça dos cartazes. No Porto, porém, os ouvintes aplaudiram em delirante entusiasmo uma certa desconhecida, que cantava melhor e com mais alma que todas as vedetas-fadistas cujos nomes sabiam de cor! O êxito foi tal, tão espontâneo e retumbante, que, no regresso a Lisboa, o empresário passou a considerar Amália uma fadista de primeiro plano. A cidade do Porto, com esta consagração, ofereceu a Amália Rodrigues o primeiro grande triunfo depois da sua estreia e as primeiras invejas da sua carreira. Uns e outros, porém, são imprescindíveis quando se sai da mediocridade geral...
(...) Como não podia deixar de ser, porém, a carreira da grande artista que é Amália Rodrigues tem suscitado fortes reacções, e há mesmo gente que passa as noites metendo o nariz nas casas de fado à procura duma voz que seja... melhor que a da Amália!
Os anti-amalistas não desarmam - especialmente os anti-amalistas... E a série de fracassos que sofrem há dez anos (pois há dez anos que andam à procura de uma voz melhor que a dela, sem sequer terem encontrado uma voz semelhante à dela...), longe de os fazer desanimar, encarniça-os ainda mais no seu torvo desejo de destronar esta raínha por direito natural, que naturalmente apareceu sem tirar o lugar de ninguém, e naturalmente se impôs, criando para o fado um lugar que ele não tivera nunca, elevando-o a um nível onde nunca sonhara chegar, e difundindo-o por toda a parte numa apoteose triunfal. Porque sendo Amália Rodrigues plebeia, orgulhosamente plebeia e feliz da sua origem humilde, ela conseguiu o que não conseguiram nunca os nossos fidalgos estilo Marialva: ela aristocratizou o fado - enquanto eles se limitaram a frequentar tabernas e vielas, para bem poderem senti-lo...






Flama (24-3-1950) - Amália ganha concurso radiofónico de artista preferida.

Flama (19-5-1950) - idem.

Flama (2-6-1950 ou 16-6-1950) - Entrevista de Rolo Duarte. (Resumo) "Não é fácil falar a Amália Rodrigues." No Café Luso tiraram-se fotografias em dois minutos; a entrevista foi na casa de Amália na Rua de S. Bernardo. No Luso, sala esgotada; Filipe Pinto anuncia Amália - silêncio sepulcral... a assistência ovaciona delirantemente. Em casa, numa pequena sala luxuosamente decorada, com a "subtileza de um ambiente puramente artístico. Nas paredes, vários quadros a óleo, um dos quais representava Amália. Os reposteiros, de um cinzento claro, coadunavam-se bem com a cor do mobiliário. Alguns "maples" de agradável conforto contribuem para o interesse que nos despertara aquela sala." Amália mostra-se curiosa sobre o concurso de popularidade radiofónica que esta revista organizou, em que obteve o 1º lugar e quis saber quem ficou em 2º, com quantos votos, etc.
(...)"Não penso em nada. Nunca tenho projectos. Os contratos aparecem com pouca antecedência e eu só tenho tempo para dizer sim ou não...
Na conversa, Amália afirmou gostar imenso de cantar para estrangeiros.
- E sente o fado da mesma maneira, cantando para os outros povos?
- Ainda o sinto mais. Imprimo-lhe maior sentimento ou mais alegria, consoante o fado que canto.
Rolo Duarte afirma que "a exímia cantadeira é refractária a entrevistas".

Flama (16-6-1950) - A 5 de Junho, Amália, com Santos Moreira e Raúl Nery, participou na festa da Flama no Eden-Teatro "Coroação da Rainha da Rádio Portuguesa" - Júlia Barroso -, onde cantou fados e canções hispano-brasileiras, levando o público ao delírio. Participaram, entre outros artistas, João Villaret, Max, Alberto Ribeiro, Humberto Madeira, etc.

Eva (Fevereiro de 1951) - "-E como tem o público europeu recebido Amália?
- Maravilhosamente, responde logo Santos Moreira. O êxito de Amália pode definir-se por este simples facto: a sua colaboração nos programas efectuados sob os auspícios do Plano Marshall, apenas estava prevista, em princípio, para o espectáculo de Roma. Fomos para o palco dispostos a interpretar apenas um fado. Estávamos todos muito nervosos, eu mais do que ninguém, embora tentasse dar moral aos meus companheiros. Antes de começarmos, disse para a Amália e para o Nery: - "Vamos lá humilhar essa gente com o nosso fado." No final, saímos logo do palco. Mas tivémos de voltar. As palmas do público eram delirantes. Interpretámos mais dois números, e só então nos deixaram ir embora. Em Berlim, após a nossa actuação, apareceram logo uns sujeitos do cinema e outros com propostas para Amália gravar discos. Fomos convidados para um "party" em casa do general Taylor. E, em Dublin, também recebemos outro honroso convite, para uma festa em que compareceu o próprio presidente De Valera. Em toda a parte nos trataram com simpatia e carinho. Aliás, em toda a Europa, a simples enunciação do nossa qualidade de portugueses basta para que imediatamente nos rodeie uma atmosfera de curiosidade e admiração.
- Trazem alguma recordação especial desta última viagem?
- A melhor que trazemos refere-se a Paris, onde passámos o último Natal. Assistimos, no Teatro da Gayté Lyryque, à representação da opereta "Colorado", de que é principal intérprete o nosso compatriota Luís Piçarra. No final, reunimo-nos todos numa festinha muito íntima e muito portuguesa. O cantor que triunfa em Paris junta-se à artista que representa Portugal nos programas do Plano Marshall, e ambos, com a nossa colaboração, celebraram um Natal bem à lusitana. A gente comoveu-se um bocado. Não esperávamos passar aquela data longe das nossas famílias, mas acabámos por nos sentir tão confortados como se estivéssemos em Lisboa. Amália é a melhor e a mais compreensiva companheira do mundo inteiro. " (Armindo Blanco)


Raúl Nery, Amália e Santos Moreira

Flama (1.6.1951) - Amália ofereceu a Maria Dulce uma grande fotografia autografada.

Flama (8-6-1951) - Amália participa na festa de coroação da Raínha da Rádio Portuguesa.

Flama (23-6-1951) - Diário da actriz Maria Dulce, então criança: "durante o ensaio de Frei Luís de Sousa", Amália visitou os artistas. "Há tanto tempo que ambicionava conhecê-la e, finalmente, eis o meu grande desejo satisfeito. Conversei durante bastante tempo com ela. É uma senhora muito simpática e ficámos sendo amigas."

Flama (15-2-1952) - Amália na festa do Max.

Flama (29-2-52) - notícia muito "rebuscada" sobre o facto de Amália ir de férias para a Suíça.

Flama (15-8-1952) afirma que os acompanhadores habituais de Amália são Jaime Santos e Santos Moreira. A Flama fez um inquérito na sua "Página de Teatro" para eleição da artista preferida dos seus leitores. Embora Amália já não pisasse os palcos havia vários anos, conquistou o primeiro lugar de forma clamorosa. Os votos vieram de todas as camadas sociais.

ibidem? - Amália na Madeira. Foram excepcionalmente triunfais as suas actuações na "Pérola do Atlântico".
" - Sim, do meu encantamento e das minhas emoções, tão bem vividas nesta ilha de sonho e de beleza, dou conta à vossa simpática revista, que ainda agora me distinguiu com o primeiro lugar do seu interessantíssimo concurso.
- O momento da chegada?
- Inesperado. Bem, eu tinha pensado num ou noutro curioso, que os há, por toda a parte. Mas uma multidão daquelas... E flores, assim, logo ao desembarque... E as palmas, e os "vivas"... toda essa vibração espontânea, que é do povo, que só possuem as almas simples e boas!
- Já conhecia a Madeira...
- Superficialmente, uma vez, de passagem para o Brasil. Mas mesmo com um superficial conhecimento, já se gosta, e já se fica com vontade de cá vir.
E espraiando o olhar pelos jardins do hotel onde havia rosas abertas a um sol de primavera, numa expressão de êxtase e nostalgia parece querer sonhar:
- Tudo isto é lindo! Sinto perfumes doces que me embriagam. É uma cantiga de beleza e de encanto que encontra amor (?) no meu coração.
- Que me conste, não costuma fazer a letra do que canta...
- Mas vivo a letra que a natureza me dispensa!

Amália, durante os seus oito dias na Madeira, foi a (...) emocional das multidões que a viram e ouviram. No "Savoy Hotel", onde luz a sua estrela, conquistou o seu primeiro triunfo, dos mais raros registados, em um sumptuoso salão de festas. Na sala de baile da Quinta Vigia (antigo Casino da Madeira), outro triunfo difícil de igualar. E no Parque da mesma Quinta, entre o arvoredo verde e os canteiros floridos, o mais deslumbrado e retumbante de todos os êxitos. Perante uma multidão de quatro mil pessoas - e mais não cabia no recinto... Amália foi uma arrebatadora de emoções, acordando a alma de tanta gente humílima e simples, presa à sua voz de tristes modulações.
- Que lhe pareceu a actuação no Parque?
- Impressionante! Uma coisa assim como que a bulir cá dentro, pondo lágrimas nos meus olhos e lágrimas nos olhos deles... Não reparou? Mas não eram só os simples, aqueles que talvez fizessem um pouco de sacrifício para lá ir. Eram muitos dos outros, dos de boa gravata...
- É o seu condão, Amália. Sem qualquer artifício e muito de sentimento, convence os incrédulos e torna-os "amalistas".
- Foi, realmente, uma grande tarde, daquelas que dificilmente se podem esquecer...
- Tanto para si como para eles.
- Não, mais para mim. O impressionismo, nas multidões, é momentâneo, tem a fugacidade das brisas. Na artista, infiltra-se em todos os poros e fica arreigado à alma e à memória.
- Mas já tem experimentado sensações idênticas...
- Sim, tenho, mas vocês, os madeirenses, encostam-se mais ao coração, poem-me mais triste, mais íntima, mais amiga, mais vossa...
- Gratíssimo, em nome da grei.
E falámos depois de uma outra festa, na sede de uma agremiação regional, que tem por legenda cimeira esta negação dos seus princípios: "Nau sem Rumo". É uma colectividade de carácter recreativo e de beneficiência, por onde têm passado grandes figuras portuguesas e internacionais. Das nossas, recordam-se os nomes dos comandantes Quelhas de Lima, Sarmento Rodrigues, Celestino Ramos, Paulo Viana, e tantas, tantas outras, que seria fastidioso enumerar. Ainda durante as últimas festas do Fim do Ano estiveram ali e recitaram poesias Ramiro Guedes e Miguel Trigueiros.
Amália esteve também a bordo da Nau, onde almoçou e cantou. Depressa correu pela cidade a notícia desta visita. E a rua onde fica o edifício da "Nau sem Rumo" encheu-se de tal modo que o trânsito de automóveis mudou de rumo e foram precisos guardas da segurança pública para regular e conter tão improvisada multidão. E Amália cantou das varandas para a rua, antes e depois do almoço. A multidão começara a avolumar-se pouco depois do meio dia. Pois às quatro horas da tarde ninguém arredara pé, antes os aglomerados engrossaram, nesta rua e numa outra fronteira à mesma, com o trânsito totalmente interrompido.
- Uma impressão sobre a festa da Nau...
- Do cativante convívio, dentro da sede; de estupenda surpresa, na rua. Sempre o povo, o mesmo povo simples e bom.
- Vai, então, plenamente satisfeita da Madeira?
- Plenissimamente. Vou, mas uma grande consolação me anima: hei-de voltar.


Amália e Jaime Santos ao chegar à Madeira


Flama (29-8-1952) - noticia que Amália parte para a América (Nova Iorque - México- Nova Iorque).

Flama (1953) - publicidade à Hoover e à Lux.

Flama (20-3-1953, nº 263) - Amália nos Açores. Amália Rodrigues seguiu para o México com escala por Santa Maria, onde teve entusiástica recepção (na foto, aparecem Santos Moreira e Jaime Santos.)

Flama (1953, nº 296) - eleita a artista favorita.

Eva (Março de 1953) - festa de homenagem a Amália Rodrigues no Negresco.

Eva (Outubro de 1953) - publicidade à Hoover.

Estúdio (10-12-1953, nº 17) - "Amália, quis Deus que fosse o meu nome", por Diamantino Faria. Amália partiu do aeroporto de Sacavém para a Cidade do México. Antes, na "aerogare", alguns amigos despediam-se da artista envolvendo-a em flores: rosas vermelhas, negras... "Amália tinha um sorriso. De alegria, de tristeza? Só ela o poderia saber...
- Algumas palavras para os nossos leitores - pedimos.
Um olhar meigo, um semicerrar de pálpebras e a resposta:
- Vou, como sempre, com saudades, antes da partida... Voltarei dentro em breve. Chamam-me os deveres profissionais... e o coração. Especialmente este, sinto-o já a apressar-me o regresso."
Amália foi com Santos Moreira e Jaime Santos., o "trio famoso". Foto com o lavrador e fidalgo ribatejano José Palha.
O artigo recorda a Exposição Internacional de Artes Decorativas em Paris, 1947. "No Secretariado Nacional de Informação, António Ferro recebe o convite para a participação de Portugal no certame. Jorge Segurado desenha o projecto do "Pavilhão de Portugal". E Amália Rodrigues, já então aureolada pela fama, entre nós, é escolhida para ir mostrar aos estrangeiros de todo o Mundo o que é o "Fado". Este o seu primeiro êxito internacional.
Depois foi um errabundear pelo Mundo, colhendo louros sobre louros, de cidade em cidade, de país em país.
Amália Rodrigues conseguiu mesmo, a par de colunas e colunas em periódicos das mais variantes metrópoles, ser motivo de uma crónica do "mestre" André Maurois, nas "Nouvelles Litéraires"... Este é, talvez, o galardão máximo de que um artista português se pode orgulhar."

Eva (Dezembro de 1953) - "A casa de Amália Rodrigues." - de fora é uma casa anónima de quatro andares - trata-se da casa da Rua de São Bernardo. "Ambiente de linhas simples, conforto e bom gosto"

Flama (8-1-1954) - Amália ganha inquérito sobre qual a artista preferida.

Estúdio (5-2-1954, nº 21) - "Cada vez que o correio me traz notícias de Amália Rodrigues, sinto um frémito estranho, misto de ansiedade e prazer.
Nova Yorque... Madrid... Genebra... Dakar... Rio de Janeiro... A última, a mais recente, chega-me do México, remetida após a sua triunfal temporada em terras aztecas.
"Amalia Rodrigues, la exquisita artista lusitana" - assim lhe chamam os mexicanos, arrebatou por completo os auditórios que tiveram a felicidade de vê-la... e escutar a sua voz castiça, dolente, plena de magia.
Depois de actuar semanas a fio no "Versalles", - a mais elegante "boîte" da cidade do México - Amália partiu no passado dia 24 para Hollywood, contratada a peso de ouro pelo "Mocambo", o "night-club" das grandes vedetas do cinema californiano.
No dia da sua despedida do México, Amália brindou a Imprensa com um "cocktaill", servido nos luxuosos salões do famoso Hotel Del Prado. Esteve presente a fina flor do jornalismo azteca e Amália a todos atendeu com o melhor dos seus sorrisos.
Conversando com os seus convidados, Amália falou sobre a origem do Fado como lamento nostálgico dos marinheiros portugueses em viagem, na época dos Descobrimentos. Fado-Destino. E o Destino permitiu aos felizes assistentes que Amália os brindasse com alguns fados, emotivos e sinceros, que deram uma nota álacre e policroma àquela alegre reunião.
Falou sobre a sua viagem a Los Angeles, onde cumprirá um contrato até 15 de Fevereiro, seguindo em seguida, possivelmente, para o Brasil, para tomar parte com António Vilar no grande festival de Cinema de S. Paulo.
Amália Rodrigues apresentou-se nessa tarde aos cronistas, "joven, esbelta, perfecta de facciones y sencilla de trato" - no dizer pitoresco da Imprensa local. Trazia um vestido preto, de "cocktaill", um bracelete de brilhantes e um pequeno broche, verdadeira obra de arte. Contou saborosas anedotas relacionadas com a sua vida nómada de artista e desmentiu os rumores de certo romance real... Mas, o tempo corria célere, e aproximava-se velozmente a hora da partida.
A imperatriz do Fado deixou a terra mexicana. Partiu para a América do Norte. A estas horas estará, decerto, arrebatando os maiores nomes do Cinema Mundial. A mais portuguesa das artistas lusitanas é assim: simples, afectuosa, grande entre as maiores do Mundo!"



? artigo talvez desse ano - Amália no Rio entre portugueses, num não acabar de festas: pianista Varela Cid, Estrela Faria, nas soberbas residências de Fausto de Albuquerque e irmãos Lima Leal - decoradores triunfantes no Rio - Maria Sampaio...

Flama (9-4-1954) - noticia que Amália vem fazer férias a Portugal depois de cinco meses em vários estados americanos e que em Setembro lá deverá regressar.

Estúdio (20-4-1954) – “Encontro de Amália com Virgílio Teixeira na casa dela da S. Bernardo, às dez da noite, após cinco anos sem se verem. Amália Rodrigues chegou há semanas a Lisboa, vinda da América, onde foi actuar no Mocambo, conhecido e luxuoso "night-club" de Hollywood.
(...) "- Virgílio!... Como estás?"
Para nós voltou-se o olhar da Diva do Fado, a Amália que toda a gente conhece, que estendeu a mão que cumprimentámos.
"- Sabes, Amália, já tinha saudades deste cantinho tão acolhedor! Lembras-te..."
E Virgílio recordou aqueles tempos em que, em casa de Amália, se reuniam os amigos para o cavaco...
"- Que saudades, Amália.."
"- Há quanto tempo não vinhas cá?"
E com um sorriso malicioso, Amália acrescenta:
"- O galã agora já não quer saber dos amigos!"
Depois de comodamente instalados e de Amália nos ter servido uns "whiskies" a conversa tomou novamente o rumo interrompido.
"- Estás muito "guapa", sabes?"
Reparei então nas faces brancas levemente rosadas de Amália... Os olhos pretos, muito pretos... Um rosto bem proporcionado e resoluto... Um cabelo curto, levemente salpicado de cabelos brancos...
Amália estava, de facto, muito mais "guapa"...
"- Estou mais magra!"
"- Também já notei. Mas... fica-te bem."
"- Não gosto."
Amália não precisa de estar elegante para ser a "mais que tudo"...
Virgílio, voltou a atenção para o cabelo de Amália.
"- Não me fales no cabelo."
"- Está engraçado..."
"- E a embranquecer, também. Que saudades daquele cabelo comprido, farto e... preto."
"- Ora, ora... Ainda és muito nova!"
"- Com 33 anos..."
(...) Amália com a presença de Virgílio falava à vontade sem aqueles preciosismos e frases estudadas a que o jornalista está acostumado quando vai entrevistar algum astro. Virgílio, por seu lado, queria saber tudo e de tudo falava.
"- Conta-me coisas de Hollywood."
"- Que hei-de dizer? Hollywood é uma cidade igual a tantas outras com as suas vivendas e jardins cuidados, diferente de todas, com os seus artistas famosos. No fundo nada de excepcional."
"- E os artistas?"
"- Muitos artistas famosos, já velhinhos. Muitos artistas novos com carreiras prometedoras, etc."
E com ar de admiradora fervorosa:
"- Lá vi e falei com o "meu" Richard Wydmark..."
"- E que tal o público? Alegre?"
"- Desilusão total. São umas autênticas máquinas. Sentam-se, bebem... bebem... e só se retiram quando já não podem levantar-se."
(...) "- Disseram-me que vais fazer um filme com o Alberto Ribeiro..."
"- Ainda não sei. Sabes... tudo depende de certos pormenores que ainda não estão devidamente esclarecidos."
"- Mas ...Vais fazer um filme..."
" - Sim, cumprir uns contratos. Contudo, espero fazer, antes da minha partida, dois filmes..."
"- Com o fado de permeio..."
"- Não. Desta vez não haverá fados. Quero fazer duas altas comédias."
"- E que há sobre "A ÚLTIMA CORRIDA" com Manuel dos Santos?"
"- Nada farei. Incompatibilidades várias..."
Falou-se de Manuel dos Santos e Amália conta um caso curioso e interressante passado há bem pouco tempo, enquanto esteve em Hollywood:
"- A artista Jean Lidel, fervorosa admiradora de Manuel dos Santos, veio, certa noite, falar-me. Com grande espanto meu perguntou-me quando me casava com o Manuel. Julgava ela que estávamos enamorados. No final, pediu-me para cantar o fado "Confesso"...
Achámos o caso engraçado e logo o Virgílio conta alguns episódios da sua carreira. Foi assim, que a certa altura, surgiu uma pequena discussão entre os dois "astros" portugueses. Tratava-se dos direitos da mulher... Claro que tudo acabou em bem e eu, apesar de concordar com Amália, não deixei de dar, também, razão ao Virgílio.
Falou-se de público, de popularidade, de Fado e... Amália diz:
"- Já tinha saudades. Saudades deste público português, dos retiros de Fado e... desta Lisboa onde todos nos conhecemos."
Amália afirma-se cansada de não andar:
"- A popularidade, por vezes, é aborrecida. Para onde quer que vá seguem olhos, pessoas, como se se tratasse não sei de quê!... Resultado: tenho de andar sempre de automóvel."
As palavras de Amália fizeram-me recordar a sua entrada no "Palladium" na tarde daquele dia. Toda a gente falava de Amália ou por isto ou por aquilo. E depois os autógrafos... um estudante mais atrevido até comeu um bolo...
Mas a Amália, como artista compreensiva que é, tudo desculpa e... acha graça.
...E quando Amália ganhou o segundo jogo da Canasta, Virgílio, que às nove da manhã seguinte partia para Madrid, levantou-se e fez as despedidas. (...)"



Eva (Maio de 1954) -Amália conquistou o mundo!
"(...) há em Amália um lado que escapa a toda a observação e que contribui admiravelmente para o seu êxito: a capacidade de criar o imprevisto. Cantando, acontece-lhe galvanizar a assistência com um improviso, por vezes um subtil apontamento que modifica repentinamente o clima que a envolve. Falando, há nela um calor, uma simplicidade, que o humor e as suas qualidades de observação sublinham admiravelmente.
Mas também aqui há o imprevisto, a permanente revelação. E assim, na entrevista banal a que nos dispusemos quando a abordámos em sua casa, Amália alterou-nos de surpresa todos os planos, quando disse, a certa altura:
- Por mais estranho que pareça a muita gente, sou, na verdade, infeliz. Tive pouca sorte em nascer Amália e até agora jamais me foi dada oportunidade de me manter idêntica a mim mesma, de ser aquilo que de facto gostaria de ser.
Entre xícaras de café e cigarros, a voz de Amália Rodrigues vai lentamente desfiando uma série de pensamentos, coisas que ordena sem pressa nem entusiasmo. Não caberia aqui um comentário, um reparo.
Não. Amália explica-se a si mesma numa atitude de corajosa intimidade:
- Não passo, no fundo, de uma pessoa que obedece ao que lhe ordenam, a quem se contrata para ir aqui ou acolá e... nada mais! Por isso não posso gostar - como se julga - da vida que faço. Talvez um dia... sim, tenho esperança de que um dia possa vir a fazer a vida que ambiciono. Ir para longe, comprar uma fazenda no interior de África, realizar-me a mim mesma sem complexos, nem gente que me conheça. Até lá continuarei a ser Amália Rodrigues, fazendo muitas vezes das tripas coração para agradar aos meus admiradores... O trágico é que o público se esqueça muitas vezes de que eu sou também uma pessoa com direito ao meu cantinho ao sol, à vida de toda a gente - acrescenta no mesmo tom pausado.
Diante de nós sobre uma mesinha espalham-se centenas de fotos a testemunharem a carreira de um dos melhores êxitos artísticos portugueses. Abandonadas, indiferentes, Amália passa os dedos sobre elas num gesto vago:
- De resto, o homem é um animal extraordinariamente adaptável. Com maior ou menor esforço, o hábito acaba por dominá-lo e é nisso que está precisamente uma grande parte da sua tragédia. A certa altura, a vida perde o interesse, torna-se menos rica... Estas fotografias, por exemplo... À volta delas há por força várias curiosidades, pequenas notas que talvez me valesse a pena evocar. Mas não... para mim, as coisas acontecem dentro de uma cadeia de hábitos, de lugares-comuns. O Santos Moreira, esse sim, liga importância a tudo isso, sobre cada viagem recorda um mar de acontecimentos.
Uma por uma, vamos contemplando as fotos que temos diante de nós, marcadas com pequenas notas a lápis, datas, autógrafos, dedicatórias, carimbos de todos os continentes... É o filme da carreira de Amália que desfila diante de nós, mas as suas palavras falam-nos dela mesma, daquilo que só ela sabe dizer e que lhe enche os momentos mais íntimos:
- E sabe? É curioso como até à incompreensão nos somos capazes de habituar. Ainda há dias quando me encontrava com um grupo de amigos, um quiro-astrólogo conhecido me veio provar isso mesmo. Disse-me que era pouco económica, que tinha um coração grande, uma cabeça "assim, assim"... Não há dúvida, ninguém me compreende, nem mesmo os quiro-astrólogos...
No meio do fumo de cigarros, a voz de Amália suspende-se. É a mesma voz franca e sentida com que canta mas é, apesar disso, a voz de uma outra Amália - aquela que na intimidade tem um desabafo magoado, sobre aquilo que o público ignora da mulher que julga conhecer.
Fala Santos Moreira -
Santos Moreira, o "viola" que a tem acompanhado por todos os cantos do mundo é agora a "voz do público" que ouviu Amália em toda a parte. Por fora, observada nos palcos ou nas noites de boîte, o retrato da vedeta surge-nos delineado em dois ou três apontamentos que registamos aqui. Tem pois a palavra Santos Moreira:
- Amália Rodrigues é muito nervosa e antes de começar a cantar tem sempre um medo terrível. Em Nova Iorque, no dia da estreia, o medo contagiou-me também. Seria possível agradar a um público tão diferente que não entendia a letra dos fados, embora antes de ela cantar fosse feito um resumo em inglês do que cada uma dizia? Mas foi possível! A simpatia e o talento de Amália venceram tudo com uma rapidez incrível. No México a cena repetiu-se e aí com um estrondo fantástico! Gostaram tanto dela que a compararam a Lúcia Rey, a artista já falecida, que ainda hoje é o ídolo dos mexicanos. E não me posso esquecer que no último dia da nossa actuação no "Versailles", na cidade do México, fizeram-lhe uma homenagem empolgante: a orquestra executou a música que vai ao mais fundo da alma dos mexicanos, a célebre "Las Golondrinas" que o público ouvia no maior silêncio chorando e acenando com lenços...
Mas a maior comoção de Amália - julgo eu - correu em Roma num espectáculo organizado pelo Plano Marshall em que colaboraram as vedetas líricas de todo o mundo. O locutor anunciou-nos - uma fadista, um guitarra e um pobre viola - como intérpretes de uma expressão da arte popular portuguesa. O êxito ultrapassou também todas as expectativas. Obrigaram-nos a repetir quatro vezes, caso único naquela noite. Mas Amália estava exausta. Quando chegou ao camarim caiu sobre um divã e chorou, chorou convulsivamente..."



Santos Moreira e Amália

Propositadamente, tínhamos deixado a Santos Moreira o relato das pequenas memórias que Amália não revelou. Elas aqui ficam e, de mistura com as fotos que publicamos, são um complemento indispensável àquelas palavras melancólicas de uma mulher que conhece o público e que é por ela amada mas nem sempre compreendida."
Fotos:
- No "Versailles", a boîte elegante mexicana: Amália não só obteve a consagração de "primeira intérprete da canção mexicana" como foi televisionada pela maior estação da capital.
- No México: reunião de homenagem a Amália: Agustin Lara, o famoso compositor, Alzira Vargas, filha do presidente da República brasileira, Pedro Armendariz e Pedro Vargas, o cançonetista tão conhecido do nosso público.
- No Rio de Janeiro, o seu nome provocou enchentes na elegante "Night and Day" e foi o grande sucesso da rádio. Eis Amália Rodrigues naquela mesma "boîte" ao lado do director da Rádio Globo.
- Madrid já se habituou à sua presença. No "Moroco", Lenita Espejo, Lola Florez, Martin e Infante da Câmara, bebem à sua honra, depois da sua actuação naquele recinto elegante.
- Dakar recebeu-a festivamente. Os oficiais da marinha brasileira e os do navio português que ali se encontrava fundeado, organizaram uma recepção em sua honra.
- "La Vie en Rose". O êxito de Amália foi espalhado por todos os grandes jornais dos Estados Unidos. Um trato fabuloso que se repetiu por prazos consecutivos.
- Biarritz: No Casino Beleville o fotógrafo captou este belo instantâneo quando Amália cantava, acompanhada por Santos Moreira, para o Duque de Windsor. (Eva,1954: foto de Amália cantando no Casanova em Biarritz)
- Hollywood: Jeann Crain, Greer Garson, Rhonda Fleming e Jean Powell, vedetas internacionais do écran, prestam homenagem à vedeta internacional do fado.

Eva (Maio de 1954) - Amália, aquela desconhecida.

Estúdio (20-6-1954) Reportagem-entrevista de Neves de Sousa: "A mais humana das entrevistas com Amália"
"Num prédio vulgar da Rua de São Bernardo, em pleno coração do aristocrático bairro da Estrela, mora Amália, a maior artista portuguesa de todos os tempos, a única mulher que conseguiu transformar a melopeia dolente e bizarra do nosso Fado em instrumento melódico de nível internacional.
Cada vez que transponho os umbrais do 108 da Rua de São Bernardo, 2º andar, assalta-me uma estranha emoção, tanto mais forte quanto o motivo que ali me conduza. Mas Amália breve me põe à vontade. E, talvez só de tempos a tempos, eu recordasse que na minha frente, sentada naquele "fauteil" de cor grená, estava a diva do Fado, a portuguesa nostálgica e sentimental que deu à Canção Nacional a honra de correr mundo.

A quem Deus diz:
Cantar é o teu Fado!

"A arte em clarões fulge no teu olhar
Em ti, na raça, palpita a grandeza
Conquistando triunfos a cantar
Enalteces a gente portuguesa.

Na tua voz seráfica, a vibrar
Há requintes de ternura e beleza
com arte e graça sabes encantar
Seja a plebe, nobres ou realeza.

Alcançaste ser no Canto rainha
Nobre n'alma e bela como mulher
És ídolo dum Povo sublimado.

Estrela de Lisboa - a terra minha!...
Fadista a quem Portugal tanto quer
A quem Deus diz: Cantar é o teu Fado!..."

Este soneto singelo, simples como a alma saudosa dos lusitanos, ficará a assinalar a Amália a passagem triunfal por terras da livre América. Foi-lhe oferecido, na hora do seu regresso, por um grupo de funcionários da Casa de Portugal nos Estados Unidos da América.
Aquele grupo de faianças, que eu distingo artisticamente disposto naquele armário de vidro, é mais um rosário de recordações, das muitas em que é fértil a vida errante e nómada da mais nómada e errante das artistas lusitanas.
Uma guitarra... Um chaile negro... E, enquanto o relógio bate o seu tic-tac monótono e nervoso, Amália fecha os olhos e como que cai em transe. Então, é a minha altura de interrogar a bela e morena portuguesa, uma beleza estranha num moreno invulgar. Amália sussurra as respostas, quase tão devagar que o próprio silêncio que nos cerca cede o lugar à meditação. Então, Amália concede-me a mais humana das suas entrevistas...
Espanha... França... Inglaterra... Irlanda... Alemanha... Suiça... Holanda... Trieste... Dacar... Áfricas inglesa e francesa... Açores... Madeira... Angola... Moçambique... Brasil... México... Estados Unidos da América... Eis, a traços largos, o seu passaporte de artista internacional.
Ao princípio, receosa e tímida, tudo lhe parecia difícil. Agora, numa sequência de triunfais êxitos, tudo lhe parece normal, a ela que, pode dizer-se, ascendeu do nada ao ceptro de Rainha.
“Além de Raúl Nery e Santos Moreira, só eu e a minha fé. Faltavam poucos minutos para actuar, num palco enorme, com os focos crus dos projectores dissecando-me sem dó nem piedade.
"Se ao menos víssemos um português!" - disse-me o Santos Moreira. Palavras não ditas e irrompe pelo camarim um rapaz de Lisboa que se encontrava acidentalmente em Berlim. "Quis vir conhecê-la!" - disse-me. Apertei-lhe a mão como se estreitasse num elo muito forte a saudade que me avassalava, saudade de Portugal, de Lisboa, deste Tejo que me viu nascer e embalou os meus sonhos. O medo do público, o receio das apreciações, o espectro que pairava sobre a minha cabeça desapareceu como que por encanto. Daí a instantes, os próprios componentes da orquestra da Emissora de Berlim associaram-se ao êxito das minhas canções. Foi a primeira vez que tive medo!...
Há um breve silêncio que ambos aproveitámos para sorrir. O fumo do meu cigarro deixa no ar o traço fusiforme de uma grande espiral. Amália reclina-se um pouco mais e continua a sua divagação, como que folheando o invisível album das suas muitas recordações.
- Em Roma...
E eu fico a saber que na capital da Itália, num espectáculo sob a égide do Plano Marshall em que actuavam apenas artistas clássicos e - assim fora anuncida - como expressão de Arte popular a nossa Amália Rodrigues, a vedeta e os seus guitarristas (Santos Moreira e Raúl Nery) actuaram perante milhares de espectadores e à frente de perto de cento e cinquenta professores de música, componentes da Orquestra Sinfónica Nacional Italiana.
- Estávamos completamente deslocados. Os outros eram todos grandes artistas clássicos. Estavam presentes os maiores peritos de arte da Pátria de Miguel Ângelo e todos os críticos da exigente e conhecedora Itália. Tremia como varas verdes!... Só se podia cantar um número - tal a extensão do programa. Entrei em cena e o público foi tão carinhoso, tão amigo, tão acolhedor que eu cantei como sabia, com o sentimento e a expressão que nasceram comigo.
- E depois?
- Fui a artista que esteve mais tempo em cena: cantei cinco números perante os entusiásticos aplausos dos assistentes. E, tenho a certeza, mais cantaria, se uma crise de nervos não me fizesse - pela emoção do triunfo - entrar no primeiro camarim que encontrei e arrojar-me sobre um divã chorando como uma criança. Que grande triunfo ! Talvez o maior da minha carreira!...




O tempo continuava o seu declinar célere, veloz como Eolo. Lá fora, na São Bernardo, peixeiras e vendedeiras ambulantes apregoavam os produtos que tinham para venda. Os primeiros jornais vespertinos faziam a sua aparição no bairro. O ruido que, através das persianas semi-corridas, chegava até à salinha de estar da artista portuguesa que mais prestígio alcançou para a nossa Pátria desaparece, porém, sempre que Amália retoma a palavra.
Um "vermuthe" serve para a diva do fado afagar a sua voz, aquela voz de extraordinário timbre e magnífica limpidez que lhe tem valido uma das maiores carreiras dos anais artísticos portugueses. E Amália, olhos semi-cerrados, continua a falar.
Pelas suas palavras, noto distintamente a grande amizade que a prende a Santos Moreira, companheiro constante de 14 anos de glórias, triunfos e incertezas. E, já agora, uma sensacional novidade: Raúl Nery volta a tocar para Amália. De novo o mais apreciado guitarrista português é incluído na famosa trindade de êxitos onde o equilíbrio, a vontade e o entusiasmo formam uma avalanche irresistível e avassaladora.
- Na Irlanda...
Amália muda de assunto com a mesma facilidade com que canta. Vê-se que falar de assuntos puramente particulares não é, propriamente, o seu forte e, do meu lado, não será também muito correcto. Por isso, a transição da vedeta desvia o curso das suas ideias para o país dos verdes prados, a bela Irlanda que Ford cantou em "O Homem Tranquilo".
- Na Irlanda...
Passo a passo Amália fixa na retina da sua recordação o filme daquela noite. "Depois de um susto na viagem de avião..."
O ministro português anima-a, entusiasticamente, antes da sua actuação, de tão grande responsabilidade como todas aquelas em que Amália Rodrigues representa as cores de Portugal. Faltavam apenas três artistas para a portuguesa entrar em cena.
Actua Anne Shelton que se faz acompanhar de uma orquestra vinda expressamente dos Estados Unidos. A popular vedeta do Cinema, Rádio e Televisão americanas canta três melodias, abrindo uma excepção no programa que apenas admitia uma interpretação por cada artista. Seguem-se, como penúltimo número da velada de Arte, a actuação de um famoso duo de bailarinos acrobáticos ingleses e... é a vez de Amália
Entra em cena sem decotes exagerados, simples, discreta, elegante no seu vestido negro. Um xaile cobre-lhe os ombros e um sorriso rasga a sua boca. E Amália canta uma, duas, três... seis vezes! Seis vezes em que, por absoluta insistência do público, Amália arranca, naquele gigantesco desfile de "astros", a maior ovação da noite, lídima apoteose à Nação lusitana e à primeira das suas embaixatrizes artísticas.
Lutando, entusiástica e pertinazmente, contra a tradicional má fama e a pouca categoria musical do Fado, Amália tem conquistado os públicos de todas as latitudes. Ainda, muito recentemente, as suas actuações perante as exigentes plateias mexicanas e norte-americanas ficam como duradoiros marcos na estrada que Amália tem atapetado de flores, música e aplausos.
No México, por exemplo, comparam-na a Lúcia Rey - diva daquele belo país. Chegou a haver curiosidade em tentar descobrir-se se Amália não seria oriunda do México, tão bela era a sua maneira pessoalíssima de cantar, tão harmoniosa e correcta era a sua pronúncia marcadamente mexicana.
Se Amália fosse francesa, suplantaria em prestígio a própria Edith Piaff. Todos os públicos reconhecem esta afirmação, quer ela provenha - no dizer do gracioso soneto com que abrimos esta reportagem - da plebe, dos nobres ou da realeza. Pode, até, acrescentar-se que, onde canta Amália, palpita e vibra o coração sentimental desta terra de amores.
"Fallaste, corazon!"... "La vie en rose"... "Lisboa, não sejas francesa"... "Lá vai Lisboa"... "Ai, Mouraria"... "Tudo isto é fado"...